Exercício inútil Joca Souza Leão jocasouzaleao@gmail.com Enviado pelo autor
Fala sério! Que danado se passa na cabeça de um candidato em vésperas de eleição? À luz (luz?) de alguns indícios e circunstâncias, fiz o exercício (inútil, reconheço, absolutamente inútil) de perscrutar, para tentar penetrar no âmago de sua mente e especular sobre suas convicções e motivações, nem sempre saudáveis nem minimamente razoáveis ou lógicas, para conquistar votos. Esta semana, eu tava na cama depois do almoço, curtindo uma gripe daquelas de nariz entupidaço, tosse seca, febre e astenia até na alma, depois de uma noite pessimamente dormida, quando passou a porra de um carro de som por baixo do meu travesseiro. Passou, não. Parou. E ficou lá, repetindo até encher o saco, a todo volume, um jingle insuportável, com o nome e o número de um candidato a deputado, ilustre desconhecido (não sei quem inventou essa asneira de desconhecido ser ilustre, mas o fato é que quando a gente diz ou escreve “desconhecido”, o “ilustre” se oferece para antecedê-lo). O que se passa na cabeça do sacripanta candidato (ou candidato sacripanta) para azucrinar o juízo do eleitor? Óbvio, pô! Sacanear com a gente. “Como esses sacanas não vão mesmo votar em mim, eles vão ver o que é bom pra tosse...” (e se o cidadão estiver resfriado quiném eu tava, terá, mesmo, sucessivos acessos – de tosse e de raiva). E as convenções partidárias, hein? São piores ainda. Teve uma aqui perto de casa no final de junho. Mas, quem sou eu pra reclamar? Nas redondezas existem pessoas mil vezes mais incomodáveis. São vários hospitais e escolas, além de milhares de residências (com velhinhos, crianças, bebês e gente talvez mais doente do que eu com meu modesto resfriado). “Então, vamos soltar fogos! Muitos fogos! De estouro, claro. Uma salva de quinze em quinze minutos, durante todo o dia. E quando o candidato chegar, no final da tarde, a apoteose: dez minutos de ininterrupto bombardeio”. Isso, para infernizar a vida dos moradores e de quem trabalha ou estuda por aqui. E em relação aos transeuntes, nada? “Tudo! Vamos estacionar mais de cem ônibus nas cercanias. Isso deve ser o bastante pra dar um nó no trânsito de toda a região. Nossa convenção será inesquecível.” E foi. Como você vê, é fácil sacar o que se passa na cabeça dessa gente. Outro dia, dei-me à pachorra de contar o número de painéis, um encostado no outro, todos do mesmo candidato, na calçada de uma avenida: 36. Isso, trinta e seis painéis, um colado no outro. É ilegal. Mas e daí? “É a repetição da mensagem que consolida o voto”, diz o capadócio candidato, com impudente convicção. Aliás, os candidatos (e seus marqueteiros) repetem lendas na esperança de que, com a repetição, se tornem verdades. Uma delas, atribuem a Joseph Goebbels, o ministro da propaganda do 3º Reich de Hitler (como se vê, os caras tentam se inspirar em gente da melhor qualidade): “De tanto repetir uma mentira, ela acaba se transformando em verdade”. Não foi bem isso que disse o nobre colega. Mas, “Uma grande mentira sempre tem certa credibilidade”. Desde que verossímil, pertinente e aderente, obviamente. Pode-se repetir um milhão de vezes que borboleta é ave que ninguém vai acreditar. Todo mundo sabe que “borboleta só é ave na cabeça da mulher”, como diz o frevo de Capiba. Agora, se repetirem por aí que Paulo Maluf passou pelo Mercado de São José e roubou uma porrada de frangos, é verossímil; ele já roubou frango antes (da merenda escolar, lembra?). E por isso mesmo tá inelegível; é, finalmente, reconhecido oficialmente como ficha suja, imunda, podre. Goebbels era um camarada perverso, mas não era bobo de afirmar uma bobagem como essa de que mentira repetida vira verdade. O rapaz conhecia teoria e prática da comunicação como gente grande. Daqui a 26 dias, felizmente, acaba o período da propaganda eleitoral e a vida no Recife volta à sonoplastia normal: carrocinhas e bicicletas vendendo CD pirata com o som nas alturas, locutores de lojas fazendo pregão nas calçadas, música ao vivo em bares localizados em bairros residenciais, carros com caixas de som na mala e picapes, na carroceria, alto-falantes em igrejas evangélicas e, claro, carro de som anunciando a mais nova porcaria ao lado da sua casa, com preços de lançamento: “Aproveite!”
Joca Souza Leão é publicitário e cronista.
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Soneto do verão inaugural Jarbas Martins
Antes, bem antes que o verão estenda seus panos nos varais e seus cajus maturem o vão instante e antes que os ventos se soltem e cantem a tua lenda,
bem antes que do céu o ouvido atenda ao grito da gaivota que transluz, salte o peixe do mar, no ar esplenda o seu rastro veloz de escama e luz,
possa eu te amar em tua brônzea cama, em nossas noites de paixão e jogo, num entregar-se de dunas. sal e fogo,
murmúrios, quietudes, paz e drama, condenado ao jardim de tuas delícias, ao inferno (ateu céu), nossas primícias.
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Eu não quero ter 1 milhão de amigos Ivan Lessa
Alguma alma boa andou se lembrando de mim semana passada. Ou algum temperamento satânico. Recebi, como se enviado por velho amigo, um convite para fazer parte de uma dessas comunidades virtuais que proliferam mundo afora supostamente aproximando as pessoas. Facebook, MySpace, Twitter, todo mundo sabe quais são. Como a humanidade nasceu e morrerá sozinha, elas fazem o maior sucesso e o chamado social networking, para dar seu nome original, aliviam um pouco a nossa inata solidão. Por alguns momentos no decorrer de um dia canalha (os solitários só enxergam a canalhice dos dias), ou, na maior parte dos casos, algumas horas, é um tal de trocar dados pessoais (“sou moreno, gosto de música popular, futebol e tacar fogo em animais de pequeno porte”, ou então, “minha série favorita de televisão é CSI Miami, Leonardo DiCaprio faz minha praia e já li pelo menos 3 livros”), fotos incrementadas, endereços de outros infelizes, o diabo. Isso me lembra um bocado, pela amostragem que me amostraram, aqueles cadernos que, no ginasial, as mocinhas mantinham e faziam rodar pelos colegas. Esses cadernos levavam sempre um desenho do Alceu Penna recortado na capa, e constava de página após página de perguntas, sempre numa letra redondinha e caprichada. Os cadernos ficavam uma meia-hora ou mais com colegas dos dois sexos, como os haviam então*, e eram devidamente respondidos. A sério e com uma ponta de humor. Pronto, uma vez preenchidas as páginas, estava sedimentado mais um relacionamento que, se não fosse para a vida inteira, duraria o que devem durar as coisas e as artes ginasianas. Lembro-me de certas perguntas invariáveis, sempre feitas na segunda pessoa do singular, em todos esses cadernos (a marca era “Colegial”; sua capa azul). “Tens namorado ou namorada?” “Quais os seus astros de cinema prediletos?”, “E no cinema nacional?”. Uma dose de malícia fazia parte do questionário, “Onde pretendes passar a lua-de-mel?”, que os malandros mais safados respondiam, “Na cama”. Mais tarde, as donas do caderno, junto com as amiguinhas, liam as respostas entre risinhos. Impossível esquecer a pergunta final: “E por fim o que achas da dona deste caderno?”. Assim, não contando o balcão do cine São Luiz, no Largo do Machado, domingo de manhã, quando levavam um filme em pré-estreia, fomos nos conhecendo. Conhecendo pouco, muito pouco, quase nada, como no poema do Drummond, mas o suficiente para viver, chutar a bola para sempre. Flashback. Ou flash forward. Como eu ia dizendo, antes da tergiversação habitual, o tal do convite eletrônico de um suposto velho amigo. Era simples e direto. Dizia que Fulano de Tal (e aí seu nome por demais meu conhecido) queria ser meu amigo e que, caso eu topasse, bastava clicar numa das duas palavras abaixo: um “sim” e um “não” dentro de retângulos vermelhos. Claro que eu não ia dizer não ao bom camarada. Teclei lá que sim, que queria ser amigo dele, embora, já assim me considerasse. Cibernética é cibernética, manjo pouco, embarquei nessa. O verbo “embarcar” é o correto. No dia seguinte, na minha caixa eletrônica de correios, havia pilhas de pessoas querendo ser minhas amigas. Era como se eu tivesse cantado eletronicamente o “Eu quero ter um milhão de amigos”, do bom Roberto Carlos, e tivessem topado. Só um probleminha. Eu não quero ter um milhão de amigos. Dois ou três (é o que sobrou) me bastam. Dá para esse bate-bola de fim de jogo. Essa nova multidão virtual virou uma trabalheira. Eletronicamente, ou sei-lá-o-quê, o raio do sítio esse entrou pelo meu provedor de correspondência abrindo a porta com um pontapé e manteve refém toda minha longa lista de contatos. Atenção: eu disse “contatos”. Não disse “amigos”. Entre os contatos, lá se foram, para um suposto beleléu cibernético, meu contador, meu banco, meu advogado, gente que já partiu desta para melhor (não tenho coragem de dar uma “deletada” no arquivo deles que, sentimentalmente, guardei), sem falar nos chatos do imposto predial, do fornecedor de TV em HD e por aí afora. E botemos “aí afora” nisso. Pior é o que o sítio em questão tinha nome de bolero vagabundo: “Que Pasa”. Que nunca, jamais Lucho Gatica gravaria mesmo no auge de sua decadência. Eu deveria ter desconfiado. E o grilo do vírus? Achei que vinha, além da besteira que veio, o inferno virtual de um potente vírus, malware dos mais mal encarados, troiano safado, esses bichos. Até agora, nada. E bato na madeira três vezes. Toque, toque, toque. História mais desinteressante não pode haver. Valeu apenas pela saudade daqueles cadernos que corriam a sala de aula e o recreio do velho colégio. Que, esse sim, passou. Passou mesmo.
* Oi, e hoje tem mais de dois? Ou será mais uma inalcançável, hermética e complexa metáfora do Ivan?
JL
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Estudo preliminar concluiu que maconha reduz a dor crônica
Fumar maconha em cachimbo pode reduzir significativamente a dor crônica em pacientes com nervos danificados, revelou um pequeno estudo feito no Canadá. O experimento, envolvendo 23 participantes, também melhorou o sono e reduziu a ansiedade entre os que fumaram a droga. Em artigo publicado na revista científica Canadian Medical Association Journal, os cientistas disseram que são necessários mais estudos, em larga escala e com a utilização de inaladores. Comentando o trabalho, especialistas britânicos disseram que a melhoria na dor foi relativamente pequena, mas acrescentaram que o trabalho pode ter implicações importantes. Entre 1 e 2% da população sofrem de dor neuropática crônica - dor resultante de problemas de sinalização entre os nervos -, porém há poucos tratamentos disponívels. Segundo relatos de alguns pacientes que sofrem dessa condição, fumar maconha melhora seus sintomas. Isso levou pesquisadores a investigar se a ingestão de canabinóides - as substâncias químicas presentes na erva cannabis - em forma de pílula poderia produzir o mesmo efeito. A equipe da McGill University, em Montreal, disse, no entanto, que faltam estudos clínicos com pacientes fumantes da erva. Potências Durante o estudo, foram usadas maconhas com três potências diferentes - contendo 2,5%, 6% e 9,4% do ingrediente ativo tetrahidrocanabinol, THC - e placebos. Sob supervisão de enfermeiros, usando cachimbos, os participantes inalaram uma dose única, de 25mg de maconha, três vezes ao dia durante cinco dias. Depois de um intervalo de nove dias, eles repetiram a operação até completar quatro ciclos. Comparados aos pacientes que ingeriram placebos, os participantes que receberam as maiores doses de THC sentiram menos dor, dormiram melhor e sentiram menos ansiedade, concluíram os autores do estudo. O líder da equipe, Mark Ware, disse: "Até onde sabemos, este é o primeiro estudo clínico com pacientes não internados usando maconha fumada de que se tem notícia". Ware disse que estudos de longo prazo, com cannabis mais potentes e usando inaladores especiais que permitem maior controle das dosagens, são necessários para que se obtenha resultados mais precisos e também para que se avalie a segurança do tratamento. Repercussão Segundo o médico Tony Dickenson, do University College of London, vários pacientes com dor crônica dizem se beneficiar da cannabis, mas ele alerta que a auto-medicação é perigosa. Dickenson notou que a redução da dor revelada pelo estudo foi pequena, mas acha que a droga pode fazer diferença para pacientes com dor crônica que sofrem de insônia e depressão por causa de sua condição. Também valeria a pena investigar se inalar a droga seria mais efetivo do que ingeri-la por via oral, ele acrescentou. "Talvez seja importante encontrar pacientes que respondam particularmente bem (à cannabis) pois é possível que ela não seja adequada para alguns grupos, como pacientes mais idosos". "(Os pesquisadores) não conseguiram tantos voluntários quando queriam para os testes e isso demonstra como esse tipo de pesquisa é difícil de realizar", acrescentou. Outro especialista, o neurocientista Peter Shortland, do St Bartholomew's Hospital e da London School of Medicine and Dentistry, ressaltou o fato de que "fumar a droga não produziu os efeitos mentais comumente associados à cannabis de potência total". Para ele, o estudo foi um passo importante e precisa ter continuidade.
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Tudo mal: Jabor Marcos Silva Enviado pelo autor
Arnaldo Jabor foi um bom diretor de cinema, "Tudo bem" e "Toda nudez será castigada" são frutos tardios do Cinema Novo (pós-Macunaíma) que merecem ser revistos sempre. Ele optou, nos últimos longos e insuportáveis anos, por Imprensa e Televisão. Seu estilo (?) é lamentável. A mescla de Glauber Rocha com Paulo Francis deu em nada ou em tudo de ruim - Tudo mal! Criticar Lula é normal e até necessário. Assim como criticar o PSDB é normal e até necessário. Mas Jabor assumiu o pífio papel de ideólogo anti-Lula. Para tanto, renunciou a elementos mínimos de argumentação lógica em nome da ideologia peessedebista. Daí, FHC é o bem, Lula é o mal. Se os papéis se inverterem, continuaremos na mesma: é preciso argumentar com um mínimo de análise e demonstração. FHC e Lula não nasceram do nada nem fizeram o país a sua imagem e semelhança - não são Deus! Chamar os oponentes de soviéticos e bolch eviques é ignorar até a queda do Muro de Berlim! Insulto não é explicação. Discussão política não pode se deter em moral do ressentimento - ódio contra os que estão por cima. Os que estão por cima resistem muito bem a esse ódio, que paralisa apenas quem odeia. É preciso analisar e apresentar argumentos alternativos efetivos, diferentemente do que faz uma torcida frustrada. Melhor rever "Tudo bem" e "Toda nudez será castigada".
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Enviado pela Ong Baobá
Natal (RN), 30 de agosto de 2010.
Caros amigos,
Semana passada, fiquei impressionado com a irracionalidade e a atitude com que tratamos nossos companheiros vivos deste planeta. Principalmente os grandes responsáveis por absolver em parte os 8 bilhões de toneladas de carbono promotor das mudanças climáticas, que despejamos anualmente na atmosfera. Quatro árvores foram cortadas, na praia da Pipa, rua situada em Ponta Negra, defronte uma loja. Uma tamarineira, uma tulipa tropical e uma algarobeira já foram totalmente sacrificadas, restando um oiti que teve seus galhos totalmente cortados. Segundo as pessoas contratadas, para realizar o serviço, usando motoserra e machado, alegaram que o proprietário do imóvel, recebeu autorização da Semsur, o que acho improvável, já que as árvores encontravam-se em perfeito estado de conservação. Em todo o caso, foi pessoalmente nesta segunda-feira, 30 de agosto, esclarecer o caso na referida Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, para entender melhor este incidente. Quais foram os motivos que levaram esse proprietário a tomar essa medida tão violenta? Segundo um morador da rua, as árvores estavam no passeio público há mais de 25 anos. Com uma cópia da autorização do “Parecer Técnico de nº 377/2010, da SEMSUR, fiquei espantado e indignado sobre um dos problemas constatados: “raízes com afloramento danificando a calçada, meio-fio, leito viário, redes subterrâneas e estrutura do imóvel” e da conclusão e sugestão de procedimento: “posicionamos favoravelmente a retirada das três plantas = Tamarindo, Algaroba e Tulipa com substituição por espécies nativas em local adequado...” e no item dois da Autorização para Remoção de Árvore nº 377/2010 segue o seguinte texto: que se proceda ao plantio de três espécime nativo adaptado ao local. O que podemos concluir sobre este caso?
Primeiro - podemos citar os benefícios que elas proporcionavam a sociedade: absorção de carbono, anteriormente comentado; conforto térmico; produção de frutos; floração para embelezar a paisagem; abrigos para animais e fornecimento de alimentação para abelhas, aves e animais.
Segundo – Em momento algum, foi mencionado o volume ou credito que estas árvores absorvem carbono.
Terceiro – Quanto tempo levará as novas árvores para realizar o trabalho que as anteriores prestavam.
Quarto – Contestamos o laudo técnico, sobre o afloramento das raízes, em momento algum elas estavam danificando a calçada, o meio-fio ou leito viário.
Quinto – Que valores e exemplos estamos deixando para os nossos filhos? O desmatamento é uma importante causa do aquecimento global. A proteção das árvores deveria se tornar uma prioridade absoluta quando levamos em conta o aquecimento global.
Sexto – Concluimos que as árvores simplesmente foram abatidas porque não são brasileiras ou melhor dizendo nativas. O oiti, foi poupado porque ele É brasileiro. O que importa? Se são africanas, brasileiras ou paraguaias.... Elas são...
O tamarindo é originaria das savanas da África tropical da família das leguminosas. Chegou ao Brasil, trazido pelos portugueses no início do século 17. O tamarindeiro é capaz de produzir durante 200 anos e pode chegar aos 30 metros de altura. A tulipa tropical, é uma árvore africana nativa do Quênia e da Uganda, é uma espécie com crescimento considerado, na floração, possui um lindo conjunto de flores. O oiti é uma árvore nativa do Brasil e mais comum no Nordeste. Por ser muito resistente é usada amplamente no paisagismo urbano. A algarobeira, foi introduzida no Brasil em 1942, especialmente no nordeste, na Estação Agrícola de Serra Talhada/PE, com semente originarias dos Andes do Peru. Sem mais...
Atenciosamente,
Haroldo Mota
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O cenário bioético no Brasil César Augusto Soares da Costa Fonte:http://www.eumed.net/cursecon/ecolat/br/09/casc.htm Enviado por Geraldo Barboza de Oliveira Jr
Que relação poderíamos estabelecer entre ética e vida? Quais seriam os limites de um discurso ético na sociedade contemporânea? Tendo em conta estes questionamentos, próprio de uma época de fragmentação do conhecimento e que submete o sujeito à sua lógica, emerge uma nova possibilidade de discussão em torno ao problema da vida. Pois a Bioética chegou ao Brasil em meados da década de 90. Ainda assim, neste período o Conselho Federal de Medicina (CFM) lança o primeiro periódico na área. Após esta iniciativa se organiza um pensamento comum em torno da questão com a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), tal como a Sociedade Brasileira de Bioética (SBB).
Hoje percebemos que a bioética compreende o estudo das dimensões morais das ciência da vida, utilizando uma variedade de metodologias éticas num contexto mais amplo, sendo uma temática que ganha aceitação em grande parte como uma tentativa de apresentar reflexões em torno de novos dilemas éticos que se apresentam ao mundo científico. O termo surgiu no início da década de 70 nos Estados Unidos, onde Van Potter foi o primeiro a utilizar o neologismo em seu famoso Bioethics: bridge to the future (1971). Atualmente a bioética ganha uma surpreende aceitação em escala global, em parte como uma tentativa de apresentar sinais de como lidar com os novos problemas éticos que o mundo técnico-científico levanta ao interferir no mundo da vida. Logo, com as Comissões Nacionais de Bioética, os centros de estudos que se multiplicam, as centenas de publicações na área que emergem e os congressos são uma evidência desta nova percepção. Aqui na América Latina e no Brasil, onde a bioética é mais recente, já possuímos inúmeras iniciativas sobre esta temática. Prova disso, são os enfoques inter e transdisciplinares, onde a bioética procura, na dinâmica de sua execução a interagir com as diversas instância do saber, indo de encontro aos problemas do mundo contemporâneo: da ciência e da vida, do antropológico ao ecológico, do pedagógico ao jurídico, do biológico ao social, do humanístico ao transcendente. Isto significa, novos tempos para a construção do saber! Depois de pouco mais de quarto de século do aparecimento desta nova “área” vista como ciência ou movimento intelectual como alguns a denominam, a bioética se apresenta sob vários paradigmas, característicos da fragmentação ética reinante na sociedade chamada de pós-moderna. Vislumbrando o surgimento de temas éticos, que tratam das questões primordiais ligadas ao início da vida, do desenvolvimento da pessoa, aborto, eutanásia, doação de órgãos, paternidade responsável à temas como políticas de população, engenharia genética, ecologia, saúde e efetivação da cidadania, nos questionamos: o que nos aguarda no próximo milênio e qual a contribuição que as diversas áreas do conhecimento podem dar em termos de uma reflexão aberta ao debate epistemológico contemporâneo? Eis o ponto de partida para uma discussão responsável.
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A pobreza social a partir da bioética Alexandre Andrade Martins * Fonte: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=34933 Enviado por Geraldo Barboza de Oliveira Jr
A pobreza existente no mundo assombra os olhos de quem é sensível ao sofrimento do semelhante. A situação de miséria, de opressão e de exclusão existente no planeta Terra é de causar arrepios, incomoda alguns, mas infelizmente não passa de um arrepio em outros, que motivados pela ganância consumista do capitalismo e impregnados pelo individualismo são indiferentes ao sofrimento alheio. Tragicamente a pobreza marca a realidade de algumas nações, sobretudo na África, na América Latina e na Ásia. Uma marca cravada no coração do planeta, que exige uma atitude capaz de mudar tal situação. A ONU traçou metas para o Desenvolvimento do Mundo na sua assembléia geral de 2002. Seu objetivo principal é reduzir a pobreza no mundo em 50% até 2015. Um grande desafio, um dos maiores da humanidade, para não dizer o maior. Sendo assim, a bioética não pode ficar alheia à dor dos pobres. A bioética, como um saber interdisciplinar que defende a vida e a sua dignidade, precisa contemplar o rosto sofrido da pobreza, pois aí está a grande ameaça à vida no mundo subdesenvolvido. Por muito tempo a bioética ficou restrita a uma reflexão ligada ao mundo médico-científico dos países desenvolvidos. Daí nasceu e se consolidou o principialismo, doutrina regida por princípios fundamentais para conduzir as pesquisas envolvendo seres vivos e a aplicação de novos saberes. São eles: principio de beneficência, princípio de não-maleficência, princípio de autonomia e princípio de justiça, que sempre ficou na tangente dos outros três nos países ricos, sendo acionado apenas quando ocorriam expressivas injustiças promovidas na alocação de recursos públicos. O princípio mais reconhecido seria o de autonomia, pois, dentro de uma lógica liberal vivida por esses países, todos têm prioridades sobre si mesmos em vista do bem comum. Esse modelo bioético pouco volta-se para o pobres porque parte de sujeitos sociais em grau de igualdade. O princípio de justiça chega mais próximo da pobreza, mas ficou na tangente. A bioética extrapolou as fronteiras do mundo desenvolvido e chegou às nações em desenvolvimento e às pobres. Assim ela chegou na América Latina e na África, mas trouxe consigo o padrão principialista, insuficiente para essas realidades marcadas pela desigualdade, pela injustiça e com grande pobreza. Durante anos, a bioética feita no terceiro mundo não olhou para os pobres com um olhar de sensibilidade e não viu aí um campo de reflexão e atuação, porém isso começa a mudar e atualmente damos destaque para a reflexão bioética feita na América Latina, que começa a dar seus primeiros passos sozinha. Passos em direção aos problemas sociais e aos pobres. O foco principal da reflexão muda, deixa de ser o que acontece "lá em cima" com as pesquisas científicas referentes à aplicação de novas técnicas acessíveis apenas aos ricos (camada muito pequena na América Latina, cuja principal marca é a desigualdade) e volta-se "cá para baixo", onde estão os sujeitos mais vulneráveis, excluídos dos avanços técnico-científicos, porque não podem pagar pela tecnologia e ainda morrem em filas de hospitais (sem atendimento), de fome e de doenças infecciosas facilmente controladas. Apenas depois dessa mudança de foco ocorrida na América Latina, podemos falar de pobreza social a partir da bioética, pois antes ela estava em segundo ou terceiro plano para esse saber caracterizado pelo principialismo dentro da elite científica e social. As barreiras de uma bioética elitista estão sendo rompidas, mas ainda de forma tímida. Os pobres ganham centralidade na reflexão bioética, mas, por outro lado, essa reflexão ainda não chegou até eles, não se popularizou, continua nas mãos de uma elite acadêmica e tem pouquíssima força de intervenção social capaz de transformar a realidade desigual e pobre. Os interesses das elites, tanto das políticas como dos ricos e das empresas que financiam pesquisas, não estão voltados para combater à pobreza e promover o bem comum. Ainda permanecem centrados no interesse econômico com base única e exclusivamente no lucro e no poder. Os pobres para a bioética são sujeitos concretamente vulneráveis com a vida ameaçada de todos os lados e excluídos dos benefícios proporcionados pelas descobertas técnico-científicas, sobretudo no campo das ciências da saúde, pois não podem pagar pelo saber e não existem políticas públicas eqüitativas capazes de oferecer um bom atendimento de saúde e satisfazer as necessidades básicas para uma vida digna. Os pobres clamam por justiça e libertação. Clamores que fazem a bioética dar mais importância para o princípio de justiça, sem ser principialista, mas que seja capaz de uma intervenção na sociedade orientada para os mais vulneráveis. Assim começa a falar de uma bioética de intervenção, em defesa dos interesses e direitos históricos das populações economicamente e socialmente excluídas do processo desenvolvimentista mundial (GARRAFA; PORTO, 2003 p.35). Os pobres foram excluídos do desenvolvimento histórico do mundo, o qual evoluiu, mas gerou mais pobreza, miséria e exclusão. Uma evolução para poucos, pois seus benefícios são para alguns enquanto a maioria vive aquém do desenvolvimento, vítimas do poder econômico e da injustiça social. Em vista da realidade dos pobres, conceitos como equidade, igualdade, justiça social e libertação tornam-se centrais. Reconhece-se e existência clara de uma vulnerabilidade na dimensão social e ela está relacionada à pobreza e à exclusão. No processo desse reconhecimento por parte da bioética latino-americana, temos a contribuição crucial da Teologia da Libertação, uma corrente do pensamento teológico, que para além das fronteiras da religião católica, foi gestada no ventre sofrido dos pobres do continente. Ela fez opção preferencial pelos pobres, mostrou a grande situação de iniqüidade existente no subcontinente americano e que algo precisa ser feito em vista da transformação da sociedade, da libertação dos pobres, oprimidos e excluídos. Uma transformação vinda de baixo, dos meios populares, à luz dos direitos à vida digna, na luta pela libertação e na força da fé. A Teologia da Libertação defende a dignidade dos pobres e vulneráveis e não a faz guiada por proposições abstratas, mas sim apontando os responsáveis pelas mazelas sociais e identificando caminhos para a libertação (SIQUEIRA; PORTO; FORTES, 2007, 175). A bioética nutre-se do diálogo. Assim ocorre no diálogo com a Teologia da Libertação, que temos como fruto o voltar-se para os pobres e fazer opção por eles, por uma vida digna. A pobreza é um rosto sofrido a ser contemplado pela bioética no mundo inteiro, sobretudo nos países subdesenvolvidos. Algo que leva a uma intervenção na sociedade para a libertação e a vida digna de todos e não apenas dos ricos. Para a bioética, os pobres são a população vulnerável, a qual precisa ser protegida e para a qual precisa devolver os direitos negados pela evolução da história para então chegarmos a uma maior igualdade e, no mínino, reduzir a pobreza mundial pela metade, como deseja a ONU. Porém igualdade não é ponto de partida, mas, sim, ponto de chegada para a justiça social e a garantia do direito a uma vida digna. A eqüidade vem antes para se chegar à igualdade, pois ela reconhece as necessidades básicas diversas nos sujeitos diferentes e desiguais para atingir objetivos iguais. Os pobres, a partir da bioética, são os sujeitos mais vulneráveis concretamente existentes no mundo. Eles são lançados nessa situação marginal, fincando entregues à própria sorte e sofrendo as dores de uma injustiça histórica. Sofrem todo tido de exclusão e opressão; são vítimas da desigualdade e ficam às margens do avanço técnico-científico mundial; estão enfermos e sem atendimento de saúde; vivem em situação precária de moradia, de higiene e de saneamento básico; sofrem com o desemprego e a carência educacional; são descriminalizados pela cor, pela etnia e pelo gênero e nada conseguem fazer, pois, mantidos na ignorância, são manipulados pela ideologia dominante que está nas mãos dos interesses das elites. A bioética precisa intervir nessa realidade, chegar às camadas populares e formar consciência capaz de levar à luta pela dignidade de todos, com sensibilidade, vigor, coragem, esperança e fé.
Bibliografia
ANJOS, M. F. Bioética em perspectiva de libertação. In: GARRAFA, V.; PESSINI, L. (orgs). Bioética: poder e injustiça. São Paulo: Loyola, 2003, p. 455-465. ______. Teologia da Libertação e bioética. In: PRIVETERA, S. Dicionário de bioética. Aparecida: Santuário, 2000, p. 1068-1070. BERLINGUER, G. Bioethics, power and injustice. . In: GARRAFA, V.; PESSINI, L. (orgs). Bioética: poder e injustiça. São Paulo: Loyola, 2003, p. 45-58. CELAM. Documento de Aparecida. Brasília: edições CNBB; São Paulo: Paulinas; Paulus. 2007, p. 301. GARRAFA, V; PORTO, D. Bioética, poder e injustiça: por uma ética de intervenção. In: GARRAFA, V.; PESSINI, L. (orgs). Bioética: poder e injustiça. São Paulo: Loyola, 2003, p.35-44. PESSINI. L.; BARCHIFONTAINE, C. P. Algumas questões para o futuro da bioética na região latino-americana. In: ______; ______ (orgs). Bioética na ibero-américa: história e perspectivas. São Paulo: Centro Universitário São Camilo; Loyola, 2007, p. 369-379. SIQUEIRA, J. E.; PORTO, D.; FORTES, P. A . C. Linhas temáticas da Bioética no Brasil. In: SIQUEIRA, J. E.; ANJOS, M. F. (orgs). Bioética no Brasil: tendências e perspectivas. Aparecida: Idéias e Letras; São Paulo: Sociedade Brasileira de Bioética, 2007, p. 161-184. GRACIA, Diego. Fundamentación y enseñanza de la bioética. 2. ed. Bogotá: editoral El Buho, 2000. GUTIÉRREZ, G. Teologia da libertação. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1983. 275 p.
Religioso Camiliano. Filósofo
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Tardio e profundo Christian Morgenstern
Maliciosa como uma palestra dourada, esta noite começa. Comemos as maçãs dos mudos. Fazemos uma obra, entregamo-la nas mãos da nossa estrela. Encontramo-nos no Outono das nossas tílias como vermelho de bandeira, em meditação, como hóspedes do Sul, queimados. Nós juramos ao Novo, por Cristo, unir o pó ao pó, os pássaros ao sapato migrante, o nosso coração a uma escada na água. Nós juramos ao mundo a sagrada promessa da areia, Nós juramo-la de boa vontade, Nós juramo-la bem alto de cima dos telhados do sono sem sonhos e agitamos o cabelo branco do tempo...
Eles gritam : Vós blasfemais!
Nós já sabemos isso há muito tempo. Já sabemos isso há muito tempo, mas que fazer? Vós moeis no moinho da morte a branca farinha da promessa Vós colocai-la à frente dos nossos irmãos e irmãs
Nós agitamos o cabelo branco do tempo.
Vós avisais-nos: vós blasfemais! Nós sabemo-lo bem: caia a culpa sobre nós. Caia a culpa de todos os avisos e sinais sobre nós e venha o mar gorgolejante, a couraçada rajada da conversão, o dia da meia-noite, que venha o que nunca foi!
Venha um homem da sepultura.
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O Vizinho Franz Kafka
Meu negócio descansa inteiramente sobre os meus ombros. Duas senhoritas com suas máquinas de escrever e seus livros comerciais no primeiro quarto, e uma escrivaninha, caixa, mesa de informações, cadeiras de braços e telefone no meu, constituem todo meu aparalhamento de trabalho. É muito fácil controlar isso com uma vista de olhos, e dirigi-lo. Sou muito jovem e os negócios se acumulam aos meus pés. Não me queixo, não me queixo. Desde o Ano Novo, um jovem alugou sem hesitar a sala contígua, pequena e desocupada, que por tanto tempo titubeei, estupidamente, em tomar para mim. Trata-se de um quarto com antecâmara e, além do mais, uma cozinha. Tivesse podido utilizar o quarto e a antecâmara – minhas duas empregadas sentiram-se mais uma vez sobrecarregadas em suas tarefas -, mas, para que me teria servido a cozinha? Esta pequena hesitação foi a causa de permitir que me tirassem a sala. Nela está instalado, pois, esse jovem. Chama-se Harras. Com exatidão não sei o que faz ali. Sobre a porta lê-se: “Harras, escritório”. Pedi informações, comunicaram-me que se trataria de um negócio idêntico ao meu. Na realidade, não vem ao caso dificultar-lhe a concessão de crédito, pois se trata de um homem jovem e de aspirações, cujas atividades tenham talvez futuro, mas não se poderia, contudo, aconselhar que se lhe outorgue crédito, pois atualmente, segundo todas as presunções, careceria de fundos. Quer dizer, a informação que se dá habitualmente quando não se sabe de nada. Às vezes encontro Harras na escada, deve ter sempre uma pressa extraordinária, pois se escapule diante de mim. Nem mesmo pude vê-lo bem ainda, e já tem pronta na mão a chave do escritório. Num instante abre a porta, e antes que o observe bem já deslizou para dentro como a cauda de uma rata e aí tenho outra vez à minha frente o cartaz “Harras, escritório”, que li muitas mais vezes do que o merece. A miserável finura das paredes, que denunciam o homem eternamente ativo, ocultam porém o desonesto. O telefone está apenso à parede que me separa do quarto de meu vizinho. Não obstante, destaco-o apenas como constatação particularmente irônica. Mesmo quando pendesse da parede oposta, ouvir-se-ia tudo da sala vizinha. Evitei o meu costume de pronunciar ao telefone o nome de meus clientes. Mas não é necessária muita astúcia para adivinhar os nomes através de característicos mas inevitáveis torneios da conversação. Às vezes, aguilhoado pela inquietação, sapateio nas pontas dos pés em volta do aparelho, com o receptor no ouvido, mas não posso impedir que se revelem segredos. Naturalmente, as resoluções de caráter comercial se tornam assim inseguras e minhas voz, trêmula. Que faz Harras enquanto telefono? Se quisesse exagerar muito – o que é preciso fazer com freqüência para ver claro -, poderia dizer: Harras não precisa telefone, usa o meu, colocou o sofá contra a parede e escuta; eu, em troca, quando o telefone toca, devo ir atender, tomar nota dos desejos do cliente, adotar resoluções graves, sustentar conversações de grandes proporções, porém, antes de tudo, proporcionar a Harras informações involuntárias, através da parede. Ou antes, nem mesmo espera o fim da conversação, porém que se ergue depois da passagem que lhe informa suficientemente sobre o caso, atira-se, segundo o seu costume, através da cidade e, antes de eu ter pendurado o receptor, está talvez trabalhando já contra mim.
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Kaguya Hime Anônimo
Há muito, muito tempo, existia um velhinho e uma velhinha, que viviam juntos numa casa no meio da floresta. Eles eram muito pobres e solitários, pois não tinham filhos para criar. O velhinho era conhecido pelo nome de Cortador de Bambus, pois, todos os dias, ele saía cedo para cortar bambus na floresta. Os dois faziam cestas e chapéus para vender e ganhar algum dinheiro. Um belo dia, enquanto estava na floresta, o velhinho avistou um broto de bambu, que brilhava, com uma luz muito intensa. Ele ficou espantado, pois, em anos e anos de trabalho, nunca havia visto algo como aquilo. Muito curioso, ele cortou o bambu e mal pôde acreditar no que viu. “Uma menina, uma menina! Tão pequena e tão linda, só pode ser um presente de Deus!”. Ele levou a pequena menina na palma de uma de suas mãos para casa. Ao ver a menina, a velhinha também ficou muito contente e eles resolveram que o nome dela seria Kaguya Hime (Princesa Radiante). A partir daquele dia, o velhinho passou a encontrar outros bambus brilhantes na floresta. Mas, ao invés de uma menina, eles continham moedas de ouro. Assim, a vida do casal melhorou e eles não precisavam mais produzir cestos para sobreviver. Eles creditaram o milagre à chegada de sua linda filha. Kaguya Hime crescia muito rápido e a cada dia parecia mais bonita. Em apenas três meses, ela já tinha o tamanho de uma criança de oito anos. Ninguém poderia acreditar que uma pessoa tão bonita pertencesse a este mundo. Logo os comentários sobre a beleza da Kaguya Hime se espalharam e vinham jovens de todos os cantos do país para conhecê-la. Todos queriam se casar com Kaguya, mas ela não queria se casar com ninguém. “Quero ficar ao lado de vocês dois”, dizia a jovem para seus pais. Mas cinco jovens nobres, de posições importantes, foram mais persistentes. Eles acamparam em frente à casa de Kaguya Hime e pediam uma chance a ela. Preocupado, o velhinho chamou Kaguya e disse: “Minha filha, eu gostaria muito de ter você sempre por perto, mas acho justo que se case. Escolha um dentre os cinco rapazes que estão acampados aqui”. Assim, a linda jovem decidiu. “Eu me casarei com aquele que me trouxer o objeto mágico que pedirei” Um colar feito com os olhos de um dragão, um vaso feito com pedras dos deuses que nunca se quebra, um manto de pele de animal forrado de ouro, um galho que faz crescer pedras preciosas, um leque que brilha como a luz do sol e uma concha que a andorinha põe junto com seus ovos. Estes foram os objetos que Kaguya Hime pediu. O velhinho levou os pedidos de Kaguya aos pretendentes acampados. Ele sabia que seria muito difícil conseguirem obter tais objetos. Qual não foi sua surpresa quando, ao final de alguns meses, todos os pretendentes trouxeram os presentes para Kaguya. Mas, quando eles foram obrigados a entregá-los a jovem, todos admitiram que os presentes eram falsos, pois conseguir os verdadeiros era uma missão muito difícil. E assim, nenhum deles obteve êxito. Quatro primaveras haviam se passado desde que Kaguya fora encontrada no broto de bambu. Mas ela ficava mais triste a cada dia. Noite após noite, Kaguya Hime olhava para a lua, suspirando. Preocupado, o velhinho um dia perguntou: “Por que está tão triste minha filha?”. “Eu gostaria de ficar aqui para sempre, mas logo devo retornar”, disse a jovem.” “Retornar, mas para onde? O seu lugar é aqui conosco, nunca deixaremos você partir”, disse o pai aflito.” “Este não é o meu reino, eu sou uma princesa de Reino da Lua e, na próxima lua cheia, eles virão me buscar”. Muito assustados com a reveladora confissão de Kaguya Hime, os velhinhos decidiram pedir ajuda ao príncipe do reino onde viviam. O príncipe ajudou e enviou muitos guardas para vigiarem a casa do casal. Um verdadeiro exército foi formado. No dia seguinte, a temida noite de lua cheia chegou. A casa estava tão vigiada que parecia impossível alguém conseguir levar Kaguya Hime. De repente, uma enorme luz surgiu no céu, como se milhares luas estivessem presentes ao mesmo tempo. A luz era tão intensa que ninguém conseguiu enxergar a carruagem que descia, guiada por um grande cavalo alado e muitas pessoas bem vestidas. Depois de algum tempo, quando a luz diminuiu, a carruagem já estava voando, em direção à lua. Kaguya Hime não estava mais presente, ela fora junto com a comitiva. Os velhinhos ficaram muito tristes, inconformados. Voltaram ao quarto de Kaguya e encontraram um potinho, presente da filha querida. Ela havia deixado um pó mágico, que garantiria a vida eterna para os dois. Mas, sem sua filha amada, os velhinhos não queriam viver para sempre. Eles recolheram todos os pertences de Kaguya e levaram para o monte mais alto do Japão. Lá, queimaram tudo, junto com o pó mágico deixado pela jovem. Uma fumacinha branca subiu ao céu naquele dia. A montanha era o Monte Fuji. Dizem que até hoje é possível ver a fumacinha subindo e subindo.
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O Artista Oscar Wilde
Um dia, despertou-lhe na alma o desejo de esculpir uma estátua do Prazer que dura um instante. E partiu pelo mundo à procura do bronze, porque ele só podia trabalhar o bronze. Mas todo o bronze existente no mundo havia desaparecido e em nenhuma parte o metal seria encontrado, a não ser na estátua da Dor que é permanente. E fora ele que, com as próprias mãos, fundira essa estátua, erigindo-a no túmulo de alguém a quem muito amara na vida. E na tumba da morta, que tanto amara, colocou a própria criação, como um símbolo do amor masculino, que é imortal, e a dor humana, que dura a vida inteira. E em todo o mundo não havia bronze, a não ser o dessa estátua. Ele, então, retirou a estátua que moldará, põ-la num grande forno, deixando-a derreter-se. E com o bronze da estátua da Dor que é permanente, fundiu a do Prazer que dura um instante.
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Sinaá – O Fim do Mundo Lenda indígena
Sinaá, o mais poderoso pajé da tribo Juruna, era filho de mãe índia e pai onça. Do felino herdara o poder de enxergar também pelas costas, o que lhe permitia observar tudo o que se passava ao seu redor. Caminhava com sua gente por toda a região, ensinando a seus companheiros serem bons e bravos. Seu povo alimentava-se de farinha de mandioca, raspa de madeira, jabutis e sucuris, cobras imensas que habitavam na água. Certa vez, uma enorme sucuri foi capturada e queimada por haver devorado diversos índios. Inesperadamente brotaram de suas cinzas diversas espécies de vegetais, como a mandioca, o milho, o cará, a abóbora, a pimenta, e algumas plantas frutíferas, até então desconhecidas para aquela tribo. Foi um pássaro surgido do céu que os ensinou a utilizar e preparar tais alimentos e também a fazê-los multiplicar-se. A partir daquele dia, fartas roças se formaram. Para garantir o sustento de seu povo, Sinaá, face às fortes chuvas e à ameaça de grande inundação, construiu uma imensa canoa, onde plantou mudas de cada espécie. Em poucos dias o rio transbordou e a enchente cobriu toda a região, mas o grande pajé livrou seu povo da fome. Já mais velho, Sinaá casou-se com uma aranha, que lhe teceu novas vestes pra melhor abrigá-lo. Chegando a atingir idade bastante avançada, já ostentava longas barbas brancas. Seus poderes, porém, permitiam-lhe remoçar a cada banho de cachoeira, para que pudesse viver até o fim de seu povo, como tanto queria. Quando isso ocorresse, Sinaá derrubaria a forquilha de uma enorme árvore que apontava para o céu, sustentando-o. O céu desabaria sobre todos os povos e o mundo teria o seu fim.
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Sobre o "Boletim Sentimental da Guerra no Recife” Marcos Silva Enviado pelo autor
Não vivi a época da Segunda Guerra Mundial, nasci depois. Mas tenho lembranças de infância que incluem homens e mulheres falando sobre a presença dos americanos em Natal, o deslumbramento de muitas mocinhas com os soldados ianques, namoros, transas, até gravidez - teve caso de americano que casou com namorada brasileira, minha mãe conhecia duas moças que foram pros EEUU com os maridos! Mauro Motta (foto) é um bom poeta, pai do excelente antropólogo Roberto Motta - ter um filho como Roberto já é um grande ato poético. Lembro do poema "Boletim sentimental da Guerra no Recife"* sendo declamado em Natal por uns amigos de esquerda, com ares de crítica anti-imperialista. Sempre achei o poema simplificador nesse aspecto. Quero crer que as moças (e duas delas eram minhas tias!) gostaram do que faziam. Pra que marcar o gozo pela culpa? Se muitas tiveram a vida destruída, a culpa não é do gozo e sim dos preconceitos sociais então vigentes. Claro, poesia é mais que registrar o que aconteceu, sabemos isso desde o velho Aristóteles. O problema é que meus colegas anti-imperialistas, declamando Motta, agiam como se o poema dele fosse tal registro fidedigno. Melhor pensar: gozar é tão bom! Pena que os preconceitos sociais estraguem tudo depois.
* Para ler o poema acesse ANTOLOGIA/Mauro Mota
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Enviado por Ronald Guimarães
Ao que tudo indica os milhões de eleitores que votarão "na mulher do Lula" vão nos fazer passar por outro período dos crápulas no poder, mercê, também, do vazio e pífio discurso da "oposição"(???). Um pequeno trecho da coluna do Arnaldo Jabor no O Globo de hoje, interpreta corretamente o meu desencanto com a situação.
"... acho que a luta de hoje é entre a verdadeira esquerda que amadureceu e uma esquerda que quer continuar a bobagem, não por romantismo, mas porque o Lula abriu-lhes as portas para a lucrativa pelegagem. Vejo, assustado, que querem substituir o patrimonialismo "burguês" pelo sindicalista, claro que numa aliança de metas e métodos com o que há de pior na política deste país. Vão partir para um controle soviético e gramsciano vulgar do Estado para ter salvo-condutos para suas roubalheiras num país sem oposição, entregue a inimigos da liberdade de opinião. Escrevo isso enojado pela mentira vencendo com 80% do Ibope, apagando como da história brasileira o melhor governo que já tivemos de 94 a 2002, com o Plano Real, com a Lei de Responsabilidade Fiscal, com a telefonia moderna de hoje, com o Proer que limpou os bancos e impediu a crise de nos atingir, com privatizações essenciais que mentem ao povo que "venderam nossos bens...", com a diminuição da pobreza em 35% e que abriu caminho para o progresso econômico de hoje que foi apropriado "na mão grande" por Lula e seus bolchevistas.Ladroeira pura, que o povo, anestesiado pelo Bolsa Família e pelas "rebolations" do Lula na TV, não entendem. Também estou enojado com os vergonhosos tucanos apanhando na cara por oito anos sem reagir. O governo Lula roubou FHC e o mais sério período do país, e seus amigos nunca o defenderam nem reagiram. São pássaros ridículos em extinção."
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Carta de José de Alencar a Machado de Assis
Tijuca [Rio de Janeiro], 18 de fevereiro de 1868.
Ilmo Sr. Machado de Assis.
— Recebi ontem a visita de um poeta. — O Rio de Janeiro não o conhece ainda; muito breve o há de conhecer o Brasil. Bem entendido, falo do Brasil que sente; do coração e não do resto. — O Sr. Castro Alves é hóspede desta grande cidade, alguns dias apenas. Vai a S. Paulo concluir o curso que encetou em Olinda. — Nasceu na Bahia, a pátria de tão belos talentos; a Atenas brasileira que não cansa de produzir estadistas, oradores, poetas e guerreiros. — Podia acrescentar que é filho de um médico ilustre. Mas para quê? A genealogia dos poetas começa com o seu primeiro poema. E que pergaminhos valem estes selados por Deus? — O Sr. Castro Alves trouxe-me uma carta do Dr. Fernandes da Cunha, um dos pontífices da tribuna brasileira. Digo pontífice, porque nos caracteres dessa têmpera o talento é uma religião, a palavra um sacerdócio. — Que júbilo para mim! Receber Cícero que vinha apresentar Horácio, a eloqüência conduzindo pela mão a poesia, uma glória esplêndida mostrando no horizonte da pátria a irradiação de uma límpida aurora! — Mas também quanto, nesse instante, deplorei minha pobreza, que não permitia dar a tão caros hóspedes régio agasalho. Carecia de ser Hugo ou Lamartine, os poetas-oradores, para preparar esse banquete da inteligência. — Se, ao menos, tivesse nesse momento junto de mim a plêiade rica de jovens escritores, à qual pertencem o senhor, o Dr. Pinheiro Guimarães, Bocaiúva, Múzio, Joaquim Serra, Varela, Rozendo Moniz, e tantos outros!... — Entre estes, por que não lembrarei o nome de Leonel de Alencar, a quem o destino fez ave de arribação na terra natal? Em literatura não há suspeições: todos nós, que nascemos em seu regaço, não somos da mesma família? — Mas a todos o vento da contrariedade os tem desfolhado por aí, como flores de uma breve primavera. Um fez da pena espada para defender a pátria. Alguns têm as asas crestadas pela indiferença; outros, como douradas borboletas, presas da teia d'aranha, se debatem contra a realidade de uma profissão que lhes tolhe os vôos. — Felizmente estava eu na Tijuca. O senhor conhece esta montanha encantadora. A natureza a colocou a duas léguas da Corte, como um ninho para as almas cansadas de pousar no chão. — Aqui tudo é puro e são. O corpo banha-se em águas cristalinas, como o espírito na limpidez deste céu azul. — Respira-se à larga, não somente os ares finos que vigoram o sopro da vida, porém aquele hálito celeste do Criador, que bafejou o mundo recém-nascido. Só nos ermos em que não caíram ainda as fezes da civilização, a terra conserva essa divindade do berço. — Elevando-se a estas eminências, o homem aproxima-se de Deus. A Tijuca é um escabelo entre o pântano e a nuvem, entre a terra e o céu. O coração que sobe por este genuflexório, para se prostrar ao pés do Onipotente, conta três degraus; em cada um deles, uma contrição. — No alto da Boa Vista, quando se descortina longe, serpejando pela várzea, a grande cidade réptil, onde as paixões pululam, a alma que se havia atrofiado no foco do materialismo, sente-se homem. Embaixo era uma ambição; em cima contemplação. — Transposto esse primeiro estádio, além, para as bandas da Gávea, há um lugar que chamam Vista Chinesa. Este nome lembra-lhe naturalmente um sonho oriental, pintado em papel de arroz. É uma tela sublime, uma decoração magnífica deste inimitável cenário fluminense. Dir-se-ia que Deus entregou a algum de seus arcanjos o pincel de Apeles, e mandou-lhe encher aquele pano de horizonte. Então o homem sente-se religioso. — Finalmente, chega-se ao Pico da Tijuca, o ponto culminante da serra, que fica do lado oposto. Daí os olhos deslumbrados vêem a terra como uma vasta ilha a submergir-se entre dois oceanos, o oceano do mar e o oceano do éter. Parece que estes dois infinitos, o abismo e o céu, abrem-se para absorver um ao outro. E no meio dessas imensidades, um átomo, mas um átomo-rei, de tanta magnitude. Aí o ímpio é cristão e adora o Deus verdadeiro. — Quando a alma desce destas alturas e volve ao pá da civilização, leva consigo uns pensamentos sublimes, que do mais baixo remontam à sua nascença, pela mesma lei que faz subir ao nível primitivo a água derivada do topo da terra. — Nestas paragens não podia meu hóspede sofrer jejum de poesia. Recebi-o dignamente. Disse à natureza que pusesse a mesa, e enchesse as ânforas das cascatas de linfa mais deliciosa que o falerno do velho Horácio. — A Tijuca esmerou-se na hospitalidade. Ela sabia que o jovem escritor vinha do Norte, onde a natureza tropical se espaneja em lagos de luz diáfana, e, orvalhada de esplendores, abandona-se lasciva como uma odalisca às carícias do poeta. — Então a natureza fluminense, que também, quando quer, tem daquelas impudências celestes, fez-se casta e vendou-se com as alvas roupagens de nuvens. A chuva a borrifou de aljôfares; as névoas resvalavam pelas encostas como as fímbrias da branca túnica roçagante de uma virgem cristã. — Foi assim, a sorrir entre os nítidos véus, com um recato de donzela, que a Tijuca recebeu nosso poeta. — O Sr. Castro Alves lembrava-se, como o senhor e alguns poucos amigos, de uma antigüidade de minha vida; que eu outrora escrevera para o teatro. Avaliando sobre medida minha experiência neste ramo difícil da literatura, desejou ler-me um drama, primícia de seu talento. — Essa produção já passou pelas provas públicas em cena competente para julgá-la. A Bahia aplaudiu com júbilos de mãe a ascensão da nova estrela de seu firmamento. Depois de tão brilhante manifestação, duvidar de si, não é modéstia unicamente, é respeito à santidade de sua missão de poeta. — Gonzaga é o título do drama que lemos em breves horas. O assunto, colhido na tentativa revolucionária de Minas, grande manancial de poesia histórica ainda tão pouco explorado, foi enriquecido pelo autor com episódios de vivo interesse. O Sr. Castro Alves é um discípulo de Vítor Hugo, na arquitetura do drama, como no colorido da idéia. O poema pertence à mesma escola do ideal; o estilo tem os mesmos toques brilhantes. — Imitar Vítor Hugo só é dado às inteligências de primor. O Ticiano da literatura possui uma palheta que em mão de colorista medíocre mal produz borrões. Os moldes ousados de sua frase são como os de Benvenuto Cellini; se o metal não for de superior afinação, em vez de estátuas saem pastichos. — Não obstante, sob essa imitação de um modelo sublime desponta no drama a inspiração original, que mais tarde há de formar a individualidade literária do autor. Palpita em sua obra o poderoso sentimento da nacionalidade, essa alma da pátria, que faz os grandes poetas, como os grandes cidadãos. — Não se admire de assimilar eu o cidadão e o poeta, duas entidades que no espírito de muitos andam inteiramente desencontradas. O cidadão é o poeta do direito e da justiça; o poeta é o cidadão do belo e da arte. — Há no drama Gonzaga exuberância de poesia. Mas deste defeito a culpa não foi do escritor; foi da idade. Que poeta aos vinte anos não tem essa prodigalidade soberba de sua imaginação, que se derrama sobre a natureza e a inunda? — A mocidade é uma sublime impaciência. Diante dela a vida se dilata, e parece-lhe que não tem para vivê-la mais que um instante. Põe os lábios na taça da vida, cheia a transbordar de amor, de poesia, de glória, e quisera estancá-la de um sorvo. — A sobriedade vem com os anos; é virtude do talento viril. Mais entrado na vida, o homem aprende a poupar sua alma. Um dia, quando o Sr. Castro Alves reler o Gonzaga, estou convencido que ele há de achar um drama esboçado, em cada personagem desse drama. Olhos severos talvez enxerguem na obra pequenos senões. — Maria, achando em si forças para enganar o governador em um transe de suprema angústia, parecerá a alguns menos amante, menos mulher, do que devera. A ação, dirigida uma ou outra vez pelo acidente material, antes do que pela revolução íntima do coração, não terá na opinião dos realistas, a naturalidade moderna. — Mas são esses defeitos da obra, ou do espírito em que ela se reflete? Muitas vezes já não surpreendeu seu pensamento a fazer a crítica de uma flor, de uma estrela, de uma aurora? Se o deixasse, creia que ele se lançaria a corrigir o trabalho do supremo artista. Não somos homens debalde: Deus nos deu uma alma, uma individualidade. — Depois da leitura do seu drama, o Sr. Castro Alves recitou-me algumas poesias. "A Cascata de Paulo Afonso", "As Duas Ilhas" e "A Visão dos Mortos" não cedem às excelências da língua portuguesa neste gênero. Ouça-as o senhor, que sabe o segredo desse metro natural, dessa rima suave e opulenta. — Nesta capital da Civilização brasileira, que o é também de nossa indiferença, pouco apreço tem o verdadeiro mérito quando se apresenta modestamente. Contudo, deixar que passasse por aqui ignorado e despercebido o jovem poeta baiano, fora mais que uma descortesia. Não lhe parece? — Já um poeta o saudou pela imprensa; porém, não basta a saudação; é preciso abrir-lhe o teatro, o jornalismo, a sociedade, para que a flor desse talento cheio de seiva se expanda nas auras da publicidade. — Lembrei-me do senhor. Em nenhum concorrem os mesmos títulos. Para apresentar ao público fluminense o poeta baiano, é necessário não só ter foro de cidade na imprensa da Corte, como haver nascido neste belo vale do Guanabara, que ainda espera um cantor. — Seu melhor título, porém, é outro. O senhor foi o único de nossos modernos escritores, que se dedicou sinceramente à cultura dessa difícil ciência que se chama crítica. Uma porção de talento que recebeu da natureza, em vez de aproveitá-lo em criações próprias, teve a abnegação de aplicá-lo a formar o gosto e desenvolver a literatura pátria. — Do senhor, pois, do primeiro crítico brasileiro, confio a brilhante vocação literária, que se revelou com tanto vigor. — Seja o Virgílio do jovem Dante, conduza-o pelos ínvios caminhos por onde se vai à decepção, à indiferença e finalmente à glória, que são os três círculos máximos da divina comédia do talento.
Resposta de Machado de Assis
Rio de Janeiro, 29 de fevereiro de 1868.
Exmo. Sr.
— É boa e grande fortuna conhecer um poeta; melhor e maior fortuna é recebê-lo das mãos de V. Exa, com uma carta que vale um diploma, com uma recomendação que é uma sagração. A musa do Sr. Castro Alves não podia ter mais feliz intróito na vida literária. Abre os olhos em pleno Capitólio. Os seus primeiros cantos obtêm o aplauso de um mestre. — Mas se isto me entusiasma, outra coisa há que me comove e confunde, é a extrema confiança, que é ao mesmo tempo um motivo de orgulho para mim. De orgulho, repito, e tão inútil fera dissimular esta impressão, quão arrojado seria ver nas palavras de V. Exa. mais do que uma animação generosa. — A tarefa da crítica precisa destes parabéns; é tão árdua de praticar, já pelos estudos que exige, já pelas lutas que impõe, que a palavra eloqüente de um chefe é muitas vezes necessária para reavivar as forças exaustas e reerguer o ânimo abatido. — Confesso francamente, que, encetando os meus ensaios de crítica, fui movido pela idéia de contribuir com alguma coisa para a reforma do gosto que se ia perdendo, e efetivamente se perde. Meus limitadíssimos esforços não podiam impedir o tremendo desastre. Como impedi-lo, se, por influência irresistível, o mal vinha de fora, e se impunha ao espírito literário do país, ainda mal formado e quase sem consciência de si? Era difícil plantar as leis do gosto, onde se havia estabelecido uma sombra de literatura, sem alento nem ideal, falseada e frívola, mal imitada e mal copiada. Nem os esforços dos que, como V. Exa, sabem exprimir sentimentos e idéias na língua que nos legaram os mestres clássicos, nem esses puderam opor um dique à torrente invasora. Se a sabedoria popular não mente, a universalidade da doença podia dar-nos alguma consolação quando não se antolha remédio ao mal. — Se a magnitude da tarefa era de assombrar espíritos mais robustos, outro risco havia: e a este já não era a inteligência que se expunha, era o caráter. Compreende V. Ex.a que, onde a crítica não é instituição formada e assentada, a análise literária tem de lutar contra esse entranhado amor paternal que faz dos nossos filhos as mais belas crianças do mundo. Não raro se originam ódios onde era natural travarem-se afetos. Desfiguram-se os intentos da crítica, atribui-se à inveja o que vem da imparcialidade: chama-se antipatia o que é consciência. Fosse esse, porém, o único obstáculo, estou convencido que ele não pesaria no ânimo de quem põe acima do interesse pessoal o interesse perpétuo da sociedade, porque a boa fama das musas o é também. — Cansados de ouvir chamar bela à poesia, os novos atenienses resolveram bani-la da república. — O elemento poético é hoje um tropeço ao sucesso de uma obra. Aposentaram a imaginação. As musas, que já estavam apeadas dos templos, foram também apeadas dos livros. A poesia dos sentidos veio sentar-se no santuário e assim generalizou-se uma crise funesta às letras. Que enorme Alfeu não seria preciso desviar do seu curso para limpar este presepe de Augias? — Eu bem sei que no Brasil, como fora dele, severos espíritos protestam com o trabalho e a lição contra esse estado de coisas: tal é, porém, a feição geral da situação, ao começar a tarde do século. Mas sempre há de triunfar a vida inteligente. Basta que se trabalhe sem trégua. Pela minha parte, estava e está acima das minhas posses semelhante papel, contudo. entendia e entendo — adotando a bela definição do poeta que V. Exa dá em sua carta — que há para o cidadão da arte e do belo deveres imprescritíveis, e que, quando uma tendência do espírito o impele para certa ordem de atividade, é sua obrigação prestar esse serviço às letras. — Em todo o caso não tive imitadores. Tive um antecessor ilustre, apto para este árduo mister, erudito e profundo, que teria prosseguido no caminho das suas estréias, se a imaginação possante e vivaz não lhe estivesse exigindo as criações que depois nos deu. Será preciso acrescentar que aludo a V. Ex.a? — Escolhendo-me para Virgílio do jovem Dante que nos vem da pátria de Moema, impõe-me um dever, cuja responsabilidade seria grande se a própria carta de V. Exa não houvesse aberto ao neófito as portas da mais vasta publicidade. A análise pode agora esmerilhar nos escritos do poeta belezas e descuidos. O principal trabalho está feito. — Procurei o poeta cujo nome havia sido ligado ao meu, e, com a natural ansiedade que nos produz a notícia de um talento robusto, pedi-lhe que me lesse o seu drama e os seus versos. — Não tive, como V. Exa, a fortuna de os ouvir diante de um magnífico panorama. Não se rasgavam horizontes diante de mim: não tinha os pés nessa formosa Tijuca, que V. Exa chama um escabelo entre a nuvem e o pântano. Eu estava no pântano, em torno de nós agitava-se a vida tumultuosa da cidade. Não era o ruído das paixões nem dos interesses; os interesses e as paixões tinham passado a vara à loucura: estávamos no carnaval. — No meio desse tumulto abrimos um oásis de solidão. — Ouvi o Gonzaga e algumas poesias. — V. Exa já sabe o que é o drama e o que são os versos, já os apreciou consigo, já resumiu a sua opinião. Esta carta, destinada a ser lida pelo público, conterá as impressões que recebi com a leitura dos escritos do poeta. — Não podiam ser melhores as impressões. Achei uma vocação literária, cheia de vida e robustez, deixando antever nas magnificências do presente as promessas do futuro. Achei um poeta original. O mal da nossa poesia contemporânea é ser copista — no dizer, nas idéias e nas imagens. Copiá-las é anular-se. A musa do Sr. Castro Alves tem feição própria. Se se adivinha que a sua escola é a de Vítor Hugo, não é porque o copie servilmente, mas porque uma índole irmã levou-o a preferir o poeta das Orientais ao poeta das Meditações. Não lhe aprazem certamente as tintas brancas e desmaiadas da elegia; quer antes as cores vivas e os traços vigorosos da ode. — Como o poeta que tomou por mestre, o Sr. Castro Alves canta simultaneamente o que é grande e o que é delicado, mas com igual inspiração e método idêntico a pompa das figuras, a sonoridade do vocábulo, uma forma esculpida com arte, sentindo-se por baixo desses lavores o estro, a espontaneidade, o ímpeto. Não é raro andarem separadas estas duas qualidades da poesia: a forma e o estro. Os verdadeiros poetas são os que as têm ambas. Vê-se que o Sr. Castro Alves as possui; veste as suas idéias com roupas finas e trabalhadas. O receio de cair em um defeito, não o levará a cair no defeito contrário? Não me parece que lhe haja acontecido isso; mas indico-lhe o mal, para que fuja dele. É possível que uma segunda leitura dos seus versos me mostrasse alguns senões fáceis de remediar; confesso que os não percebi no meio de tantas belezas. — O drama, esse li-o atentamente; depois de ouvi-lo, li-o, e reli-o, e não sei bem se era a necessidade de o apreciar, se o encanto da obra, que me demorava os olhos em cada página do volume. — O poeta explica o dramaturgo. Reaparecem no drama as qualidades do verso; as metáforas enchem o período; sente-se de quando em quando o arrojo da ode. Sófocles pede as asas a Píndaro. Parece ao poeta que o tablado é pequeno; rompe o céu de lona e arroja-se ao espaço livre e azul. — Esta exuberância que V. Exa com justa razão atribui à idade, concordo que o poeta há de reprimi-la com os anos. Então conseguirá separar completamente a língua lírica da língua dramática; e do muito que devemos esperar temos prova e fiança no que nos dá hoje. — Estreando no teatro com um assunto histórico, e assunto de uma revolução infeliz, o Sr. Castro Alves consultou a índole do seu gênio poético. Precisava de figuras que o tempo houvesse consagrado; as da Inconfidência tinham além disso a auréola do martírio. Que melhor assunto para excitar a piedade? A tentativa abortada de uma revolução, que tinha por fim consagrar a nossa independência, merece do Brasil de hoje aquela veneração que as raças livres devem aos seus Espártacos. O insucesso fê-los criminosos; a vitória tê-los-ia feito Washingtons. Condenou-os a justiça legal; reabilita-os a justiça histórica. — Condensar estas idéias em uma obra dramática, transportar para a cena a tragédia política dos Inconfidentes, tal foi o objeto do Sr. Castro Alves, e não se pode esquecer que, se o intuito era nobre, o cometimento era grave. O talento do poeta superou a dificuldade; com uma sagacidade que eu admiro em tão verdes anos, tratou a história e a arte por modo que, nem aquela o pode acusar de infiel, nem esta de copista. Os que, como V. Exa, conhecem esta aliança, hão de avaliar esse primeiro merecimento do drama do Sr. Castro Alves. — A escolha de Gonzaga para protagonista foi certamente inspirada ao poeta pela circunstância dos seus legendários amores, de que é história aquela famosa Marília de Dirceu. Mas não creio que fosse só essa circunstância. Do processo resulta que o cantor de Marília era tido por chefe da conspiração, em atenção aos seus talentos e letras. A prudência com que se houve desviou da sua cabeça a pena capital. Tiradentes, esse era o agitador; serviu à conspiração com uma atividade rara; era mais um conspirador do dia que da noite. A justiça o escolheu para a forca. Por tudo isso ficou o seu nome ligado ao da tentativa de Minas. — Os amores de Gonzaga traziam naturalmente ao teatro o elemento feminino, e de um lance, casavam-se em cena a tradição política e a tradição poética, o coração do homem e a alma do cidadão. A circunstância foi bem aproveitada pelo autor; o protagonista atravessa o drama sem desmentir a sua dupla qualidade de amante e de patriota; casa no mesmo ideal os seus dois sentimentos. Quando Maria lhe propõe a fuga, no terceiro ato, o poeta não hesita em repelir esse recurso, apesar de ser iminente a sua perda. Já então a revolução expira; para as ambições, se ele as houvesse, a esperança era nenhuma; mas ainda era tempo de cumprir o dever. Gonzaga preferiu seguir a lição do velho Horácio corneiliano: entre o coração e o dever a alternativa é dolorosa. Gonzaga satisfaz o dever e consola o coração. Nem a pátria nem a amante podem lançar-lhe nada em rosto. — O Sr. Castro Alves houve-se com a mesma arte em relação aos outros conjurados. Para avaliar um drama histórico, não se pode deixar de recorrer à história; suprimir esta condição é expor-se a crítica a não entender o poeta. — Quem vê o Tiradentes do drama não reconhece logo aquele conjurado impaciente e ativo, nobremente estouvado, que tudo arrisca e empreende, que confia mais que todos no sucesso da causa, e paga enfim as demasias do seu caráter com a morte na forca e a profanação do cadáver? E Cláudio, o doce poeta, não o vemos todo ali, galhofeiro e generoso, fazendo da conspiração uma festa e da liberdade uma dama, gamenho no perigo, caminhando para a morte com o riso nos lábios, como aqueles emigrados do Terror? Não lhe rola já na cabeça a idéia do suicídio, que praticou mais tarde, quando a expectativa do patíbulo lhe despertou a fibra de Catão, casando-se com a morte, já que se não podia casar com a liberdade? Não é aquele o denunciante Silvério, aquele o Alvarenga, aquele o padre Carlos? Em tudo isso é de louvar a consciência literária do autor. A história nas suas mãos não foi um pretexto; não quis profanar as figuras do passado, dando-lhes feições caprichosas. Apenas empregou aquela exageração artística, necessária ao teatro, onde os caracteres precisam de relevo, onde é mister concentrar em pequeno espaço todos os traços de uma individualidade, todos os caracteres essenciais de uma época ou de um acontecimento. — Concordo que a ação parece às vezes desenvolver-se pelo acidente material. Mas esses raríssimos casos são compensados pela influência do princípio contrário em toda a peça. — O vigor dos caracteres pedia o vigor da ação, ela é vigorosa e interessante em todo o livro; patética no último ato. Os derradeiros adeuses de Gonzaga e Maria excitam naturalmente a piedade, e uns belos versos fecham este drama, que pode conter as incertezas de um talento juvenil, mas que é com certeza uma invejável estréia. — Nesta rápida exposição das minhas impressões, vê V. Exa que alguma coisa me escapou. Eu não podia, por exemplo, deixar de mencionar aqui à figura do preto Luís. Em uma conspiração para a liberdade, era justo aventar a idéia da abolição. Luís representa o elemento escravo Contudo o Sr. Castro Alves não lhe deu exclusivamente a paixão da liberdade. Achou mais dramático pôr naquele coração os desesperos do amor paterno. Quis tornar mais odiosa a situação do escravo pela luta entre a natureza e o fato social, entre a lei e o coração. Luís espera da revolução, antes da liberdade a restituição da filha; é a primeira afirmação da personalidade humana; o cidadão virá depois. Por isso, quando no terceiro ato Luís encontra a filha já cadáver, e prorrompe em exclamações e soluços, o coração chora com ele, e a memória, se a memória pode dominar tais comoções, nos traz aos olhos a bela cena do rei Lear, carregando nos braços Cordélia morta. Quem os compara não vê nem o rei nem o escravo: vê o homem. — Cumpre mencionar outras situações igualmente belas. Entra nesse número a cena da prisão dos conjurados no terceiro ato. As cenas entre Maria e o governador também são dignas de menção, posto que prevalece no espírito o reparo a que V. Exa aludiu na sua carta. O coração exigira menos valor e astúcia da parte de Maria; mas, não é verdade que o amor vence as repugnâncias para vencer os obstáculos? Em todo o caso uma ligeira sombra não empana o fulgor da figura. — As cenas amorosas são escritas com paixão: as palavras saem naturalmente de uma alma para outra, prorrompem de um para outro coração. E que contraste melancólico não é aquele idílio às portas do desterro, quando já a justiça está prestes a vir separar os dois amantes! — Dir-se-á que eu só recomendo belezas e não encontro senões? Já apontei os que cuidei ver. Acho mais — duas ou três imagens que me não parecem felizes: e uma ou outra locução suscetível de emenda. Mas que é isto no meio das louçanias da forma? Que as demasias do estilo, a exuberância das metáforas, o excesso das figuras devem obter a atenção do autor, é coisa tão segura que eu me limito a mencioná-las: mas como não aceitar agradecido esta prodigalidade de hoje, que pode ser a sábia economia de amanhã? — Resta-me dizer que, pintando nos seus personagens a exaltação patriótica, o poeta não foi só à lição do fato, misturou talvez com essa exaltação um pouco do seu próprio sentir. É a homenagem do poeta ao cidadão. Mas, consorciando os sentimentos pessoais aos dos seus personagens, é inútil distinguir o caráter diverso dos tempos e das situações. Os sucessos que em 1822 nos deram uma pátria e uma dinastia, apagaram antipatias históricas que a arte deve reproduzir quando evoca o passado. — Tais foram as impressões que me deixou este drama viril, estudado e meditado, escrito com calor e com alma. A mão é inexperiente, mas a sagacidade do autor supre a inexperiência. Estudou e estuda; é um penhor que nos dá. Quando voltar aos arquivos históricos ou revolver as paixões contemporâneas, estou certo que o fará com a mão na consciência. Está moço, tem um belo futuro diante de si. Venha desde já alistar-se nas fileiras dos que devem trabalhar para restaurar o império das musas. — O fim é nobre, a necessidade é evidente. Mas o sucesso coroará a obra? É um ponto de interrogação que há de ter surgido no espírito de V. Exa. Contra estes intuitos, tão santos quanto indispensáveis, eu sei que há um obstáculo, e V. Exa. o sabe também: é a conspiração da indiferença. Mas a perseverança não pode vencê-la? Devemos esperar que sim. — Quanto a V. Exa, respirando nos degraus da nossa Tijuca o hausto puro e vivificante da natureza, vai meditando, sem dúvida, em outras obras-primas com que nos há de vir surpreender cá embaixo. Deve faze-lo sem temor. Contra a conspiração da indiferença, tem V. Exa um aliado invencível: é a conspiração da posteridade.
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O corvo Edgar Allan Poe Tradução: Machado de Assis
Em certo dia, à hora, à hora Da meia-noite que apavora, Eu, caindo de sono e exausto de fadiga, Ao pé de muita lauda antiga, De uma velha doutrina, agora morta, Ia pensando, quando ouvi à porta Do meu quarto um soar devagarinho, E disse estas palavras tais: "É alguém que me bate à porta de mansinho; Há de ser isso e nada mais."
Ah! bem me lembro! bem me lembro! Era no glacial dezembro; Cada brasa do lar sobre o chão refletia A sua última agonia. Eu, ansioso pelo sol, buscava Sacar daqueles livros que estudava Repouso (em vão!) à dor esmagadora Destas saudades imortais Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora. E que ninguém chamará mais.
E o rumor triste, vago, brando Das cortinas ia acordando Dentro em meu coração um rumor não sabido, Nunca por ele padecido. Enfim, por aplacá-lo aqui no peito, Levantei-me de pronto, e: "Com efeito, (Disse) é visita amiga e retardada Que bate a estas horas tais. É visita que pede à minha porta entrada: Há de ser isso e nada mais."
Minh'alma então sentiu-se forte; Não mais vacilo e desta sorte Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora, Me desculpeis tanta demora. Mas como eu, precisando de descanso, Já cochilava, e tão de manso e manso Batestes, não fui logo, prestemente, Certificar-me que aí estais." Disse; a porta escancaro, acho a noite somente, Somente a noite, e nada mais.
Com longo olhar escruto a sombra, Que me amedronta, que me assombra, E sonho o que nenhum mortal há já sonhado, Mas o silêncio amplo e calado, Calado fica; a quietação quieta; Só tu, palavra única e dileta, Lenora, tu, como um suspiro escasso, Da minha triste boca sais; E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço; Foi isso apenas, nada mais.
Entro coa alma incendiada. Logo depois outra pancada Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela: "Seguramente, há na janela Alguma cousa que sussurra. Abramos, Eia, fora o temor, eia, vejamos A explicação do caso misterioso Dessas duas pancadas tais. Devolvamos a paz ao coração medroso, Obra do vento e nada mais."
Abro a janela, e de repente, Vejo tumultuosamente Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias. Não despendeu em cortesias Um minuto, um instante. Tinha o aspecto De um lord ou de uma lady. E pronto e reto, Movendo no ar as suas negras alas, Acima voa dos portais, Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas; Trepado fica, e nada mais.
Diante da ave feia e escura, Naquela rígida postura, Com o gesto severo, — o triste pensamento Sorriu-me ali por um momento, E eu disse: "O tu que das noturnas plagas Vens, embora a cabeça nua tragas, Sem topete, não és ave medrosa, Dize os teus nomes senhoriais; Como te chamas tu na grande noite umbrosa?" E o corvo disse: "Nunca mais".
Vendo que o pássaro entendia A pergunta que lhe eu fazia, Fico atônito, embora a resposta que dera Dificilmente lha entendera. Na verdade, jamais homem há visto Cousa na terra semelhante a isto: Uma ave negra, friamente posta Num busto, acima dos portais, Ouvir uma pergunta e dizer em resposta Que este é seu nome: "Nunca mais".
No entanto, o corvo solitário Não teve outro vocabulário, Como se essa palavra escassa que ali disse Toda a sua alma resumisse. Nenhuma outra proferiu, nenhuma, Não chegou a mexer uma só pluma, Até que eu murmurei: "Perdi outrora Tantos amigos tão leais! Perderei também este em regressando a aurora." E o corvo disse: "Nunca mais!"
Estremeço. A resposta ouvida É tão exata! é tão cabida! "Certamente, digo eu, essa é toda a ciência Que ele trouxe da convivência De algum mestre infeliz e acabrunhado Que o implacável destino há castigado Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga, Que dos seus cantos usuais Só lhe ficou, na amarga e última cantiga, Esse estribilho: "Nunca mais".
Segunda vez, nesse momento, Sorriu-me o triste pensamento; Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo; E mergulhando no veludo Da poltrona que eu mesmo ali trouxera Achar procuro a lúgubre quimera, A alma, o sentido, o pávido segredo Daquelas sílabas fatais, Entender o que quis dizer a ave do medo Grasnando a frase: "Nunca mais".
Assim posto, devaneando, Meditando, conjeturando, Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava, Sentia o olhar que me abrasava. Conjeturando fui, tranqüilo a gosto, Com a cabeça no macio encosto Onde os raios da lâmpada caíam, Onde as tranças angelicais De outra cabeça outrora ali se desparziam, E agora não se esparzem mais.
Supus então que o ar, mais denso, Todo se enchia de um incenso, Obra de serafins que, pelo chão roçando Do quarto, estavam meneando Um ligeiro turíbulo invisível; E eu exclamei então: "Um Deus sensível Manda repouso à dor que te devora Destas saudades imortais. Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora." E o corvo disse: "Nunca mais".
“Profeta, ou o que quer que sejas! Ave ou demônio que negrejas! Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno Onde reside o mal eterno, Ou simplesmente náufrago escapado Venhas do temporal que te há lançado Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo Tem os seus lares triunfais, Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?" E o corvo disse: "Nunca mais".
“Profeta, ou o que quer que sejas! Ave ou demônio que negrejas! Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende! Por esse céu que além se estende, Pelo Deus que ambos adoramos, fala, Dize a esta alma se é dado inda escutá-la No éden celeste a virgem que ela chora Nestes retiros sepulcrais, Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!” E o corvo disse: "Nunca mais."
“Ave ou demônio que negrejas! Profeta, ou o que quer que sejas! Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa! Regressa ao temporal, regressa À tua noite, deixa-me comigo. Vai-te, não fique no meu casto abrigo Pluma que lembre essa mentira tua. Tira-me ao peito essas fatais Garras que abrindo vão a minha dor já crua." E o corvo disse: "Nunca mais".
E o corvo aí fica; ei-lo trepado No branco mármore lavrado Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho. Parece, ao ver-lhe o duro cenho, Um demônio sonhando. A luz caída Do lampião sobre a ave aborrecida No chão espraia a triste sombra; e, fora Daquelas linhas funerais Que flutuam no chão, a minha alma que chora Não sai mais, nunca, nunca mais!
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Caso do Vestido Carlos Drummond de Andrade
Nossa mãe, o que é aquele vestido, naquele prego? Minhas filhas, é o vestido de uma dona que passou. Passou quando, nossa mãe? Era nossa conhecida? Minhas filhas, boca presa. Vosso pai evém chegando. Nossa mãe, dizei depressa que vestido é esse vestido. Minhas filhas, mas o corpo ficou frio e não o veste. O vestido, nesse prego, está morto, sossegado. Nossa mãe, esse vestido tanta renda, esse segredo! Minhas filhas, escutai palavras de minha boca. Era uma dona de longe, vosso pai enamorou-se. E ficou tão transtornado, se perdeu tanto de nós, se afastou de toda vida, se fechou, se devorou, chorou no prato de carne, bebeu, brigou, me bateu, me deixou com vosso berço, foi para a dona de longe, mas a dona não ligou. Em vão o pai implorou. Dava apólice, fazenda, dava carro, dava ouro, beberia seu sobejo, lamberia seu sapato. Mas a dona nem ligou. Então vosso pai, irado, me pediu que lhe pedisse, a essa dona tão perversa, que tivesse paciência e fosse dormir com ele... Nossa mãe, por que chorais? Nosso lenço vos cedemos. Minhas filhas, vosso pai chega ao pátio. Disfarcemos. Nossa mãe, não escutamos pisar de pé no degrau. Minhas filhas, procurei aquela mulher do demo. E lhe roguei que aplacasse de meu marido a vontade. Eu não amo teu marido, me falou ela se rindo. Mas posso ficar com ele se a senhora fizer gosto, só pra lhe satisfazer, não por mim, não quero homem. Olhei para vosso pai, os olhos dele pediam. Olhei para a dona ruim, os olhos dela gozavam. O seu vestido de renda, de colo mui devassado, mais mostrava que escondia as partes da pecadora. Eu fiz meu pelo-sinal, me curvei... disse que sim. Sai pensando na morte, mas a morte não chegava. Andei pelas cinco ruas, passei ponte, passei rio, visitei vossos parentes, não comia, não falava, tive uma febre terçã, mas a morte não chegava. Fiquei fora de perigo, fiquei de cabeça branca, perdi meus dentes, meus olhos, costurei, lavei, fiz doce, minhas mãos se escalavraram, meus anéis se dispersaram, minha corrente de ouro pagou conta de farmácia. Vosso pais sumiu no mundo. O mundo é grande e pequeno. Um dia a dona soberba me aparece já sem nada, pobre, desfeita, mofina, com sua trouxa na mão. Dona, me disse baixinho, não te dou vosso marido, que não sei onde ele anda. Mas te dou este vestido, última peça de luxo que guardei como lembrança daquele dia de cobra, da maior humilhação. Eu não tinha amor por ele, ao depois amor pegou. Mas então ele enjoado confessou que só gostava de mim como eu era dantes. Me joguei a suas plantas, fiz toda sorte de dengo, no chão rocei minha cara, me puxei pelos cabelos, me lancei na correnteza, me cortei de canivete, me atirei no sumidouro, bebi fel e gasolina, rezei duzentas novenas, dona, de nada valeu: vosso marido sumiu. Aqui trago minha roupa que recorda meu malfeito de ofender dona casada pisando no seu orgulho. Recebei esse vestido e me dai vosso perdão. Olhei para a cara dela, quede os olhos cintilantes? quede graça de sorriso, quede colo de camélia? quede aquela cinturinha delgada como jeitosa? quede pezinhos calçados com sandálias de cetim? Olhei muito para ela, boca não disse palavra. Peguei o vestido, pus nesse prego da parede. Ela se foi de mansinho e já na ponta da estrada vosso pai aparecia. Olhou pra mim em silêncio, mal reparou no vestido e disse apenas: — Mulher, põe mais um prato na mesa. Eu fiz, ele se assentou, comeu, limpou o suor, era sempre o mesmo homem, comia meio de lado e nem estava mais velho. O barulho da comida na boca, me acalentava, me dava uma grande paz, um sentimento esquisito de que tudo foi um sonho, vestido não há... nem nada. Minhas filhas, eis que ouço vosso pai subindo a escada.
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O Livro sobre Nada Manoel de Barros
Com pedaços de mim eu monto um ser atônito. Tudo que não invento é falso. Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira. Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou. É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez. Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia. Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário. A inércia é o meu ato principal. Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas. O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito. A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos. Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos. Por pudor sou impuro. Não preciso do fim para chegar. De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península. Do lugar onde estou já fui embora.
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Carolina Machado de Assis
Querida, ao pé do leito derradeiro Em que descansas dessa longa vida, Aqui venho e virei, pobre querida, Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro Que, a despeito de toda a humana lida, Fez a nossa existência apetecida E num recanto pôs o mundo inteiro.
Trago-te flores - restos arrancados Da terra que nos viu passar unidos E ora mortos nos deixa e separados.
Que eu, se tenho nos olhos malferidos Pensamentos de vida formulados, São pensamentos idos e vividos.
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Doce erro André Laurentino
Um feliz erro de revisão me fez falar com a voz de Ricardo Freire. Na semana passada, seu texto no :Divirta-se do Estadão saiu com o meu nome por engano. Tive sorte.
Primeiro porque sempre quis escrever como o Ricardo. Consegui. Depois, porque eu adoro cupcakes, e ele detesta. E alardeou para os quatro ventos sua opinião, que acabou virando a minha. Recebi, desde então, diversos e-mails com receitas de cupcakes, sites de cupcakes e endereços dos melhores lugares para se comer os bolinhos, em São Paulo e ao redor do mundo. Guardei tudo com carinho.
Mas o melhor veio até minha mesa, numa terça-feira que nada prometia. Chego do almoço e encontro um pacote enorme, lacrado com o selo amarelo da Luana Davidsohn, que tem – nada mais nada menos – do que uma oficina de cupcakes. Oficina! (Palmas, por favor). Abro a caixa. Vejo coberturas variadas, bolinhos exibindo biscoitos de chocolate, outros decorados com açúcar granulado azul, a mesma cor do envelope que guardava uma cartinha. Tudo isto para desfazer a má impressão que tenho dos cupcakes.
Minha paixão por eles vem desde antes do nome chique. Quando ainda se chamavam bolinhos bacia, e eram vendidos na padaria de Joaquim, em Olinda. Os melhores eram os dormidos, de casca mais dura. Sem cobertura. Eu chegava e Joaquim já sabia qual portinha de fórmica abrir para servir o menino magro que devia mesmo ser muito ruim para comer tanto doce e nunca engordar. Depois foram as broas de São José da Coroa Grande, com recheio de goiaba. Até que, já adulto e metido, fui à Magnolia Bakery em Nova York. Naquela visita, cada cliente só podia comprar seis bolinhos. Levamos nossa meia dúzia para o hotel e posso dizer que uma noite de sono fez tão bem a eles quanto aos bolinhos do Joaquim. Eu e minha mulher comemos assistindo ao Oscar e à neve pela janela. Voltamos à Magnolia este ano, e até camiseta compramos. Havia fila na calçada e japoneses tirando fotos.
Então, na semana passada, para minha felicidade, Ricardo Freire me fez negar tudo isso. Que maravilha. Comi todos os contra-argumentos e não guardei nenhum para ele. Mandei, sim, um pacotinho de cenouras sem agrotóxico. Uma delícia. Dizem até que dá para fazer um ótimo bolo.
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Trem de Alagoas Ascenso Ferreira
O sino bate, o condutor apita o apito, Solta o trem de ferro um grito, põe-se logo a caminhar… - Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, vou danado pra Catende com vontade de chegar... Mergulham mocambos, nos mangues molhados, moleques, mulatos, vêm vê-lo passar. Adeus ! - Adeus ! Mangueiras, coqueiros, cajueiros em flor, cajueiros com frutos já bons de chupar... - Adeus morena do cabelo cacheado ! Mangabas maduras, mamões amarelos, mamões amarelos, que amostram molengos as mamas macias pra a gente mamar - Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende, vou danado pra Catende com vontade de chegar... Na boca da mata ha furnas incríveis que em coisas terríveis nos fazem pensar: - Ali dorme o Pai-da-Mata - Ali é a casa das caiporas - Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende vou danado pra Catende com vontade de chegar... Meu Deus ! Já deixamos a praia tão longe… No entanto avistamos bem perto outro mar... Danou-se ! Se move, se arqueia, faz onda... Que nada ! É um partido já bom de cortar... - Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende vou danado pra Catende com vontade de chegar... Cana caiana, cana rôxa, cana fita, cada qual a mais bonita, todas boas de chupar... - Adeus morena do cabelo cacheado ! - Ali dorme o Pai-da-Matta ! - Ali é a casa das caiporas - Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende vou danado pra Catende com vontade de chegar...
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Carnaval do Recife Ascenso Ferreira
Meteram uma peixeira no bucho de Colombina que a pobre, coitada, a canela esticou! Deram um rabo-de-arraia em Arlequim, um clister de sebo quente em Pierrô!
E somente ficaram os máscaras da terra: Parafusos, Mateus e Papangus... e as Bestas-Feras impertinentes, os Cabeções e as Burras-Calus... realizando, contentes, o carnaval do Recife, o carnaval mulato do Recife, o carnaval melhor do mundo!
- Mulata danada, lá vem Quitandeira, lá vem Quitandeira que tá de matá!
- Olha o passso do siricongado! - Olha o passo da siriema! - Olha o passo do jaburu! E a Nação-de-Cambinda-Velha! E a Nação-de-Cambinda Nova! E a Nação-de-Leão-Coroado!
- Danou-se, mulata, que o queima é danado! - Eu quero virá arcanfô! Que imensa poesia nos blocos cantando: "Todo mundo emprega grande catatau, pra ver se me pega o teu olho mal!" - Viva o Bloco das Flores! Os Batutas! Apois-fum! (Como é brasileira a verve desse nome: Apois-fum!) E o Clube do Pão Duro! (É mesmo duro de roer o pão do pobre!)
- Lá vem o homem dos três cabaços na vara! "Quem tirar a polícia prende!"
- Eh, garajuba! Carnavá, meu carnavá, tua alegria me consome... Chegô o tempo das muié largá os home! Chegô o tempo das muié largá os home Chegou lá nada...
Chegou foi o tempo delas pegarem os homens, porque chegou o carnaval do Recife, o carnaval mulato do Recife, o carnaval melhor do mundo!
- Pega o pirão, esmorecido!
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De Laurence Nóbrega
Se houvesse bolsa família quando Lula era garoto, em vez de metalúrgico teria sido apenas um cachaceiro de botequim.
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A era Lula. François Silvestre Enviado pelo autor
Publicado no “Novo Jornal” de Natal RN
Não adiantar espernear. Lula configurou uma era, queiram ou não. Diferentemente de JK, está empenhado na feitura do sucessor. Não é o mesmo Lula de São Bernardo, nem da Praça Craveiro Lopes. O Lula do Paço Municipal era outro; que se preparava para ser o exterminador do futuro e ninguém sabia. Só ele e Golbery do Couto e Silva. Nem o cardeal Paulo Arns, conhecedor das conversas do general com o metalúrgico, conseguiu decifrar o Lula daquele tempo. Nem Lula se conhecia. Como estava dizendo, JK não se interessou pela sorte das eleições de sua sucessão. E esse desinteresse acabou por destruir as aspirações de voltar à presidência. E desaguou na pior de todas as ditaduras, que fez da de Vargas uma imagem pífia. A desculpa de que Lott não venceria Jânio nem com o empenho de Juscelino, não procede. Mesmo sendo verdadeira a assertiva. O problema residia na escolha de um bom candidato. JK sabia da impossibilidade de ganhar com Lott. Mas poderia ganhar com outro. Inclusive fazer uma aliança com a UDN e impedir a candidatura de Jânio, que era mal visto pelos udenistas não lacerdistas. Lacerda bancou a chapa janista, na convenção. Teve dificuldade. Se o governo dá uma mãozinha, o candidato seria outro. E outro seria o resultado. Mas JK queria voltar, em 65, como candidato da oposição. Seria imbatível. E praticamente abandonou a campanha. Ele e Lacerda pagaram com preço da morte política. Lula faz diferente. Aprendeu com a História. Não quer devassa do seu governo feita por governo adversário. Aposta todas as fichas na eleição de Dilma. A sorte de Lula, no futuro, fora do seu controle, dependerá de Dilma. Ela não me parece uma pessoa conformada em ser a costela de Adão. Leva jeito de dar rasteira até na serpente. Quando estiver naquela cadeira, nêgo se segure. A velha e surrada luta da criatura contra o criador. Se eu estiver errado, também dependerá dela a sorte de Lula. Precisará fazer um excelente governo, sob pena de jogar nele o desgaste de um governo ruim. E aí será o paraíso desmascarado que expulsará Lula para o ocaso em Node, ao oriente do Éden. Se houvesse bolsa família quando Lula era garoto, em vez de metalúrgico teria sido apenas um cachaceiro de botequim. E o Brasil não teria a era Lula. Essa lição de Laurence Nóbrega é um achado. Nossa estabilidade social é sustentada na esmola. Um mendigo faz mal a si mesmo. Uma nação mendicante faz mal à humanidade. Nunca sairá da pré-humanidade. E aceita viver sem educação, sem saúde, sem segurança, sem cultura. As alternativas são desanimadoras. É o passado se oferecendo como opção. Na disputa, não há futuro. É o presente não convincente contra o passado que não convenceu. Lula aposta no futuro que ele pensa ter edificado matando Getúlio, sepultando Jango e pondo flores no jazigo de Juscelino. Té mais.
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De Ruy Castro em resposta a Carlos Berriel que negara ser “Spartacus” um filme bíblico
Respondi que filme que tem homem de sandália e de minissaia, como "Spartacus", é filme bíblico. "Além disso", completei, "o herói é virgem e morre crucificado".
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Feliz é o polvo José Carlos L. Poroca Advogado e executivo do segmento shopping centers Enviado pelo autor
Pensei em começar este texto dizendo "feliz é o polvo...". Mantive apenas o título, pois, se optasse em seguir adiante, os que conhecem as principais características físicas do molusco marinho, poderiam achar que o espaço não é/não seria propício. Também correria o risco de entrar em temas que não me dizem respeito e são mais apropriados para aqueles que vivem da pesca, biólogos, pesquisadores, psicanalistas, antropólogos, sociólogos e afins. Outro risco que não deve ser afastado seria o de ser xingado - Dona Iraci poderia entrar injustamente na dança - e taxado de analfabeto, o que não seria grande ofensa. Estaria me juntando a outros, com possibilidade de criar associação em defesa da classe, bloco de Carnaval ("Analfas na Folia"), reunir votos para eventual candidatura, etc.
Digo que o meu polvo - para quem rendo homenagem - tem pouco a ver com o polvo profeta, o que previa vitórias na Copa da África, exceto pela semelhança e parentesco. O meu é aquele que tem tentáculos, fica entocado nas rochas dos oceanos e só sai do 'lar doce lar' quando vai atrás de alimentação ou quando está a fim de 'ficar' com uma 'polva'. Como não posso ficar neste lero-lero, fica o esclarecimento que o 'polvo' do título não é o mesmo que povo. O meu povo, ao contrário, geralmente gosta de um auê e os espécimes mais novos gostam de 'ficar' de forma intensa, principalmente em festas (carnavais, micaretas e assemelhados), baladas e festivais de única fórmula, onde não pode faltar os sincronizados bater palmas e o levantar de mãos, promovidos por com dois objetivos: grana para quem organiza e incentivo ao 'ficar', para que se forme o círculo de retorno nos próximos, que 'pinte' mais grana, aumento do número de 'ficantes', e assim por diante.
De certa forma, o polvo se assemelha ao povo. Ambos se deixam enganar por acreditar que ouvem ou estão vendo algo que aparenta ser do seu interesse e, quando caem na real, são colhidos por um arpão que provoca algum tipo de perda, às vezes de forma irreversível. Em qualquer dos casos, corre-se risco de morte, principalmente para as espécies que têm oito tentáculos. Na outra, considerada inteligente, os arpões podem provocar demência, perda de memória, e a sensação, passado algum tempo, de que caíram no conto do arpão.
Vai começar, dentro em breve, o período do acasalamento das espécies. Como têm memória curta, desejo, desde já, boa sorte a ambas, recomendando o cuidado de verificar com quem estão se juntando e, principalmente, qual a decisão a ser tomada de olho no futuro. Imaginar que o que ocorreu no passado pode, dependendo do choque, servir ou não de lição. Importante: os arpoadores renovam as técnicas a cada dia. É necessário, pelo menos, o uso de lentes ou de lupa para não haver a tal ilusão. Quem não tiver os devidos cuidados, certamente será arpoado e ficará pelo menos com duas cicatrizes: uma no coração e outra na mente. Em síntese: quem avisa amigo é. Mais: alerta geral: vampiros, sanguessugas e predadores à solta!
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Evocação do Recife Manuel Bandeira
Recife Não a Veneza americana Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais Não o Recife dos Mascates Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois — Recife das revoluções libertárias Mas o Recife sem história nem literatura Recife sem mais nada Recife da minha infância A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras mexericos namoros risadas A gente brincava no meio da rua Os meninos gritavam: Coelho sai! Não sai!
A distância as vozes macias das meninas politonavam: Roseira dá-me uma rosa Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosa Terá morrido em botão...) De repente nos longos da noite um sino Uma pessoa grande dizia: Fogo em Santo Antônio! Outra contrariava: São José! Totônio Rodrigues achava sempre que era são José. Os homens punham o chapéu saíam fumando E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.
Rua da União... Como eram lindos os montes das ruas da minha infância Rua do Sol (Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal) Atrás de casa ficava a Rua da Saudade... ...onde se ia fumar escondido Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora... ...onde se ia pescar escondido Capiberibe — Capiberibe Lá longe o sertãozinho de Caxangá Banheiros de palha Um dia eu vi uma moça nuinha no banho Fiquei parado o coração batendo Ela se riu Foi o meu primeiro alumbramento Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu E nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras
Novenas Cavalhadas E eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão nos meus cabelos Capiberibe — Capiberibe Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas Com o xale vistoso de pano da Costa E o vendedor de roletes de cana O de amendoim que se chamava midubim e não era torrado era cozido Me lembro de todos os pregões: Ovos frescos e baratos Dez ovos por uma pataca Foi há muito tempo... A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros Vinha da boca do povo na língua errada do povo Língua certa do povo Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil Ao passo que nós O que fazemos É macaquear A sintaxe lusíada A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem Terras que não sabia onde ficavam Recife... Rua da União... A casa de meu avô... Nunca pensei que ela acabasse! Tudo lá parecia impregnado de eternidade Recife... Meu avô morto. Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô.
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Boletim Sentimental da Guerra no Recife Mauro Mota
Meninas, tristes meninas, de mão em mão hoje andais. Sois autênticas heroínas da guerra, sem ter rivais. Lutastes na frente interna com bravura e destemor. À vitória aliada destes o sangue do vosso amor. Por recônditas feridas, não ganhastes as medalhas, terminadas as batalhas de glórias incompreendidas. Éreis tão boas pequenas. Éreis pequenas tão boas! De várias nuanças morenas, ó filhas de Pernambuco, da Paraíba e Alagoas.
Tínheis de quinze a vinte anos, tipos de colegiais, diante dos americanos, dos garbosos oficiais, do segundo time vasto dos fuzileiros navais prontos a entregar a vida para conseguir a paz, varrer da face do mundo regimes ditatoriais e democratizar todas as terras continentais a começar pelo sexo das meninas nacionais.
Iniciou-se então a fase de convocação e treino todos os dias na Base. Ah! com que pressa aprendíeis, só pela conversa quase! Dentro de menos de um mês sabíeis falar inglês.
E os presentes? Os presentes eram vossa tentação. Coisas que causavam aqui inveja e admiração: bolsas plásticas, a blusa de alvas rendas do Havaí, bicicletas "made in USA", verdes óculos "Ray Ban". Era um presente de noite e outro dado de manhã, verdadeiras maravilhas da indústria de Tio Sam.
E as promessas? As promessas eram vossa sedução. acreditáveis que elas não eram mentira, não. Um "Frazer" no aniversário, passeios de "Constellation", num pulo alcançar Miami, almoçar na Casa Branca, descer a Quinta Avenida, fazer "piquet" pela Broadway ver a "première" no Cine junto dos artistas, com eles todos na platéia. Ouvir na "Opera House", numa noite Toscanini, na outra noite Lili Pons.
Com tanto "it" e juventude podíeis testes ganhar, ser estrelas de Hollywood, ciúmes de Hedy Lamarr.
Ah! bom tempo em que corríeis, "pés descalços, braços nus, atrás das asas ligeiras das borboletas azuis". Ó prematuras mulheres, fostes, na velocidade dos "jeeps", às "garconières" da Praia da Piedade.
Quase que se rebentavam vossos úteros infantis quando veio o telegrama da tomada de Paris.
Ingênuas meninas grávidas, o que é que fostes fazer? Apertai bem os vestidos pra família não saber. Que os indiscretos vizinhos vos percam também de vista. Saístes do pediatra para o ginecologista.
"Babies" saxonizados, que só mamam vitaminas, são vossos "babies", meninas, em vários cantos gerados, mas "mapples" dos automóveis, no interior das cantinas, da praia na branca areia, em noites sem lua cheia.
Meninas, tristes meninas, vossos dramas recordai, quando eles no armistício, vos disseram "Good bye". Ouvireis a vida toda a ressonância do choro dos vossos filhos sem pai.
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Pátria Minha Vinicius de Moraes
A minha pátria é como se não fosse, é íntima Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo É minha pátria. Por isso, no exílio Assistindo dormir meu filho Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi: Não sei. De fato, não sei Como, por que e quando a minha pátria Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água Que elaboram e liquefazem a minha mágoa Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos... Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias De minha pátria, de minha pátria sem sapatos E sem meias pátria minha Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho Pátria, eu semente que nasci do vento Eu que não vou e não venho, eu que permaneço Em contato com a dor do tempo, eu elemento De ligação entre a ação o pensamento Eu fio invisível no espaço de todo adeus Eu, o sem Deus!
Tenho-te no entanto em mim como um gemido De flor; tenho-te como um amor morrido A quem se jurou; tenho-te como uma fé Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito Nesta sala estrangeira com lareira E sem pé-direito.
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra Quando tudo passou a ser infinito e nada terra E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz À espera de ver surgir a Cruz do Sul Que eu sabia, mas amanheceu...
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha Amada, idolatrada, salve, salve! Que mais doce esperança acorrentada O não poder dizer-te: aguarda... Não tardo!
Quero rever-te, pátria minha, e para Rever-te me esqueci de tudo Fui cego, estropiado, surdo, mudo Vi minha humilde morte cara a cara Rasguei poemas, mulheres, horizontes Fiquei simples, sem fontes.
Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta Lábaro não; a minha pátria é desolação De caminhos, a minha pátria é terra sedenta E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular Que bebe nuvem, come terra E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem Uma quentura, um querer bem, um bem Um libertas quae sera tamem Que um dia traduzi num exame escrito: "Liberta que serás também" E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa Que brinca em teus cabelos e te alisa Pátria minha, e perfuma o teu chão... Que vontade de adormecer-me Entre teus doces montes, pátria minha Atento à fome em tuas entranhas E ao batuque em teu coração.
Não te direi o nome, pátria minha Teu nome é pátria amada, é patriazinha Não rima com mãe gentil Vives em mim como uma filha, que és Uma ilha de ternura: a Ilha Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia E pedirei que peça ao rouxinol do dia Que peça ao sabiá Para levar-te presto este avigrama: "Pátria minha, saudades de quem te ama... Vinicius de Moraes."
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"Oropa, França e Bahia" (Romance) Ascenso Ferreira
Para os 3 Manuéis: Manuel Bandeira Manuel de Souza Barros Manuel Gomes Maranhão
Num sobradão arruinado, Tristonho, mal-assombrado, Que dava fundos prá terra. ( "para ver marujos, Ttituliluliu! ao desembarcar").
...Morava Manuel Furtado, português apatacado, com Maria de Alencar!
Maria, era uma cafuza, cheia de grandes feitiços. Ah! os seus braços roliços! Ah! os seus peitos maciços! Faziam Manuel babar...
A vida de Manuel, que louco alguém o dizia, era vigiar das janelas toda noite e todo o dia, as naus que ao longe passavam, de "Oropa, França e Bahia"!
— Me dá uma nau daquelas, lhe suplicava Maria. — Estás idiota , Maria. Essas naus foram vintena Que eu herdei da minha tia! Por todo o ouro do mundo eu jamais a trocaria!
Dou-te tudo que quiseres: Dou-te xale de Tonquim! Dou-te uma saia bordada! Dou-te leques de marfim! Queijos da Serra Estrela, perfumes de benjoim...
Nada. A mulata só queria que seu Manuel lhe desse uma nauzinha daquelas, inda a mais pichititinha, prá ela ir ver essas terras "De Oropa, França e Bahia"...
— Ó Maria, hoje nós temos vinhos da quinta do Aguirre, uma queijadas de Sintra, só prá tu te distraire desse pensamento ruim... — Seu Manuel, isso é besteira! Eu prefiro macaxeira com galinha de oxinxim!
"Ó lua que alumias esse mundo de meu Deus, alumia a mim também que ando fora dos meus..." Cantava Seu Manuel espantando os males seus.
"Eu sou mulata dengosa, linda, faceira, mimosa, qual outras brancas não são"... Cantava forte Maria, pisando fubá de milho, lentamente no pilão...
Uma noite de luar, que estava mesmo taful, mais de 400 naus, surgiram vindas do Sul... — Ah! Seu Manuel, isso chega... Danou-se de escada abaixo, se atirou no mar azul.
— "Onde vais mulhé?" — Vou me daná no carrosé! — Tu não vais, mulhé, — mulhé, você não vai lá..."
Maria atirou-se n´água, Seu Manuel seguiu atrás... — Quero a mais pichititinha! — Raios te partam, Maria! Essas naus são meus tesouros, ganhou-as matando mouros o marido da minha tia ! Vêm dos confins do mundo... De "Oropa, França e Bahia"!
Nadavam de mar em fora... (Manuel atrás de Maria!) Passou-se uma hora, outra hora, e as naus nenhum atingia... Faz-se um silêncio nas águas, cadê Manuel e Maria?!
De madrugada, na praia, dois corpos o mar lambia... Seu Manuel era um "Boi Morto", Maria, uma "Cotovia"!
E as naus de Manuel Furtado, herança de sua tia?
— continuam mar em fora, navegando noite e dia... Caminham para "Pasárgada", para o reino da Poesia! Herdou-as Manuel Bandeira, que, ante a minha choradeira, me deu a menor que havia!
— As eternas naus do Sonho, de "Oropa, França e Bahia"...
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Qual o destino do mágico mundo da cultura impressa? Antonio Nahud Júnior (*) Enviado pelo autor
Há muito se alerta sobre o empobrecimento da linguagem nos meios de comunicação. Vez ou outra seminários e encontros, no exterior e aqui, debatem sobre a responsabilidade dos jornalistas como modelo do uso da língua. Assim como certamente outras pessoas, orgulho-me de ter aprendido a ler com o convívio diário de jornais - comprados por meu pai, um ávido e versátil leitor. A ler me ensinaram na escola, claro; ao que me refiro é a compreender e deleitar-me com a leitura. Hoje sei que foi com o passar de olhos constante na “Ilustrada” e no “Folhetim” da “Folha de S. Paulo” que comecei a me tornar jornalista, muito antes de militar na área. Eu recortava, guardava numa pasta, lia e relia Sérgio Augusto, Pepe Escobar, Matinas Suzuki Jr., Otto Lara Rezende, Luís Antônio Giron, Mário Sérgio Conti e – naturalmente – o mestre Paulo Francis. Textos elegantes, aprofundados, análises que me ajudavam, efetivamente, a tomar decisões. Terminei por acreditar que jornalistas têm uma alta responsabilidade. Sem pretendê-lo, convertemo-nos em referência lingüística para boa parte da sociedade informada. Afinal, quem resiste à uma matéria inteligente e criativa? O verbo é o rei, analógico ou virtual, pois dele nasce o pensamento. Também já é de domínio público que o excesso de informação superficial é a maneira mais moderna de estar desinformado. Somente driblando os incansáveis truques dos meios de comunicação para não ser ludibriado pelas miragens marqueteiras. Nesse contexto, todo jornalista deve refletir sobre sua responsabilidade no uso da informação e do idioma. A clareza da linguagem garante a clareza da informação. O profissional que cuida das palavras – evitando acumular redundâncias e pleonasmos ou flerte com palavras de outras línguas - geralmente será cuidadoso com a informação. É muito difícil encantar o leitor se não conhecemos e louvamos as palavras que utilizamos. Um jornalista que não tem um bom conhecimento do seu idioma e não faz um uso exemplar dele deve mudar de profissão, evitando assim a exposição pública da mediocridade. Não há como se enganar: a credibilidade e o prestígio de um jornal são inseparáveis da qualidade e respeito pela língua. Existem tendências atuais que, de certa maneira, descuidam e prejudicam o uso do idioma: a virtual, a globalização e a vulgarização da linguagem em programas de rádio e televisão. O predomínio do audiovisual tem gerado leitores com insuficiente capacidade intelectual. A palavra tosca se espalha como um vírus devastador, com ofertas e descontos, crescendo a cada dia a falta de prestígio da linguagem nos meios de comunicação. Para combater essa banalização democrática necessita-se estar munido de garra, elegância, rigor, relevância. Como recomendou Gay Talese, um dos fundadores do “New Journalism”, o jornalista precisa descrever a realidade com o cuidado e o talento de quem escreve um romance. Concordo com ele, a notícia se fortalece quando escrita como ficção; pronta para ser lida com prazer. Lembremos, sempre, que a tarefa do jornalismo classudo é contar para o cidadão, da melhor maneira, o que ele não saberia de outro jeito. Simples assim. Sabe-se que é cada vez mais freqüente a fusão entre informação, opinião e propaganda. Tudo devido aos interesses econômicos e políticos dos grupos de comunicação ou dos próprios jornalistas. Isso atrapalha o leitor, que muitas vezes não sabe se está lendo um informe verídico ou publicitário. Dessa forma, o pensamento como notícia se converteu em mais uma mercadoria vendável, muitas vezes sem rumo ou prumo, descartável, ou ainda pior, nociva e corrupta. E não há como negar, o jornalista engajado é sempre um mau jornalista. Militância e jornalismo não combinam. Por que se permite que assessores de políticos ou empresas colaborem diretamente com a mídia? A imprensa hoje, mais do que em qualquer época, esta sendo pautada pelas informações vindas dos gabinetes do poder, sem qualquer verificação de veracidade. Cada declaração oportunista de políticos notórios é reproduzida pelos jornais, televisões, emissoras de rádio, sites e blogs, sem, contudo, representar algo de novo ou substancial. O leitor também está cansado do denuncismo mediático. Sobram acusações, mas faltam investigações e análises das denúncias, deixando de respeitar os fatos, o compromisso com a verdade, a independência e a integridade. É evidente que os jornais perdem leitores em todo o mundo. Prisioneiros das regras ditadas pelo marketing, estão parecidos, previsíveis e, conseqüentemente, enfadonhos. Não procuram desnudar o que o ganancioso marketing esconde. O leitor quer algo mais, cansou do insosso e incolor. Menos história oficial e mais vida. Menos frivolidade e mais consistência. Reclama realismo, ética, qualidade e um bom uso da linguagem. No fundo, ele sabe que nada, nada mesmo, supera a qualidade do conteúdo. Só um produto consistente tem a marca da permanência. Só um jornalismo inteligente e digno seduz verdadeiramente. Qualidade editorial e credibilidade são, em todo o mundo, a única fórmula para atrair novos leitores e anunciantes. Noutra estratégia, o jornalismo deixa de ser socialmente relevante. Ainda assim, mesmo com pedras no caminho, acredito que o jornalismo de qualidade existe e continuará existindo, embora este só possa ser produzido por profissionais treinados, independentes e dedicados que escrevam tão bem quanto romancistas.
(*) Escritor e jornalista com matérias publicadas nos jornais Diário de Notícias (Portugual), La Vanguardia (Espanha), Folha de S. Paulo, O Tempo (MG), A Tarde (BA) e diversos outras publicações brasileiras
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Pano rápido Joca Souza Leão Enviado pelo autor
Implicância
Graciliano Ramos não tolerava grã-fino metido a culto. Num evento literário no Rio, um bacana desavisado o chamou pelo microfone para compor a mesa que presidia os trabalhos: “Gostaríamos de convidar o escritor Graciliano Ramos para vim(sic) sentar aqui conosco”. O velho Graça não perdoou: — Diz aí que eu não posso im.
Lenda
O judeu Adolfo Bloch, dono da Manchete, uma das principais revistas de circulação nacional nos anos 60 e 70, dizia qu’essa história de Deus ter protegido o povo hebreu era pura lenda. — Se quisesse proteger, tinha mandado a gente pra Suíça. E não pro deserto.
Os dois lados
Quando a Ponte Rio - Niterói foi inaugurada, perguntaram a Max Nunes o que ele achava da obra: — Por um lado, é muito boa; por outro lado, é Niterói
Companhia
Já contei aqui algumas histórias de Zé Areia, o barbeiro que faturava uma grana extra vendendo bicho de estimação para os americanos da Base Aérea de Natal durante a IIª Guerra Mundial. Aí vai mais uma. Zé vendeu uma arara cega. Quando o galego foi reclamar, ele ponderou: — Míster, essa é uma arara pra fazer companhia. Se o senhor queria uma pra levar ao cinema, devia ter avisado.
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Kuát e Iaê – A Conquista do Dia Lenda indígena
No principio só havia a noite. Os irmãos Kuát e Iaê – o Sol e a Lua – já haviam sido criados, mas não sabiam como conquistar o dia. Este pertencia a Urubutsim (Urubu-rei), o chefe dos pássaros. Certo dia os irmãos elaboraram um plano para captura-lo. Construíram um boneco de palha em forma de uma anta, onde depositaram detritos para a criação de algumas larvas. Conforme seu pedido, as moscas voaram até as aves, anunciando o grande banquete que havia por lá, levando também a elas um pouco daquelas larvas, seu alimento preferido, para convencê-las. E tudo ocorreu conforme Kuát e Iaê haviam previsto. Ao notarem a chegada de Urubutsim, os irmãos agarraram-no pelos pés e o prenderam, exigindo que este lhes entregasse o dia em troca de sua liberdade. O prisioneiro resistiu por muito tempo, mas acabou cedendo. Solicitou então ao amigo Jacu que este se enfeitasse com penas de araras vermelhas, canitar e brincos, voasse à aldeia dos pássaros e trouxesse o que os irmãos queriam. Pouco tempo depois, descia o Jacu com o dia, deixando atrás de si um magnífico rastro de luz, que aos poucos tudo iluminou. O chefe dos pássaros foi libertado e desde então, pela manhã, surge radiante o dia e à tarde vai se esvaindo, até o anoitecer
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Nero Miguel Torga
Sentia-se cada vez pior. Agora nem a cabeça sustinha de pé. Por isso encostou-a ao chão, devagar. E assim ficou, estendido e bambo, à espera. Tinha-se despedido já de todos. Nada mais lhe restava sobre a terra senão morrer calmo e digno, como outros haviam feito a seu lado. É claro que escusava de sonhar com um enterro bonito, igual a muitos que vira, dentro dum caixão de galões amarelos, acompanhado pelo povo em peso… Isso era só para gente, rica ou pobre. Ele teria apenas uma triste cova no quintal, debaixo da figueira lampa, o cemitério dos cães e dos gatos da casa. E louvar a Deus apodrece.: a dois passos da cozinha! A burra nem sequer essa sorte tivera. Os seus ossos reluziam ainda na mata da Pedreira. Chuva, geada, sincelo em cima. Até um lebrão descarado se fora aninhar debaixo da arcada das costelas, de caçoada! Ah, sim, entre dois males… Já que não havia melhor, ficar ao menos ali. No tempo dos figos, pela fresca, a patroa viria consolar a barriga. Gostava de figos, a velhota. E sempre se sentiria acompanhado uma vez por outra. Não que fizesse grande finca-pé naquela amizade. Longe disso. A menina dos seus olhos era a morgada, a filha, que o acariciava como a uma criança. A velha toda a vida o pusera a distância. Dava-lhe o naco da broa (honra lhe seja), mas borrava a pintura logo a seguir: - Ala! E ele retirava-se cerimoniosamente para o ninho. Só a rapariga o aquecera ao colo quando pequeno, e, depois, pelos anos fora, o consentira ao lume, enroscado a seus pés, enquanto a neve, branca e fria, ia cobrindo o telhado. O velho também o apaparicava de tempos a tempos. Se a vida lhe corria e chegava dos bens de testa desenrugada, punha-lhe a manápula na cabeça, meigamente, e prometia-lhe a vinda do patrão novo. Porque o seu verdadeiro senhor era o filho, um doutor, que morava muito longe. Só aparecia na terra nas férias de Natal. Mas nessa altura pertencia-lhe inteiramente. Os outros apenas o tratavam, o sustentavam, para que o menino tivesse cão quando chegasse. Apesar disso, no íntimo, considerava-se propriedade dos três: da filha, do velho e da velha. Com eles compartilhara aqueles longos oito anos de existência. Com eles passara Invernos, Outonos e primaveras, numa paz de família unida. Também estimava o outro, o fidalgo da cidade, evidentemente, mas amizades cerimoniosas não se davam com o seu feitio. Gostava era da voz cristalina da dona nova, da índole daimosa da patroa velha e da mão calejada do velhote. - Tens o teu patrão aí não tarda, Nero… O nome fora-lhe posto quando chegou. Antes disso, lá onde nascera, não tinha chamadoiro. Nesse tempo não passava dum pobre lapuz sem apelido, muito gordo, muito maluco, sempre agarrado à mama da mãe, que lhe lambia o pêlo e o reconduzia à quentura do ninho, entre os dentes macios, mal o via afastar-se. Pouco mais. Com dois meses apenas, fez então aquela viagem longa, angustiosa, nos braços duros dum portador. Mas à chegada teve logo o amigo acolhimento da patroa nova. Festas no lombo, leite, sopas de café. De tal maneira, que quase se esqueceu da teta doce onde até ali encontrava a bem aventurança, e dois irmãos sôfregos e birrentos. - Nero! Nero! Anda cá, meu palerma! A princípio não percebeu. Mas foi reparando que o som vinha sempre acompanhado de broa, de caldo, ou de um migalho de toucinho. E acabou por entender. Era Nero. E ficou senhor do nome, do seu nome, como da sua coleira. {...} Lá dentro frigiam carne. Ouvia bem o chorriscar da gordura na sertã. Dantes, seria o bastante para lhe correr a baba pela barbelas abaixo. Agora, só a lembrança de torresmos dava-lhe volta ao estômago. Uma perfeita ruína! Estava podre por dentro e por fora… Raio de vida! E o malandro do galo a galar a galinha! Tivesse ele procedido doutra maneira, quando o parvo era frangote, e já então cheio de proa, e não estaria agora o demo a fazer-lhe macaquices. Mas era feio um navarro dar um apertão num frango. Saiba um homem respeitar-se. Que grande dor de cabeça!... Que peso medonho na arca do peito!... E o corpo mole, sem acção… Aí vinha a patroa nova observar o andamento daquilo… Fechou os olhos. Sempre gostava de ouvir o que diria quando o visse como morto… Ela chegou-se e ficou silenciosa. Por uma fresta das pestanas espreitou-lhe a cara. Chorava. Desceu novamente as pálpebras, feliz. E à noite, quando o luar dava em cheio na telha vã da casa, e os montes de S. Domingos, lá longe, pareciam ter já saudade das suas patas seguras e delicadas, quando o cheiro da última perdiz se esvaiu dentro de si, quando o galo cantou a anunciar a manhã que vinha perto, quando a imagem do filho se lhe varreu do juízo, fechou duma vez os olhos e morreu.
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Os cachorros Luis Fernando Veríssimo
O primeiro a chegar é o general aposentado com o seu cachorro policial, Atlas. O general solta Atlas que dá três voltas em alta velocidade pela pracinha, faz pipi, com alguma solenidade, contra a mesma árvore e depois senta junto ao banco do general. Sempre o mesmo banco. Quando começam a chegar as babás e as crianças, Atlas fica inquieto. Dá alguns latidos e ameaça levantar. O general o adverte: - Quieto. Atlas treme, mas se controla. Só sairá do lugar com uma ordem do dono. Uma vez desobedeceu. Uma bola de borracha chegou ao alcance dos seus dentes e ele a estraçalhou diante do olhar horrorizado das crianças e das babás. Houve protestos mas o general assegurou que aquilo não se repetiria. Agora, sempre que uma bola chega perto de Atlas há um silêncio de expectativa na pracinha. Atlas treme, mas se controla. Depois de Atlas e do general chegam Rex, um Boxer, e o comendador. O comendador deixa Rex solto. De vez em quando levanta do banco que compartilhará, durante toda a manhã, com o general e procura Rex com o olhar. Rex é brincalhão e nervoso. Não tem lugar certo para fazer pipi. O general e o comendador conversam. O comendador afaga a cabeça de Atlas. -Como vai essa fera? O general responde por Atlas. - Vai bem. E Rex? - Ótimo. Os dois trocam histórias dos cachorros. Quando ouve falar o seu nome, Atlas empina as orelhas. Vive na esperança de uma ordem do general. Atacar! Mas a ordem nunca vem. - O Rex anda um pouco rebelde. É a vida em apartamento ... - O Atlas não tem esse problema. Ou, se tem, não demonstra. Disciplina. O comendador suspira. Rex não é mais o mesmo. Tudo começou depois do acasalamento. Rex não se acostumou mais com a vida pacata da casa. Vive sonhando com aventuras. O comendador não sabe o que fazer. Chega Frufru, um Pequinês e Dona Romária. O general e o comendador não se-sentem à vontade com aquele pequeno animal dado a ataques de histeria. Dona Romária fala com Frujru sem parar. - O que é, minha negra? Conta pra mamãe, conta. Está contente, não é, biju? Vai brincar com o Atlas, vai. Conta pra ele o que você andou fazendo dentro de casa, conta, sua sem-vergonha. Vai, lindeza. Frufru corre para brincar com Atlas. O policial fica impassível. Olha para seu dono como que implorando uma ordem para acabar com o tormento. Frufru pula em redor de Atlas e late, esganiçada. Baixinho, para que Dona Romária não ouça, o comendador comenta para o general: -Frufru ... -O que a gente tem que agüentar ... -E esse não é dos piores. -O que eu não agüento é cachorro com nome diferente. -Sei o que você quer dizer. - Outro dia apareceu uma dona aqui com um Basset chamado Édipo. Édipo! -Não dá. Nome engraçadinho, não dá. O comendador levanta para procurar Rex. Onde andará se cachorro? O general continua: -Cachorro tem que ter nome de cachorro. Atlas. Tupi. -Rex ... -Rex. Tapir. -Tapir, não sei não. - No máximo Tapir. Chega um par de Cocker Spaniel, novos na praça. Com eles um homem estranho. Alto, de barba bem aparada, a camiseta colada ao corpo e calças jeans muito justas. Senta no mesmo banco com o comendador e o general. -Bons-dias! O comendador e o general se entreolham. O recém-chegado solta seus cachorros da coleira dupla e recomenda. - Allez, allez. A vida social é muito importante. Misturem-se. Para o general e o comendador, ele explica: - Os dois são muito tímidos. Os dois saem trotando, sem muito entusiasmo. - Não são umas graças? Só Dona Romária concorda. O general, o comendador e Atlas ficam mudos. O recém-chegado continua: - É uma luta para tirá-Ios de casa. Se pudessem ficariam atirados no tapete persa o dia inteiro. São uns lânguidos! Uns lânguidos! O general limpa a garganta. Pergunta: - Como é o nome deles? - Um se chama Rimbaud e o outro Verlaine. - Sim. Alguma coisa no tom de voz do seu dono faz Atlas ficar alerta. Talvez agora venha a ordem que ele espera há tanto tempo. Atacar! Estraçalhar! Mas quem fala é o comendador. -Onde é que está o Rex? O Boxer desapareceu. O comendador sai a procurá-Io por toda a praça. Rex foi visto pela última vez seguindo uma cadela vira-lata, rua acima. O dqno dos Cocker Spaniel comenta: - Quem me dera que os meus fossem assim, despachados. Mas são uns bobocas. O Rimbaud ainda tem personalidade, mas o Verlaine ... O general murmura: - Atlas ... Atlas prepara-se. É só receber a ordem. Liquidará primeiro a Frufru e depois sairá na caça a Verlaine e Rimbaud. Por um instante a pracinha paira à beira da tragédia. Finalmente, o general recua. - Quieto. Rex é recuperado e levado para casa, arrastado. O general também volta para casa mais cedo, descrente de tudo. Atlas vai na frente. Até chegar à beira da calçada ainda terá que agüentar Frufru pulando nas suas patas.
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