Papo Furado by Jairo Lima
PAPO SOLTO
JAIRO
FEIRA
QUEM É JAIRO LIMA
CLIQUE E PARTICIPE
LETRAS
IDÉIAS
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PAPO SOLTO
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Beyoncé quase cai
Durante o show em Florianópolis, a diva escorregou e quase caiu.
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Tu pode? Uma merda desta ser notícia na imprensa mundial? Acho que o mundo vai acabar mesmo em 2012, mas vai ser com uma chuva de cangalhas. E não ficará um jumento vivo sobre a face da terra para assistir aos shows da "diva".
O que me lembra um edificante provérbio dos meus matos: merda é bosta, você come porque gosta.
JL
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Tratudore, traditore (sem falar em ritmo) ?
Laélio Ferreira
Enviado pelo autor
“Traduzir poemas é dar conta de vocabulário, ritmos, rimas (quando existem), figuras de linguagem...”
(Marcos Silva, “Tradução, tradutor, traduzido”, Papo Furado)
A uma passante
(Tradução de Marcos Silva)
Rua ensurdecedora ao meu redor urrava.
Alta, magra, em só luto, só dor majestosa,
Uma mulher passou, com uma mão faustosa
A guirlanda e a barra erguia, balançava; (11 SÍLÁBAS POÉTICAS APENAS)
Ágil e nobre, com sua perna de estátua. (“ESTÁTUA” NÃO RIMA COM “MATA”)
Eu, crispado, eu bebia, como em contra-mão,
Em seu olho, céu claro, grão de furacão,
Doçura que fascina e prazer que mata. (“MATA NÃO RIMA COM “ESTÁTUA”)
Um clarão... a noite! – Fugidia beleza
Cujo olhar me fez de repente renascer,
Só te verei depois na eternidade acesa?
Longe, tão longe! tarde! talvez jamais te ver! (13 SÍLABAS POÉTICAS, UMA A MAIS)
Ignoro onde foges, não sabes onde eu ia, (14 SÍLABAS POÉTICAS, DUAS A MAIS)
Ó tu que eu amaria, ó tu que o sabias! (“SABIAS NÃO RIMA COM “IA” E VICE-VERSA
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Tácito Costa
, sempre amável, registrando o retorno à vida normal deste famigerado site. Obrigado, amigão, e saiba que, aqui ou aí, seu Substantivo Plural (ver links no menu à esquerda) continua a ser minha leitura obrigatória e diária.
JL
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Gabriel Garcia Márquez - O Escritor e o Ditador
André Lahóz
Não há eleições em Macondo, a misteriosa cidade em torno da qual se desenrola a sucessão de tramas que compõem Cem Anos de Solidão, obra máxima do colombiano Gabriel García Márquez. Bem, pelo menos não há eleições para valer - a população até é chamada para votar, mas depois as urnas são esvaziadas e novamente preenchidas com votos ao candidato previamente definido pelo governo. Em compensação, não faltam guerras, fuzilamentos e revoluções. Um único oficial, o coronel Aureliano Buendía, promoveu 32 revoluções armadas após se decepcionar com a farsa eleitoral - foi derrotado em todas. As desventuras do coronel são apenas um capítulo da interminável sequência de rebeliões e lutas que estão sempre recomeçando sem levar a lugar algum - e que contribuem para o nítido sotaque latino-americano da obra. Ela nos recorda o quanto parte de nosso continente ainda se alimenta de heróis e de promessas de refundação da nação. E quanto nos parecem enfadonhos a democracia e o lento processo de evolução que ela enseja. Gostamos de aventura, ainda que, ao fim dela, o que sobre seja pouco mais que um "pavoroso rodamoinho de poeira e escombros", como na Macondo ao cabo de um século de história.
Por tudo isso, há um quê de ironia na polêmica gerada com a recém-lançada biografia autorizada de García Márquez, de autoria do inglês Gerald Martin, a ser publicada no Brasil em março (leia reportagem do livro). Nela, Martin dá detalhes da intensa relação de amizade que une o Nobel de Literatura e o líder cubano Fidel Castro. Sim, Gabo - como García Márquez é chamado pelos amigos - adora o ditador Fidel. A ponto de servir-lhe de guarda-costas em uma visita à Colômbia. Nele vê um homem "de costumes austeros, mas de ilusões insaciáveis". Fidel, segundo o escritor, "tem a convicção quase mística de que a maior conquista do ser humano é a boa formação da consciência, e que os estímulos morais, mais que os materiais, são capazes de mudar o mundo e impulsionar a história". Quando fala às massas, Fidel "é a inspiração, o estado de graça irresistível e deslumbrante, que só nega os que não tiveram a glória de tê-lo visto". E considera o cubano "um dos maiores idealistas do nosso tempo". E, sim, o ditador Fidel também adora Gabo. Deu-lhe de presente uma casa num dos bairros mais imponentes de Havana. E já afirmou que gostaria, numa próxima encarnação, de voltar como escritor - "um escritor como Gabriel García Márquez".
Em sua longa presidência, Fidel recebeu o apoio de inúmeras personalidades, inclusive brasileiras, de Chico Buarque a Oscar Niemeyer (o arquiteto, aliás, foi citado por Fidel como exemplo de coerência em sua carta de renúncia em favor do irmão, em dezembro de 2007). Pouco a pouco, porém, à medida que o número de mortos pelo regime crescia, o paraíso terreno prometido pelos revolucionários perdia o encanto. Demorou, mas até mesmo comunistas de longa data, como o também Nobel José Saramago, decidiram que era hora de pular do barco. Aos 82 anos, um a menos que Fidel, Gabo mantém inalterado seu apoio. Apesar do quase nada que resta ao fim de mais uma aventura latino-americana.
Poderia ser apenas excentricidade de um gigante da literatura - Cem Anos de Solidão, um caso raro de best-seller global que deleitou também o mundo das letras, é apontado por alguns críticos como uma das mais importantes obras da língua espanhola, ao lado de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, O Burlador de Sevilha, de Tirso de Molina, e um punhado de outras. Mas a proximidade de Gabo e Fidel ganha relevo por tratar-se de um fenômeno nada incomum. Não é privilégio do líder cubano ser paparicado por um grande escritor. Antes dele, ditadores de esquerda e de direita receberam a mesma graça. Tome-se o caso de Adolf Hitler, a besta-fera que lançou o mundo no maior conflito da história. Também ele contou com o apoio de inúmeros intelectuais. Martin Heidegger, talvez o principal filósofo do século 20, foi durante 12 anos membro do partido nazista. Günter Grass, também Nobel de Literatura, recentemente admitiu ter participado da Waffen SS, a tropa de elite do nazismo. Outro peso-pesado da literatura, o poeta Ezra Pound, chegou a ler textos homenageando o ditador alemão na rádio italiana durante a Segunda Guerra - nos quais atacava de forma indiscriminada os judeus, o presidente americano Franklin Roosevelt e a intervenção dos Estados Unidos na guerra.
Pound, aliás, apoiou não apenas um, mas dois ditadores - com Benito Mussolini teve certa proximidade, o tendo visitado em seu palácio em Roma e lhe dado livros de poesia. Outro Nobel de Literatura, Camilo José Cela, autor do cultuado A Colmeia, lutou nas trincheiras de Francisco Franco durante a Guerra Civil Espanhola e foi posteriormente acusado de servir como informante do regime franquista. E por aí a lista segue. A despeito da imagem que normalmente temos dos grandes escritores - amantes da liberdade, sem vínculos de nenhuma ordem que possam comprometer sua produção artística -, é incômodo constatar quantos deles se embriagaram com os menos esclarecidos dos déspotas.
A QUESTÃO MORAL
Não é de hoje que a relação entre intelectuais e governantes é complexa. Há quase 2500 anos, os gregos já lidavam com essa questão. Por um lado, o anseio de influenciar a sociedade e interferir na construção do futuro é uma tentação recorrente no mundo das letras. Por outro, não é um caminho sem custo. Ao adentrar a política, o intelectual passa a transitar num mundo que não é o seu - e nem sempre acaba bem. Um marco na relação entre estudiosos e o poder ocorreu no famoso julgamento de Sócrates, filósofo grego acusado por Atenas de corromper a juventude. Os poderosos de então exigiam que Sócrates assumisse sua culpa ou aceitasse a morte por envenenamento. Mas ele não conseguia enxergar seu erro. Aceitar a pena seria pactuar com uma mentira. Sua opção pela cicuta entrou para a história ocidental como o primeiro evento em que um intelectual se recusa a aceitar as verdades estabelecidas. Entre a ética de sua cidade-Estado e sua consciência, ele escolheu a segunda - e fundou, assim, a moral. O seu exemplo serve como régua para momentos críticos da história. Em tempos de ditadura, quem se encolheu e quem seguiu os ditames da própria consciência?
Mas a questão é bem mais complicada do que uma luta entre verdade e mentira. Pois, afinal, há os que adotam ditadores não como rendição, mas como expressão de sua verdade pessoal. Gabo, Saramago e tantos outros seguidores de Fidel não passaram a adorar Cuba por medo da repressão ou com vista ao enriquecimento pessoal. Eles realmente acreditavam - e muitos ainda acreditam - que a revolução na ilha foi um exemplo para a humanidade. Se voltarmos aos gregos, veremos que também lá o apoio à democracia não era universal. Platão tinha sérias restrições à ética democrática, pois enxergava nela uma mistura de demagogia, mentira e belicismo. Mas também não gostava de ditadores. Formulou assim a famosa máxima: "A República funcionará bem se os filósofos tomarem o poder - ou se o governador se tornar um filósofo". A partir daí, a tentativa de fazer do ditador um filósofo passou a ser recorrente na história. Platão tentou a sorte com Dionísio de Siracusa. Acabou na prisão. Aristóteles foi o preceptor de Alexandre. Teve de fugir de Atenas. Mas o fracasso maior foi para a conta de Sêneca, outro grande filósofo da Antiguidade. Ele buscou domar Nero, talvez o mais tirânico dos imperadores romanos, com sua sabedoria, seu cosmopolitismo e sua crença na igualdade dos homens. Nero entrou para a história por sua loucura que teria feito arder Roma. E Sêneca, por ordens do tirano, foi obrigado a se matar.
Foi o capitalismo que fez subir às alturas o papel dos homens de cultura, escritores incluídos. Nos últimos 200 anos, diversos fenômenos - urbanização, industrialização, massificação da informação - conspiraram para o surgimento de uma classe de intelectuais. Não é que eles não existissem antes. Segundo o historiador francês Jacques Le Goff, a Idade Média já os conhecia. Mas pode-se dizer que foi no século 19 que eles se constituíram como "classe social" na Europa. É dessa época o mito do intelectual como alguém acima da sociedade e de alguma forma responsável por iluminar o futuro. Contribuiu para isso a enorme repercussão do caso Dreyfus, que envolveu o escritor francês Émile Zola. Em seu famoso artigo J'accuse, de 1898, o autor de Germinal fez uma violenta acusação de antissemitismo ao governo francês em relação ao oficial do Exército Alfred Dreyfus, injustamente tido como traidor. Zola conseguiu, usando apenas sua escrita em um jornal, provocar uma total reviravolta no caso e deixar em má situação a elite do poder na França. Virou um paradigma de pensador livre das amarras do poder.
O renovado poder dos intelectuais não passou despercebido dos poderosos. Não são apenas os escritores que querem um ditador para chamar de seu - também os ditadores adoram ter os escritores por perto. Eles podem ser determinantes na produção do poder ideológico. Segundo o filósofo italiano Norberto Bobbio, é um poder que se exerce "não sobre a posse de bens materiais, mas sobre as mentes pela produção e transmissão de ideias, de símbolos, de visões de mundo, de ensinamento prático, mediante o uso das palavras". Nenhum ditador, por mais poderoso, pode se manter indefinidamente só pela força bruta. É preciso cativar corações e mentes. Não estranha que escritores sejam particularmente interessantes aos governantes, dada sua capacidade de se comunicar com o grande público. Mas não os da mesma estirpe de Zola, claro. Os ditadores preferem aqueles que abracem a causa e sejam fiéis a ela.
A QUESTÃO PARTIDÁRIA
Cabe aqui a importante distinção entre duas categorias de intelectuais feita pelo escritor Jean-Paul Sartre - o filósofo e o ideólogo. O primeiro seria, na tradição de Sócrates e Zola, o pensador sem limites. O segundo apenas repetiria as palavras de ordem dos poderosos. É contra essa categoria de intelectual que se insurge o pensador francês Julien Benda no livro A Traição dos Intelectuais (1927), que se tornou um clássico. Segundo Benda - também ele um defensor de Dreyfus -, os intelectuais se perderam ao abandonar os princípios universais de justiça e verdade em nome de causas específicas de uma determinada facção.
Infelizmente, muitos se desviaram desse papel. No caso brasileiro, um de nossos escritores de maior sucesso no século 20, Jorge Amado, foi durante anos um ardoroso defensor de Josef Stalin, que disputa com Hitler e Mao Tsé-Tung uma espécie de liga especial dos ditadores mais sangrentos da história. Seu livro O Mundo da Paz (1951) é uma verdadeira ode ao stalinismo, com frases como: "Mestre, guia e pai, o maior cientista do mundo de hoje, o maior estadista, o maior general, aquilo que de melhor a humanidade produziu. Sim, eles caluniam, insultam e rangem os dentes. Mas até Stálin se eleva o amor de milhões, de dezenas e centenas de milhões de seres humanos". Um texto digno de alguém que havia se filiado ao Partido Comunista e considerava a União Soviética o paradigma de sociedade perfeita. Mais tarde, em meados dos anos 50, Jorge Amado iria abandonar - felizmente - a temática política e produzir alguns de seus melhores livros.
A figura do intelectual do partido, aliás, é determinante para entender o século passado - e, de certa forma, as heranças que ainda carregamos. O marxismo elevou ao máximo a importância dos intelectuais na definição dos rumos da humanidade. Líder da revolução russa de 1917, Vladimir Lenin foi categórico ao afirmar que, por razões puramente econômicas, o capitalismo tenderia a durar indefinidamente. Não haveria nenhum limite físico à sua expansão. Para Lenin, somente a prática revolucionária poderia criar esse limite. Daí a importância da classe intelectual, que despertaria a sociedade para os novos tempos. Conhecemos o fim dessa história. Mas, nas longas décadas que durou o sonho, os homens de cultura de esquerda foram alçados a um patamar inédito de importância. Não mais seriam responsáveis por ensinar um ou outro governante, como tentaram os filósofos do passado. Agora trariam a chave para a felicidade humana. Nas palavras do sociólogo francês Raymond Aron, Karl Marx virou o ópio dos intelectuais.
Quem mais se aprofundou no papel da nova classe - a dos pensadores - foi o cientista político italiano Antonio Gramsci. É dele outra distinção clássica, a que separa intelectuais orgânicos dos tradicionais. Os tradicionais seriam o que normalmente associamos à palavra: um grupo que tem como objeto as ideias e que atua de forma separada do restante da sociedade. Já os primeiros são aqueles formados organicamente em cada classe social. E têm a função de trabalhar para a construção do partido (o "novo príncipe") e da revolução. A visão gramsciana exacerba o papel de escritores e pensadores na busca da utopia marxista. Uma utopia perigosa, aliás - que consumiu algumas das melhores cabeças e que, em nome de um suposto bem comum, custou dezenas de milhões de vidas. Cabe lembrar que, etimologicamente, a palavra utopia significa "lugar que não existe". Da visão original de Thomas Morus, sobre a ilha onde viveria a sociedade perfeita, ao marxismo persiste a noção de um ideal muito acima da capacidade humana. É um mundo que existe apenas na cabeça... dos intelectuais!
Talvez uma maneira de entender o problema à frente dos homens de letras seja a polêmica envolvendo os gigantes do renascimento italiano, Michelangelo e Leonardo da Vinci. O primeiro reprimia Leonardo por sua indiferença com as desventuras de Florença; o segundo respondia que o estudo da beleza preenchia todo o seu coração. São duas visões de mundo. Gabo deveria limitar-se à sua obra literária? Ou, ao contrário, deveria usar a sua popularidade em favor daquilo que lhe parece melhor? É uma questão que continua em aberto. As duas posturas parecem legítimas, mas apoiar líderes que tentam ceifar a liberdade é algo que não é mais aceito sem reservas. Daí o desembarque de Saramago e outros da canoa cubana. A hora parece ser não dos seguidores de Marx e Lenin mas, espera-se, de John Stuart Mill, Alexis de Tocqueville e outros pilares do pensamento liberal e da democracia. Na América Latina, ainda temos líderes como Hugo Chávez, Evo Morales, Néstor Kirchner e outros empenhados na construção de Macondos continente afora. Eles hoje encontram, no entanto, dificuldades para laçar escritores que os bajulem e legitimem. García Márquez, felizmente, converteu-se de regra em exceção.
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Suco de maracujá
Ruy Castro
Há dias, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, disse que "carne de porco é melhor que Viagra". A declaração foi feita num encontro na Casa Rosada com criadores de porcos, mas Cristina explicou que não era para agradar. "Comer carne de porco realmente melhora a atividade sexual", insistiu. E contou que ela e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, comeram carne de porco ("com a pele e tudo, assada") numa recente viagem à Patagônia e que, depois, "tudo saiu bem".
A frase deixa bem o porco, mas nem tanto o ex-presidente. Subentende que ele não vinha comparecendo, que nem com o Viagra dava jeito e que um leitão pururuca teve de vir em seu socorro.
Por sua vez, cientistas da Universidade de Graz, na Áustria, analisaram 2.299 homens e descobriram que os indivíduos com maior quantidade de vitamina D apresentam mais testosterona. Donde, mais libido. E que, como o nível desse hormônio aumenta muito no verão, segue-se que o sol estimula o desejo sexual. Uma organização holandesa voltada para o estudo do sol acaba de chegar à mesma conclusão.
Pode ser. Mas sempre haverá aqueles para quem o excesso de sol e de carne de porco contém mais riscos que benefícios. Nesse caso, só posso recomendar a letra de "Suco de Maracujá", o novo samba de João Donato e Martinho da Vila, ainda inédito em disco:
"Pra me casar com você/ Eu vou ter que me cuidar/ Contratar um personal/ Trainer pra me acelerar.// Também vou ter de fazer/ Uma dieta alimentar/ Catuaba no almoço/ E ostras antes do jantar.// Quando a gente for deitar/ Um bom pó de guaraná/ Se a quentura tiver morna/ Como um ovo de codorna.// E se a noite for infinda/ Aí só pau-de-cabinda/ Se ela quiser bis no fim/ Pimenta no amendoim.// E depois, pra me acalmar/ Suco de maracujá".
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Arte bizantina
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A assinatura do vazio
Luiz Felipe Pondé
Um sintoma típico da modernidade é o sentimento de orfandade: o universo não é um útero, mas um deserto. Depois de Newton e sua mecânica, o universo deixou de ser o espaço da "assinatura de Deus" para se transformar numa espécie de lego vazio de sentido. Pedras e inércia.
A ciência moderna abriu o caminho para o darwinismo, que transmitiu aos seres vivos a mesma "assinatura do vazio" que Newton tinha dado aos seres inanimados. Entre Newton e Darwin, as pedras, os animais e você, todos, estão imersos no mesmo mar de silêncio, de inércia e de movimento cego. Enfim, um nada de significado. Qualquer "voz" vinda desse universo é apenas fruto de seu cérebro doente.
Por exemplo, se seu filho de 15 anos tem um câncer, e você pergunta para o médico "mas por quê?", tudo que ele pode responder é "fator genético, processos celulares, azar atômico". Não é isso que você quer ouvir, mas é tudo que a medicina cientifica pode dizer.
Você quer ouvir coisas como: "Ele escolheu ter câncer aos 15 anos nesta vida para aprender algo necessário para seu desenvolvimento espiritual", ou "ele sofre porque foi escolhido por Deus para isso".
Mas não é só a ciência da natureza cega que nos assusta. Outra ciência nos atormenta: a ciência do dinheiro e de sua vida calculada. O capitalismo implica virtudes econômicas e contábeis que devem resolver não só sua conta bancária, mas também suas relações pessoais, suas decisões existenciais, suas escolhas profissionais, enfim, a totalidade da sua vida.
A ciência da natureza cala o universo, a ciência da grana devasta as relações humanas. Essa ciência do dinheiro acaba por desmantelar qualquer mistério. E pior: joga sobre o lamento romântico a suspeita da pura e simples incompetência como causa escondida do próprio lamento. Quer um exemplo?
Goethe (séculos 18 e 19), romântico alemão, em seu maravilhoso romance "Anos de Formação de Wilhelm Meister", nos conta o processo de formação do jovem Meister: de adolescente passará a homem.
Nosso jovem Meister é um artista que sofre pressões de seu pai burguês para se tornar o futuro administrador dos negócios da família. Nada mais chato para um jovem que, além de sonhar o tempo todo com sua amada Marianne, uma atriz (que na realidade é amante de um burguês), alimenta projetos teatrais e poéticos. O jovem Meister é um exemplo claro da personalidade artística romântica: tem náuseas diante das demandas banais de uma vida do dinheiro.
Ele tem um amigo que, esse sim, se vira bem no mundo onde os jovens devem se preparar para serem futuros homens de negócios.
Numa cena memorável, nossos dois jovens conversam sobre uma decisão tomada pelo jovem Meister. Depois de sofrer muito com um mundo onde não há confiança nem amor verdadeiro, nosso herói decide queimar todos os seus "poemas e projetos" e se tornar definitivamente um homem maduro e seguir os desejos de seu pai.
Mas o importante aqui não é propriamente a decisão, mas a explicação que nosso herói dá para o amigo (bem resolvido) como causa de sua mudança de vida.
O jovem Meister diz que "sentiu" que todo o universo lhe mostrou que era hora de mudar. Uma experiência de "parceira cósmica" lhe mostrara o caminho. Então, num "acesso de verdade", nosso romântico queimou tudo que significa "seu velho eu".
A resposta de seu amigo representará a voz da maturidade moderna humilhando a reação do ainda infantil Meister: "O universo nada tem a ver com nossas decisões". E mais: pensar que o universo seja "responsável" de algum modo pelo que nos acontece ou por nossas decisões, erra acerca da natureza do universo (mudo), mas fala muito acerca da nossa covardia e da incapacidade de assumir a "solidão desse silêncio", na qual apenas nós e outros homens e mulheres como nós mesmos são responsáveis pelo que acontece. A virtude burguesa por excelência é a capacidade de sermos agentes de nosso sucesso e de nosso fracasso sem responsabilizarmos ninguém nem nada por eles. Uma espécie de "virtú maquiaveliana" vista pelos olhos de um banqueiro e vivida pela alma de um caixa de banco.
Não se trata da morte de um "velho eu" e do nascimento de um "novo eu" pelas mãos de um universo "parteiro" que fala conosco de um modo misterioso, mas simplesmente da agonia infantil do jovem Meister que ainda não percebeu que a batalha contra o mundo das pedras, da inércia e do dinheiro é uma batalha perdida.
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O Sertão vai virar mar
José Carlos L. Poroca
Executivo do segmento Shopping Centers
jcporoca@uol.com.br
Enviado pelo autor
Tauá fica no semi-árido cearense, a 337 km da capital. Tem pouco mais de 50mil habitantes. Local de gente decente. Impressionou-me, inicialmente, a pérola da letra do hino oficial. Trecho: "as margens do Trici, repousas bela, linda donzela, à sombra do Quinamuiú. Tens portes perfil de realeza, rara beleza. Princesa dos Inhamuns! Espelhas do Nordeste Brasileiro, a natureza e a raça forte e pertinaz". Quinamuiú significa, em dialeto indígena, 'serra perto d'água'. E Inhamuns, uma microrregião do sertão cearense, significa "irmão do gênio mau da floresta".
Mas não foi a letra do hino o que me deixou mais impressionado; foi o que ocorreu lá, em Tauá, há três semanas: choveu. Não foi uma chuvazinha qualquer. Choveu granizo durante cerca de 40 minutos. Estou dizendo que choveu gelo no sertão cearense, numa região onde a temperatura média varia em torno de 27° C. O clima da terra é seco e quente; água, por aquelas bandas, é produto raro, valioso. Não foram granizos gigantes, é verdade; tinham tamanho de um caroço de feijão. Mas era granizo.
A comparação não é das melhores, mas sou capaz de apostar que o Planeta está sofrendo de algo parecido com o que chamam de constipação. Para aliviar dores e o mal-estar, tomou laxante. Os resultados são imprevisíveis e nem sempre tem cheiro de perfume. O efeito do purgativo vem provocando um tsunami aqui, um terremoto ali, enchentes bravas acolá e, só para rimar, granizo em Tauá. Não é a primeira vez. Quem já leu o Livro, deve lembrar-se de passagens como as pragas do Egito, do pão caindo do céu, da água jorrando da rocha e, bem mais na frente, da chuva de pães e peixes.
O mundo está estranho; o Planeta, esquisito. As coisas estão meio - como direi? - desarrumadas. Outro dia, em Nova União, sede de Mombaça, também no Ceará, nasceu um porco com aparência de elefante. Aliás, era meio elefante meio rinoceronte. Tinha tromba entre a boca e o nariz e um chifre na testa como um rinoceronte. Não sobreviveu.Deve ter morrido de susto com a quantidade de 'ohs!' e 'ahs' dos curiosos.
Lembremo-nos de Antônio Conselheiro, dos Canudos. Ele dizia aos seus seguidores que o sertão se transformaria no mar e o mar num sertão. Estou ligeiramente inclinado a admitir que a profecia possa se confirmar, pela quantidade de fenômenos dos mais variados que anda acontecendo de norte a sul. Já houve a manifestação declarada de vontade de transformar este país num paraíso. Dentre em breve poderemos ver um pássaro turbinado vindo do céu jogando cédulas de R$ 100 e R$ 50 dentro de meias e cuecas sobre o Agreste e o Sertão. Falta pouco. Louvemos e rezemos!
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Arte de Vittorio Gobbis
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Carta tardia a um poeta arredio
Ferreira Gullar
Poeta Carlos Drummond de Andrade, desculpe-me se venho lhe perturbar o sossego, dizendo-lhe coisas que, para você, a esta altura, não têm qualquer importância. Estarei sendo mesmo impertinente, ao manifestar-lhe, deste modo, minha solidariedade em face do vandalismo com que têm agredido sua estátua, ali, no calçadão da avenida Atlântica. Saquear a estátua de um poeta é coisa de gente demasiado ignorante.
Falo de impertinência minha porque, pelo que sei de você, estou certo de que não aprovaria essa ideia de materializá-lo em bronze como se estivesse sentado num dos bancos da praia a observar os banhistas e as banhistas sob o sol escaldante. Não que fosse indiferente à beleza das moças exibindo-se nos maiôs sumários que usam. Mas uma coisa é um poeta de carne e osso e outra, muito diferente, um poeta de bronze.
Tenho certeza de que jamais imaginou, ao passear por esse mesmo calçadão, que um dia estaria ali, metalicamente moldado, exposto ao sol e à chuva, à contemplação dos turistas como à solidão das noites intermináveis, quando o bairro inteiro dorme e mal se ouve, distante, o quebrar das ondas na areia.
Já que você, agora, é de bronze, e não me ouve, aproveito para dizer-lhe o que não disse nas raríssimas vezes em que nos encontramos e nas poucas, também, em que falamos, porque a verdade é que, se não sou tão arredio quanto você, sempre me foi difícil procurar as pessoas, muito mais ainda, poetas célebres, como é o seu caso. Já bastava ser célebre para me assustar; pior ainda se, além de célebre, era esquivo como você.
Vi-o, pela primeira vez, ao sair do elevador do "Correio da Manhã", na avenida Gomes Freire, aonde fui com Oliveira Bastos e Décio Victório, certa tarde, em que decidimos escandalizar as pessoas. Meus dois companheiros tinham as respectivas gravatas presas à cintura, enquanto eu trajava calças, paletó e gravata mas, em lugar de sapatos, calçava tamancos. Você não deve ter se dado conta da provocação, pois mal nos olhou, ao sair do elevador. Subimos até o andar da Redação e, numa saleta, nos deparamos com Otto Maria Carpeaux que, míope como era, escrevia à mão com a cara grudada no tampo da escrivaninha. Entramos os três e nos pusemos, ali, imitando-o, também com a cara colada na mesa. Ele se assustou e nos lançou um olhar indignado que nos fez deixar a saleta às gargalhadas.
Isso foi em 1955, quando alguns poucos que me conheciam tinham-me por maldito. Eu vagabundava, naquela época, pelas ruas do centro da cidade e às vezes me sentava à porta de um restaurante, ali na esquina de Graça Aranha com Araújo Porto Alegre; para contemplar o edifício do hoje Palácio Gustavo Capanema, que parecia flutuar, onde você trabalhava. E o vi, certa vez, deixar o trabalho, de mãos dadas com uma mocinha, que, soube depois, era sua namorada. A sua cara, porém, nada dizia.
Muitos anos se passaram até que você chegasse aos 70 anos e me convidassem para participar de um programa de televisão em sua homenagem. Escolhi, para dizer, aquele seu poema "Memória", por ser curto e por ser belo:
"As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão."
Fiquei todo bobo quando, dias depois, recebi um bilhete seu, agradecendo minha participação na homenagem e elogiando o modo como havia dito o poema. Tenho esse bilhete comigo, até hoje, guardado em alguma gaveta.
A última vez que o vi foi no velório de Vinicius de Moraes, no cemitério São João Batista. A morte, neste caso, serviu para nos aproximar: fui falar com você e, para minha surpresa, em vez do homem tímido e reservado, deparei-me com um sujeito irritado, reclamando da doença que lhe tinha aberto uma ferida no rosto, como me mostrou. Havia, de fato, uma cicatriz que lhe marcava a face direita.
Depois disso, só voltaria a vê-lo naquele mesmo cemitério, desta vez em seu próprio velório. Eu tinha, naquele dia, um compromisso de trabalho em Brasília mas, a caminho do aeroporto, fui, por assim dizer, despedir-me de você. E, desta vez, quem estava revoltado era eu, revoltado com sua morte, com esse fato inevitável e inaceitável, que é a morte das pessoas que amamos ou admiramos. As declarações, que dei aos jornalistas, naquela ocasião, estavam mais perto do insulto que de outra coisa. A quem eu insultava, na verdade, não sei.
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A noite
André Laurentino
Um voo São Paulo-Recife me levou à Bahia. Aos tempos fundos de uma noite antiga, escrita a máquina, noite barulhenta e clara do Rio Vermelho. Uma noite tomada pelas mãos, ainda menina, e enredada pelos becos e ladeiras do Pelourinho. Toda esta noite imensa, desmedida, passava brincando por debaixo do avião, e se prendia nos meus dedos, que seguravam seus pastores. "Os Pastores da Noite", livro de Jorge Amado que me levou mais alto do que as nuvens.
São 3 histórias que falam de uma vida mansa, de crimes amenos: o baralho de Cabo Martim, a mala de Otália, o castelo de Tibéria. As 400 mulatas de Pé-de-Vento. Os apelidos de carinho: Galo Doido, Curió, Cravo na Lapela, Lindo Cabelo. Há quanto tempo terá terminado esta noite? Desde quando a malandragem risonha fechou a cara? Houve uma vez o riso, ou só existiu na cabeça de Jorge, embalado pelo coração de criança e pena de galhofa?
Os jornais de hoje escrevem outra história. E o romantismo livresco ficou naquele tempo, que nunca terá existido. Na terceira parte do livro, quando o morro do Mata Galo é invadido, os malandros viram homens. Há tiros, morte e silêncio. Como se o livro terminasse onde começa a vida. Vida dura do sol a pino, que nada sabe da noite molhada de mar.
Fechei o livro quando o avião me trouxe de volta a São Paulo. Tomei o táxi e, na Marginal Tietê travada, pensei na doce ilusão daquelas histórias. Se fazem ainda sentido. Ou se fizeram quando o livro saiu, em 1964, e a madrugada deixava os saveiros em direção à Bahia para o Brasil mergulhar na noite mais densa que já enfrentou. Onde estava a inocência, mesmo ali?
Cheguei na rua de casa e vi que não tinha dinheiro para pagar a corrida. Teria que passar um cheque. Não gosto de pagar táxi com cheque, já li e-mails alertando contra golpes, alteração de valores, cópias de assinatura, falcatruas. Preenchi o cheque com letras enormes, gastando todo o espaço da folha, para não dar margem a novos números serem escritos ali. Cruzei. Entreguei ao motorista, um senhor de cabeça branca.
Ele pegou a folha, examinou e me olhou sorrindo. Um sorriso franco. Disse: “Letra grande, expansiva! Sinal de coração grande e generoso”. Ali estavam, em minha frente, Pé-de-Vento, Curió e Cabo Martim, a examinar meu cheque e ler uma história diferente, ao modo deles, ainda cheia de esperança, doçura e calor. O calor de uma noite que já perdi.
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Enviado por Marcos Silva
A une passante
Charles Baudelaire
La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet ;
Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.
Un éclair… puis la nuit ! — Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité ?
Ailleurs, bien loin d'ici ! trop tard ! jamais peut-être !
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais !
1) Tradução de Guilherme de Almeida
A Uma Passante
A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;
Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.
Brilho... e a noite depois! - Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na etern idade?
Longe daquí! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!
2) Tradução de Jamil Haddad Mansur
A uma Passante
A rua em derredor era um ruído incomum,
Longa, magra, de luto e na dor majestosa,
Uma mulher passou e com a mão faustosa
Erguendo, balançando o festão e o debrum;
Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu bebia perdido em minha crispação
No seu olhar, céu que germina o furacão,
A doçura que se embala e o frenesi que mata.
Um relâmpago, e após a noite! – Aérea beldade,
E cujo olhar me fez renascer de repente,
Só te verei um dia e já na eternidade?
Bem longe, tarde, além, "jamais" provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado – e o sabias demais!
3) Tradução de Ivan Junqueira
A uma passante
A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.
Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.
Que luz... e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?
Longe daqui! tarde demais! "nunca" talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!
4) Tradução de Juremir Machado da Silva
A Uma Passante
A rua ensurdecedora num alarido rugia em torno.
Alta, magra, toda de luto, dor majestosa,
Passou uma mulher, com a sua mão suntuosa
Levantando, balançando do vestido seu contorno.
Ágil e nobre, com as suas pernas de gata.
Eu bebia crispado e esquisito como um falcão
No olhar, céu lívido que germina um furacão,
A doçura que fascina e o prazer que mata.
Um relâmpago... a noite! – Fugidia beleza,
Cujo olhar me fez de repe nte nascer outra vez,
Só te reverei na eternidade com certeza?
Longe, bem longe: tarde demais! Nunca talvez!
Não sei para onde foges, não sabes aonde eu vou,
Ó você que eu teria amado, ó você que não ousou!
5) Tradução de Marcos Silva
A uma passante
Rua ensurdecedora ao meu redor urrava.
Alta, magra, em só luto, só dor majestosa,
Uma mulher passou, com uma mão faustosa
A guirlanda e a barra erguia, balançava;
Ágil e nobre, com sua perna de estátua.
Eu, crispado, eu bebia, como em contra-mão,
Em seu olho, céu claro, grão de furacão,
Doçura que fascina e prazer que mata.
Um clarão... a noite! – Fugidia beleza
Cujo olhar me fez de repente renascer,
Só te verei depois na eternidade acesa?
Longe, tão longe! tarde! talvez jamais te ver!
Ignoro onde foges, não sabes onde eu ia,
Ó tu que eu amaria, ó tu que o sabias!
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Titanic do século 21
Eliane Cantanhede
O regime Hugo Chávez faz água por todos os lados. Quinto produtor de petróleo do mundo, a Venezuela vive uma crise interna grave, vê minguarem os seus aliados "esquerdistas" nas Américas e está pendurada internacionalmente na Rússia e no Irã, o que já diz tudo.
Chávez fez uma faxina institucional na Venezuela, virou-se de costas para os EUA e de frente para a América do Sul e planejou investimentos externos e a conversão dos fabulosos lucros do petróleo na transformação da sociedade e da quase inexistente planta industrial. O messianismo bobo, porém, afundou todos esses sonhos.
Onze anos depois, a Venezuela convive com fuga de investidores, estatizações, fechamento de TVs e uma crise na economia que não fica só nos números, mas atinge a vida das pessoas: que tal racionamento de água e de energia? Os aliados de primeira hora pulam do barco.
Chávez também imaginou uma América do Sul "bolivariana", unida e pronta a enfrentar a potência com regimes fechados e discursos a la Fidel. Falou-se até da "esquerdização" da região, com as eleições na Bolívia, no Equador e na Nicarágua, como se houvesse um processo. Mas o processo engasgou.
O Brasil, em vez de fechar, abre-se para o mundo. Na Colômbia e no Peru, a aliança com os EUA só recrudesceu. Na Argentina, os Kirchner têm problemas demais para brincar de esquerdistas. Agora, o Chile dobra à direita, e Honduras corta o fio da meada bolivariana na América Central e no Caribe.
A Rússia tem o pior desempenho dos Bric na crise econômica, e o Irã, isolado da comunidade internacional e matando seus dissidentes políticos e religiosos, só pensa naquilo: enriquecer urânio. Ambos têm mais o que fazer do que embalar a Venezuela.
Chávez sonhava com o "socialismo do século 21". Os venezuelanos acordam no "titanic do século 21" e sem comandante alternativo.
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Flor do asfalto
Carlos Heitor Cony
Uma opinião pessoal, sujeita a chuvas, trovoadas e enchentes como as de São Paulo. Ou piores, porque estanques na memória estagnada do menino que fui sem nunca ter sido realmente um menino. Acho que o mundo era outro. Ao cair da tarde, acendia-se a primeira lâmpada da casa. Minha madrinha era a primeira a saudar a luz que iluminaria o nosso jantar: "Boa noite!" E todos se cumprimentavam, como se estivessem chegando de uma jornada que ficara para trás.
Era hora, também, de os vizinhos se saudarem. E os boas-noites se cruzavam de varanda a varanda, passando pelas cercas de buganvílias -que toda casa tinha uma. E nosso vizinho aparecia já de pijama, arrastando os chinelos.
Ia de casa em casa levando o seu boa-noite. Chamava-se Azevedo, Azevedo não sei de quê. Meu pai dizia que Azevedo era maluco, mas boa alma -antigamente havia essa expressão: boa alma. Pois, com sua boa alma, seu pijama e chinelos, Azevedo dava boa-noite a todos e, por mais que pareça improvável, isso fazia nossa noite realmente boa.
Depois, outras luzes eram acesas, o cheiro das buganvílias ficava suspenso no ar até que chegava o cheiro do jantar que estava indo para a mesa. A cabeça da madrinha, muito branca e limpinha, começava a curvar sobre o peito, ela jamais dormiria sem antes ver acesa a primeira luz da casa, sem antes celebrar a cerimônia da paz com a senha de seu boa-noite.
Na casa ao lado, além das buganvílias, Azevedo preparava-se para dormir com seu pijama, seus chinelos e sua boa alma. Um cair de noite com cheiros bons de uma vida que corria sem pressa. A novidade era o rádio que trazia um pouco da perfídia do mundo para a nossa paz: "Deixou-me a flor do asfalto abandonado, nesta ansiedade louca do desejo...".
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Erudito dissonante
Alcir Pécora
Wilson Martins (1921-2010), sob vários títulos, poderia ser autor muito lido, citado e consultado na crítica universitária contemporânea. Em primeiro lugar, pela aproximação ampla que tentou da cultura material e, em particular, da história do livro e da leitura -hoje, objeto de uma infinidade de teses e artigos.
Foi o que fez, por exemplo, em "A Palavra Escrita - História do Livro, da Imprensa e da Biblioteca" (1957), quando os historiadores Robert Darnton ou Roger Chartier nem haviam feito graduação.
Depois, pelo esforço de pesquisa documental exaustiva, pela disposição de compor inventários, séries cronológicas e biobibliográficas, que hoje são procedimentos correntes e valorizados nas investigações de arquivo em todas as faculdades importantes do país.
Nem seria preciso lembrar o quanto isso ocorre nos sete volumes da "História da Inteligência Brasileira" (1976-79).
Martins poderia ser autor apreciado também pelo amplo cruzamento de áreas que promove em suas análises, pela comparação sistemática da literatura com os diversos gêneros letrados praticados em certo período.
Encontra hoje muitos ecos a sua tentativa metodológica de elencar e contrapor diferentes fenômenos intelectuais, de modo a lançar hipóteses sobre a sua estrutura comum, a detectar o que constituísse a sua "forma mentis", como dizia, bem como a homologia entre as várias práticas intelectuais e artísticas.
É o que ocorre não apenas na citada "História da Inteligência Brasileira", cujo título já é elucidativo desse empreendimento interdisciplinar, mas de boa parte de sua crítica.
Mas não se passa assim. Talvez consultado, antes das aulas, mas não discutido dentro delas; poucas vezes debatido nas bancas diárias dos estudos literários na universidade.
Por que isso se dá? Ou melhor, como isso se deu?, ocorre perguntar, quando a sua morte tão recente salienta, de repente, a sua ausência anterior.
É possível que o descaso seja fruto colhido pela ruptura do pacto de cordialidade no trato de parceiros de profissão? Está claro que Martins não tinha mãos para panos quentes e sua escrita deixava vazar sem dó o gosto da polêmica e da mordida crítica. Não raro, anotava na obra examinada a pouca familiaridade com a matéria, a ignorância bibliográfica, a indigência no domínio da língua, quando não isso tudo, e mais.
Em qualquer ano que se abra, por exemplo, os dois volumes da sua "Crítica Literária no Brasil" (1983), colegas de ofício, com carreira acadêmica e representação institucional importantes, se veem constrangidos a lhe sentir publicamente a fervura do verbo.
A vontade de tornar expressiva e superjustificada a crítica que fazia, mais do que de matizá-la e equilibrá-la, dava ar de truculência verbal e mesmo de destempero ao que, por outro lado, estava mais para orgulho de andar sozinho, de ser avis rara "no país da patotagem, do compadrio, do você é de direita, eu sou de esquerda", como o traduziu seu editor José Mario Pereira.
É como se não aliviasse a mão para deixar claro que se comprometia moralmente, existencialmente, com a dissonância que introduzia na conversa, e que o desacordo era o modo privilegiado de fazer andar a conversa.
À estridência de sua crítica, que entrava sem pedir licença na cena da leitura, confundindo, por vezes, rigor e falta de polidez, tem correspondido o silêncio diante dela, o que tanto ressalta o ambiente suscetível e aparelhado, como a simples indisposição para o trabalho que daria responder a ela. Mas essa é apenas a hipótese mais imediata para o terceiro plano ao qual se relega a sua obra vasta, de proliferação enciclopédica.
Se comecei dizendo que Martins calhava com certa tendência inventarial da crítica contemporânea, ele se afasta dela não apenas pela exacerbação crítica, pela erudição, mas sobretudo pela concepção de crítica, que dá primazia cultural ao debate e ao juízo "a quente" da produção contemporânea -exercidos principalmente nas páginas dos jornais- sobre o ensaio crítico universitário elaborado sobre o consagrado e consensual.
Quando ele diz que "a crítica só pode ser universitária depois que a crítica jornalística deu a sua palavra", não está afirmando apenas uma prerrogativa temporal, mas uma precedência epistemológica. Num ambiente em que o jornalismo literário e de erudição autodidata já perdeu há muito tempo o prestígio diante da especialização universitária, compreende-se que Martins soe antiquado.
Não é o mais grave. Não é apenas que, por exemplo, as páginas de literatura se encolham nos jornais, não fosse por outro motivo, pela falta de eruditos nas redações ou de intelectuais de primeira dispostos a entrar na cena armada dos lançamentos editoriais.
Mais drástico é o encolhimento dos estudos literários dentro dos próprios departamentos universitários de literatura, a qual perde -já perdeu- não apenas espaço para os estudos culturalistas de gêneros, minorias, direitos, testemunhos terríveis e edificantes, como para a "teoria" que a toma como ilustração e exemplo, não como corpo epistemológico da investigação ou do prazer físico da leitura.
Quer dizer, quando a própria literatura sai de cena, o nome de Martins é só mais um que sai junto com ela.
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Uma preciosidade o “bofetão”!
Coronel Maciel
Enviado pelo autor
Nos países desenvolvidos, nos países “sérios”, não se ouve, não se fala, não se comenta, não se vê militares se envolvendo em política. Isto em países sérios! Suécia, Canadá, França, Japão e similares. É o ideal! É ideal que isto aconteça. Mas em países como o nosso querido Brasil, onde o que mais se vê são bandidos de colarinho branco; comunistas da pior espécie; a fina flor da malandragem e do gênero humano ocupando os mais altos postos na magistratura, no congresso nacional, no palácio do planalto; onde o povão é vítima, é presa fácil do primeiro discurso do político profissional; nestes casos “terminais” eu acho (será que só eu acho?) que os militares têm, muito mais que o direito, o “sagrado” dever de “imiscuírem-se” na política, na tentativa de extirpar o câncer, de dar um basta na “esculhambação”, na zona, na zorra total; comandar um “cobre e alinha”; um pouco mais de ordem neste terremoto ponto sete que balança o Brasil... -- Eu sei, eu sei terroristas que “puLullam” pelo Brasil, que, quando as democracias entram em crise, a própria democracia encontra seus próprios remédios, sem a intervenção de remédios externos, de remédios disciplinadores, fortes, decisivos só encontrados dentro dos tanques, aviões e porta-aviões! Mas estou falando desta nossa atual e imunda “democracia”... Nestes casos, e somente nestes casos, é que eu dou um valor tremendo a um “bofetão”; um bom bofetão ensina mais que todas as escolas reunidas... Um bom bofetão ajusta ao máximo possível o senso de justiça, da responsabilidade, do dever; ensina a tocaia; ensina o momento certo, muito embora ensine também o pior e o melhor ao mesmo tempo! Uma verdadeira preciosidade, o bofetão! O Brasil está precisando de um bom bofetão... De um bom “castelão” bem na boca do estômago... rsrsrsr
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Enviado por Fernando Monteiro
Prezado Fernando Monteiro,
Rompendo o silêncio ─ fruto, em parte, de uma inesperada enfermidade ─, pretendo lhe parabenizar pela entrevista do começo deste ano de 2010, a Laurence Bittencourt, recentemente publicada no Substantivo Plural.
Sem nenhum temor e piedade como o fez o grande Thomas Bernhard contra a Áustria e o povo austríaco, em parte justifica uma das frases do poeta René Char remetida por você: “Aquele que vem ao mundo para nada perturbar não merece nem contemplações nem paciência”.
Quanto mais você se isola nas suas investidas contra o farisaísmo nacional, mais você é digno de ter escrito “Vi uma foto de Anna Akhmátova”. E razão tem a moça Edjane Linhares em dizer que “este poema é um encontro antológico de dois poetas”. E, para terminar, a descoberta de que “o poeta é um dos poucos seres humanos que dá significado a própria existência”.
Repito que a sua entrevista foi um ato de desabusada coragem.
Abraço,
Francisco Brennand
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Enviado por Laélio Ferreira
Caro Ricardo Rosado.
Evoé!
Agradecendo o acolhimento à minha queixa contra a irresponsabiliade profissional do escultor Ery Medeiros - e levando em conta não ter tido sucesso ao postar um comentário meu no seu respeitado blog - rogo dar publicidade no mesmo espaço ("Comentários") a resposta abaixo ao meu inidentificado e feroz crítico. Tenho a impressão que deve ser um dos enfumaçados "intelectuais conterrâneos", aos quais, abertamente, tenho feito críticas, apontando-lhes a mediocridade e os vícios.
Um abraço,
Laélio Ferreira
O apelo do poeta (FATOR RHH)
http://www.fatorrrh.com.br/2010/02/o-apelo-do-poeta.html#comments
Recebi do poeta Laélio Ferreira de Melo o texto abaixo.
O Fator RRH reproduz numa tentativa de ampliar o apelo do poeta e o escultor atender a demanda o mais rápido possível.
Segue o texto de Laélio:
Senhor Ery Medeiros.
Há alguns meses atrás, vários meses, encomendei a Vossa Senhoria um busto de Othoniel Menezes, meu Pai.
Estive na sua residência/estúdio várias vezes, tanto só, quanto na companhia de filhos, dando sugestões acerca da fisionomia do poeta, por final aprovando o modelo (em cerâmica) que nos foi apresentado na última visita.
De lá para cá - apesar de ter o senhor solicitado e RECEBIDO, mediante cheques do Banco do Brasil S/A (Agência do Natal Shopping) bem mais do que CINCOENTA POR CENTO do valor acordado de Cr$. 9.000,00 pela totalidade dos serviços prestados -, até a presente data (01 de fevereiro de 2010), sem me oferecer nenhuma satisfação ou justificativa, NÃO ENTREGOU a obra contratada.
A última e breve notícia que tive do tal busto me foi dada hoje pela Professora Isaura Rosado, a quem solicitei informações, levando em conta que foi ela a pessoa que indicou Vossa Senhoria para a realização do trabalho artístico.
Disse-me a professora que o Senhor não lhe dera sequer data para a entrega da peça acabada em bronze, afirmando tão-somente que "estava queimando (a peça)".
Manifesto, agora, o meu protesto contra a sua limitada - e para mim inútil - "informação".
Tenho compromissos com a família e com terceiros, a esta altura inadiáveis, para a aposição do busto em local por mim escolhido, no DIA 10 DE MARÇO do presente ano, nesta Capital.
À vista do exposto, vou aguardar, no menor espaço de tempo que lhe for possível, a sua inteira, necessária e imprescidível manifestação a respeito.
Tudo, sob pena de, no foro apropriado, tomar as providências que o caso requer.
Laélio Ferreira de Melo
oileal@oi.com.br
Telefones:
Celular 8824 1939
Convencional 3201 2076
Comentários:
Anônimo disse...
Sinceramente, abrir espaço para cobrança pessoal ainda por cima em tom de franca ameaça, será que esse é o fórum apropriado? Não é muito cabimento e abre prcedente para outros pedidos da mesma cepa? Ainda mais que esse cara é um chato, mal humorado e briguento. Só aparece como dono da verdade e chibata do mundo. Com certeza a pior obra de Otoniel Manezes
4 de fevereiro de 2010 10:03
GLOSA/RESPOSTA
Quem é quem, você, mucufa?
todo enrustido e sem nome
Você carrega na mufa,
me parece, muita merda!
É, portanto, um bedamerda,
quem é quem, você, mucufa?
Sem dizer o nome, estufa
o traseiro sem renome
e , assim, sem sobrenome
quer tirar onda comigo?
- Volte à lama, o seu abrigo,
todo enrustido e sem nome!
Laélio Ferreira
04/01/2010
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Tradução, tradutor, traduzido.
Marcos Silva
Enviado pelo autor
Jairo:
O tema que vc sugere para nosso diálogo é excelente: o que se lê numa tradução (o tradutor ou o traduzido)?
Minha primeira resposta é: lemos, antes de mais nada, o traduzido; mas essa leitura é feita através do tradutor; nesse sentido, lemos sempre os dois.
Tendo a pensar que quem traduz declara amor pelo original e apresenta aos outros seu entendimento daquele original. Nenhuma tradução abolirá o original – no caso de um grande escritor como Baudelaire, que traduziu outro grande escritor como Allan Poe, o resultado final deu lugar a um novo belo texto em francês mas ninguém deixará de poder ler a primeira versão em inglês.
Traduzir poemas é dar conta de vocabulário, ritmos, rimas (quando existem), figuras de linguagem...
Costumo fazer um paralelo entre uma tradução e as versões no poema-processo: nunca chegaremos à tradução definitiva, cada uma é uma aproximação marcada pelo presente do tradutor.
Traduzo poemas que eu amo, sempre de forma humilde e convidando o leitor a ler o original, inclusive a fazer sua tradução pessoal – que findamos fazendo mentalmente quando lemos noutra língua.
Abraços de afeto e admiração.
•
Brilhante, Marcos, concordo inteiramente. Certa vez, no Recife, submeti este tema ao Ivan Junqueira e acho que ele saiu pela tangente.
Forte abraço.
JL
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Enviado por Geraldo Barboza de Oliveira
Specchio
Franco Jasielo
fosti servo inconfondibile signore
vivido gentile solerte e attivo
creaste dimensioni non dovute
porta di sera terrazzo all'albeggiare
sei pelle di luna vetro argento acciaio
Espelho
foste servo senhor inconfundível
vívido gentil desperto e ativo
criaste dimensões que não te deram
porta na tarde terraço ao alvorecer
és pele de reflexo vidro prata aço
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Ao Amigo Jairo
João da Mata Costa
Enviado pelo autor
Amigo Jairo:
Foi um longo verão. Inútil chorar. O amor acaba. Inútil esquecer o que passou. Foi bom para nós dois. Você partiu e fiquei vendo que
voce estava aqui e nem sabia. Obrigado pelas sopas que antecedem ao prato principal. Obrigado pelo papo furado.
Você que uniu cidades. Com o amor é diferente. Assim mesmo, solitário. Ficamos mais desertos. Aprendemos muito com o outro. De tudo um pouco. Luzes, beleza, amor. Livros, óperas, literatura é o que desejamos e quando muito conseguimos um pequeno fragmento dito tantas vezes como nesse pequeno fragmento de um discurso amoroso de Roland Barthes citando Nietzche.
“ ou ainda: tal, não é o amigo? Aquele que pode se afastar um instante sem que sua imagem d]se destrua? “ Éramos amigos e nos tornamos estranhos um ao outro. Mas é bom que seja assim, e não o procuraremos dissimular sem disfarçar, como de devêssemos ter vergonha disso. Como dois navios que seguem cada um sem rumo e seu próprio objetivo: assim sem duvida poderemos nos encontrar e celebrar festas entre nós como já fizemos antes- e então os bons navios repousavam lado a lado no mesmo porto, sob o sol, tão tranqüilos que se poderia dizer que já tinham chegado ao seu objetivo e tivessem tido a mesma destinação. Mas em seguida o apelo irresistível da nossa missão nos levaria de novo um para longe do outro, cada um sobre mares , rumo a passagens, sob sóis diferentes – talvez para nunca mais nos revermos, talvez para nos revermos uma vez mais, mas sem nos reconhecermos: mares e sós diferentes provavelmente nos fizeram mudar! “
•
Obrigado, João, pela generosidade de suas palavras. Valeu demais estar aqui e ser seu amigo.
JL
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Arte de Milton Dacosta
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Pano Rápido
Joca Souza Leão
Enviado pelo autor
Amigos de infância
O poeta João Cabral de Melo Neto e
os escritores Fernando Pessoa Ferreira e
Félix de Athayde, todos pernambucanos
e morando no Rio havia muito tempo,
estavam jantando na Cantina Fiorentina,
no Leme, quando ouviram um burburinho
do lado de fora. João Cabral quis saber o
que tava acontecendo. Félix esclareceu:
“É o Chacrinha, que acabou de chegar.”
“Chacrinha? Quem é Chacrinha?”, quis
saber João. “É um apresentador de tevê
muito famoso”, disse Fernando. “E é
pernambucano”, acrescentou Félix. Nisso,
Chacrinha entra na cantina, seguido
de assessores e chacretes. Ao passar
pela mesa dos três, parou. E voltou. Braços
para o alto e voz embargada, partiu
para o abraço:
— João?
— Abelardo!
— Viva o Colégio Marista!
Desempregado
A secretária da Editora Brasileira de
Guias Especiais- EBGE, que edita o livro
Sociedade Pernambucana, do jornalista
João Alberto Sobral, ligou para o poeta
Marcus Accioly para atualizar os dados
da edição do ano seguinte: endereço,
telefones, e-mail, essas coisas. Esbarrou
na atividade profissional: “Poeta”.
— O senhor já arrumou algum emprego?
Voa e não voa
Depois do milagre econômico da
época da ditadura militar, o Brasil passou
por vários planos e pacotes miraculosos
para acabar com a inflação. Quando
o Plano Cruzado foi lançado, em 86,
o economista Mário Henrique Simonsen
vaticinou:
— Todo mundo pode acreditar que
o trapezista voa. Menos o trapezista.
A mais pedida
A música Ronda é campeã de pedidos. O
que o compositor Paulo Vanzolini nem imaginava
é como a maioria dos boêmios escreve
o nome de sua música nos bilhetinhos que
mandam para os cantores:
“Honda”.
Ao vivo
O locutor Tavares
Maciel, baixinho, gordinho
e agitado, fazia a
reportagem ao vivo da
chegada do novo arcebispo
do Recife e Olinda,
Dom Carlos Coelho,
no Aeroporto do Ibura.
A Cúria havia anunciado
que Dom Carlos desembarcaria
com o representante
do papa, “um
cardeal de fora”.
— Ouvintes da Rádio
Clube! Neste momento,
Sua Eminência Reverendíssima
Dom Carlos Coelho
está desembarcando
do avião com o membro
de fora.
Vai e volta
José Francisco do Couto Pinto
formou-se em engenharia, ganhou
dinheiro e prestígio, mas nunca
perdeu o apelido do tempo de faculdade:
Nêgo Téo. Pois bem, Nêgo
Téo tava com uma dor nas costas
de lascar. Foi ao médico. O doutor
examinou e prescreveu um antiinflamatório.
Na semana seguinte, a secretária
do médico ligou pro Nêgo:
“O doutor pediu pra avisar que o
cheque voltou”.
— Pois diga a ele, minha filha,
que empatamos: a dor também voltou.
Sabedoria
Conselho do septuagenário Luciano
Araujo:
— Depois de certa idade, não confie
em peidinho; e nunca desperdice uma ereção.
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Natal: Moura-torta de poetas
Laélio Ferreira
Enviado pelo autor
“Já disseram uma vez que Natal cospe os bons. Pode ser. Taí sua partida pra testemunhar a favor da tese.”
Rodrigo Levino, in “Papo Furado”
“Há, no Sertão de espinho e de flor, entretanto, no âmago do Canto
XV, algumas estrofes onde, ao invés de abordar o tema principal,
o poeta abre o seu coração numa demonstração de mágoa e desencanto
com a cidade por ele considerada como “madrasta
mendaz”. É um momento de desabafo e manifestação do ressentimento
que eclodiria, mais tarde, no seu auto-exílio no Rio de
Janeiro, aonde viria a falecer, em 19 de abril de 1969.”
Cláudio Galvão, in “OTHONIEL MENEZES” – Obra Reunida”
“Canto 15
Minha viola a chorar
À tarde, o langor sidéreo1
cai no humilde cemitério,
em vaporosas visões.
Minha mãe dorme, a um cantinho...
Sua alma de passarinho
chora, nas minhas canções.
Que, um dia, também, ao lado
desse túmulo escalvado,2
possa – esquecido! – dormir!
Nem pedra, nem cruz. Por cima,
apenas, a agreste rima
de uma jurema – a florir...3
(O corpo dorme. É outro, o ritmo
da Alma – ardente logaritmo,
que só com o Ideal condiz.
Que vale, pois, um letreiro,
sobre o nada passageiro
da crisálida infeliz?).
O epitáfio mais pomposo,
a quem, porventura, o gozo
do que não teve, dará?
– Na vala comum, não dorme,
o diamante rude e enorme
do crânio de Itajubá?4
E eis o que este te diria,
sem a santa hipocrisia
do que te disse – por Deus!
Vê quão fiel se te ajusta,
Natal, cidade-Locusta5,
Cornélia...6 de filisteus!
–”A terra onde tenho o nome,
mata os poetas – de fome.
Profeta, nenhum se viu...
A parábola de Cristo
não teve melhor registo,
mais dura não se cumpriu!
“Moura-torta7 de poetas!
Em minha vida, completas
o que fizeste aos demais!
Não venhas, depois, no trilho
dos meus versos: – Ai, meu filho!–
carpir,8 madrasta mendaz!9
És linda. Iara10 morena,
pulando da água serena
do Potengi,11 a cantar,
nua, à sombra dos coqueiros,
perfumada de cajueiros,
– os seios furando o mar...12
–Jamais quiseste, entretanto,
ouvir o amoroso canto
de um filho. Formosa e cruel,
à mingua os matas. E, calma,
lhes negas tivessem alma.
És mãe – como a cascavel...13
Porventura, alguma estátua
já ergueste, cabocla fátua,14
a quem fosse meu irmão?
Se a políticos se faça,
quando farás, e em que praça,
a de Alberto Maranhão?15
Órfão de paz e conforto,
que importa – depois de morto –
teus remorsos merecer?
Maldita sejas se, um dia,
tentares, hiena impia,
as cinzas me revolver!16
De resto, não m’as perdeste?
Melhor destino, foi este,
que o de um rótulo em latim,
– língua de enterro e de foro,
em que se diz que foi de ouro
tanta vasilha ruim...
“A glória a que aspiro – a única –,
a que há de ser minha túnica,
mais sagrada que a de um rei,
posse, intangível, se planta
na alma do povo – que canta
as canções que lhe ensinei!”
Conceito geral, que a História
tem dado à palavra – glória –,
Que pesas, sem a exceção?
Quem, no tempo, é mais gigante:
Francisco de Assis ou Dante?
O Cérebro, ou o Coração?
Nascido sobre palhinhas,
mais humilde que as rolinhas
– nu e Só, morre na Cruz...
Que Papa, na História inteira,
vale um átomo, da poeira
das jornadas de Jesus?
Feliz, quem possa, chegado
do mundo, ao Céu estrelado,
alto, à Consciência, dizer:
– “Amei!” Por amor, somente,
vir à terra, novamente,
sofrer! Batalhar! Viver!17
Notas (do autor) ao Canto 15
Itajubá: Manoel Virgílio Ferreira Itajubá, nascido em Natal,
em 21 de agosto de 1875. Foi o maior poeta do Rio Grande
do Norte, em todos os tempos; o legítimo criador de nossa poesia
regionalista, renovador incontestável da lírica potiguar. E, tudo,
franciscanamente desprovido de cultura literária – de cultura de
qualquer natureza. Espécie de rude Burbank18 da poesia, mago
plebeu, enxertando no carcomido tronco do salgueiro
portucalense – já transplantado da Inglaterra, com Byron, e, da
França, com Lamartine19 e Chateaubriand –,20 selvas olorosas,
aromas acres e salubérrimos de cajueiros e maçarandubas agrestes.
Arrastou – e, por que não? – uma existência misérrima, salteada
de privações estomacais, de humilhações de toda espécie, negado,
desamparado, ridicularizado, hostilizado pelos filisteus e pelos
políticos. Estes, ao tempo, parece que premonitoriamente desconfiados
dos flamantes discursos de Itajubá, em passeatas e greves
de operários, apenas lhe não pespegaram a cominatória de
“comunista”– 21 como a outros, depois, aconteceu – porque era
temporã,22 essa pecha, posteriormente a 1935 tão cômoda de
aplicar ao canastro23 dos que não liam pela cartilha dos “democratas”,
dos “cristãos” no poder.24
Morreu no Rio, em leito de indigente, num hospital, em 30 de
junho de 1912, “vítima de um médico que não acreditava na
assepsia”, conforme o autorizado testemunho de Câmara Cascudo,
em Alma Patrícia (1921).
Seu enterro, numa aspérrima tarde de inverno carioca, foi feito
às expensas de conterrâneos, pelo caridoso intermédio de
Aristóteles Costa e Eloy de Souza. As cinzas, por este último
trazidas para Natal, perderam-se, jogadas a uma vala comum, durante
a última reforma efetuada na Igreja do Bom Jesus das Dores,
na Ribeira, onde tinham sido depositadas.
Há dois livros de Itajubá, publicados: Terra Natal (1914), pela
Tipografia do Instituto Histórico, e Harmonias do Norte (incluindo
uma segunda edição do primeiro, e sob o título de Obras completas,
1927). São livros muito raros, hoje, e cremos que não foi além de
duzentos exemplares, cada tiragem.
Eis uns versos, destacados do primeiro (Canto XXXII) e que
bem eloquentemente atestam o que sofreu Ferreira Itajubá “da
moura-torta de poetas”:
Caridade, não há, pois tenho padecido
fome e sede, e sei como é viver mal vestido,
e passar, na existência, uma semana inteira,
pobre de pão na bolsa e água na cantareira!
Uma canção, de Harmonias do Norte, que reúne as melhores
poesias, inclusive seis a oito “modinhas”, lindíssimas, musicadas por
Eduardo Medeiros, Cirilo Lopes, Virgílio Carneiro, e outros.
Esta tem a solfa do primeiro desses compositores:
BARCAROLA
Não te recordas querida,
Da noite em que nos beijamos,
Sob a frescura dos ramos
Da laranjeira florida?
Gemia a viola na aldeia,
A brisa um hino entoava,
E a luz da lua inundava
A terra – de rosas cheia.
Lá na planície da serra,
Junho alourava as espigas.
Vinham de longe, as cantigas
Das moças de minha terra,
Quando te vi, linda flor,
E da noite à doce calma,
Derramaste na minha alma
O eflúvio do teu calor.
Saudade! Quanta saudade
Da noite em que, ao céu sereno,
Tu me abriste o seio, pleno
De aroma e de mocidade!
A sombra da laranjeira,
Por ti, visão da alegria,
Do meu beijo a cotovia
Cantou, pela primeira vez!
Tu esqueceste os ditosos
Domingos embalsamados,
E os cantos apaixonados
Dos jangadeiros saudosos
Que, ao céu transparente e azul,
Do estio nas tardes belas,
Passavam, moldando as velas,
Abertas ao vento sul!
Tudo esqueceste, e mais nada
Resta, em tua alma enganosa,
Dessa paixão desditosa,
Dessa ilusão desfolhada
Que eu lembro todos os dias,
Pensativo, a cada instante,
Ó lavandisca inconstante
Das areias alvadias!
Talvez que essa alma não possa
Acreditar, nunca mais,
Nos teus beijos aromais,
Nos teus sorrisos de moça!
Oh, meu doce malmequer,
Que me deixaste em janeiro!
como tudo é passageiro,
no coração da mulher!
O escritor José Bezerra Gomes,25 autor de Os Brutos e Por que
não se casa Doutor? (romances), publicou um excelente Retrato de
Ferreira Itajubá,26 e tem pronta para o prelo, minuciosa biografia
do poeta. O professor Clementino Câmara,27 membro da Academia
Norte-Rio-Grandense de Letras e casado com uma sobrinha
de Itajubá, tem também, pronta, a história do genial felibre. O
Autor deste poema publicou, em 1948, no jornal O Democrata,
uma série de trechos do ensaio que tem pronto, sobre o cantor de
“Branca”, trabalho que tem o título de Ferreira Itajubá – O drama da
vida de província.28
Notas de LAÉLIO FERREIRA:
1 Relativo aos astros, ou próprio deles; sideral.
2 Falto de vegetação; árido, estéril, calvo, descalvado.
3 O Poeta – auto-exilado no Rio de Janeiro por conta das ingratidões e
perseguições que lhes fizeram na sua própria terra –, apesar do poético
desejo de voltar a Natal, foi sepultado no Cemitério do Caju, na capital
carioca. Espiritualista, repetidamente recomendou à família para nada fazer
com os seus restos mortais – que ele considerava “simples matéria”.
Anos depois, em Natal, o escritor Gumercindo Saraiva (1915-1988), em
artigos publicados no jornal Tribuna do Norte, iniciou uma campanha para a
trasladação dos ossos do “chorão da Praieira”. O autor destas notas, escrevendo
ao musicólogo e historiador, agradecendo a lembrança, transmitiu
a recomendação deixada pelo genitor, frustrando, dessa maneira, a homenagem.
Até mesmo por saber o que aconteceu com “o diamante rude e
enorme do crânio de Itajubá”.
4 Ver nota de OM.
5 Locusta. Ver nota em Jardim tropical.
6 Colonia Cornelia Veneria Pompeianorum. Cidade romana de
Pompéia, destruída por uma erupção do Vesúvio, no ano 79 d.C.
7 Entidade fantástica do folclore português, personagem mourisca malfazeja,
o oposto da moura-encantada.
8 Arrancar (o cabelo) em sinal de dor. Tratar de, dizer, contar, exprimir,
lamentando-se; queixar-se de; lamentar, chorar.
9 Mentirosa, hipócrita, falsa. Traiçoeira, desleal, pérfida.
10 Segundo Câmara Cascudo (Dicionário do Folclore Brasileiro – 9ª. edição,
Global Editora), “Nome convencional e literário da mãe-d’água, iara, senhora”.
A Enciclopédia Compacta Brasil – Larousse Cultural, Nova Cultura,
1995, define-a como “figura mitológica difundida entre os indígenas e
caboclos após o século XVII, de aculturação provavelmente européia e
tendo suas raízes nas sereias. Loira e muito bonita, a mãe-d’água atrai os
pescadores, ou quem quer que se aproxime de rio ou praia à noite, e leva
o pretendente a afogar-se em busca de diversão. Em algumas comunidades
é reputada como protetora das águas e pescas. Sendo meio peixe e
meio mulher, apresenta-se a pentear os cabelos, a cantar ou mesmo con514
versando com algum passante. Encantado e quase que sob efeito hipnótico,
o pretenso parceiro mergulha nas profundezas da água, onde sufoca e
morre”.
11 “Rio em cuja margem direita está a cidade do Natal. O mesmo Rio Grande
do Norte, dando nome à Capitania, Província e Estado. De poti-gi, rio dos
camarões” (Luís da Câmara Cascudo, Nomes da Terra, Fundação José
Augusto, 1968). A “iara morena” de OM, hoje em dia, não se arriscaria a
mergulhar nas águas do rio – o “Potengi amado” da “Serenata do pescador”
(Ver O cancioneiro de Othoniel Menezes, neste volume). O mito folclórico,
hoje, não resistiria à poluição do curso d’água, altamente comprometido
por culpa da administração pública e da ganância empresarial. Bela e pobre
iara!
12 O poeta construiu a imagem dos “seios furando o mar” levando em conta
o formato semicircular do litoral natalense entre as Pontas de Genipabu
(ao Norte) e a do Pinto (ao Sul).
13 A cascavel (Crotalus durissus) é ovovivípara (animal cujo ovo é incubado no
interior do organismo materno, sem se nutrir à custa desse organismo).
Os ovos se rompem dentro da fêmea e nascem as cobrinhas formadas.
Diz-se, no sertão, que a mãe cascavel pratica o infanticídio, matando e
devorando (canibalismo) os filhotes que se aproximam do seu focinho.
14 Estulta; néscia, tola, insensata.
15 Quase oitenta anos depois, Alberto Maranhão continua sem um bronze em
praça pública. Enquanto isso...
16 Ver nota anterior, referente à segunda sextilha, neste Canto.
17 O espiritualismo kardecista de OM, fazia com que ele acreditasse na reencarnação.
18 Ver nota anterior, no Canto 7, (“No Piso do Comboio”).
19 Alphonse Marie Louis de Prat de Lamartine (Mâcon/França,
21.10.1790-Paris/França, 28.02.1869) Escritor, poeta e político francês.
Seus primeiros livros de poemas (Primeiras meditações poéticas, 1820, Novas
meditações poéticas, 1823) celebrizaram o autor e influenciaram
o Romantismo na França e em todo o mundo.
20 François-René de Chateaubriand (Saint-Malo França, 04.09.1768-
Paris/França, 04.07.1848). Seu nome completo é François- René Auguste
de Chateaubriand, também conhecido como visconde de Chateaubriand,
escritor, ensaísta, diplomata e político francês que se imortalizou pela
magnífica obra literária de caráter pré-romântico. Pela força da sua imaginação
e o brilho do seu estilo, que uniu a eloquência ao colorido das
descrições, Chateaubriand exerceu uma profunda influência na literatura
romântica de raiz europeia, incluindo a lusófona.
21 Ver nota 329, no ensaio Ferreira Itajubá – O drama da vida de província, neste
volume.
22 Que vem ou acontece fora, ou antes, do tempo próprio; extemporâneo.
23 O corpo humano, especialmente o tronco.
24 Acusado de “comunista” ´,em 1935, por haver escrito o jornal revolucionário
A Liberdade, OM foi preso e condenado, passando quase três anos
nos porões da ditadura de Vargas.
25 Ver nota nas dedicatórias de Sertão de espinho e de flor.
26 A Editora da UFRN publicou, em 2008, na Coleção Talento e Polêmica,
uma segunda edição da obra. A primeira edição foi de 1944.
27 Nota no livro Gérmen, desta Obra reunida.
28 Um dos livros deste volume.”
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Enviado pelo Coronel Maciel
Ó Jairo, poeta pernambucano, você acredita em discos-voadores? Pois eu não! E “olha” que eu já olhei muito para o nosso céu tão cheio de estrelas, durante os meus longos e demorados vôos noturnos. Sou um estudioso dos céus, como também sou um estudioso das várias religiões. Gosto muito de astronomia; não gosto, nem entendo nada de astrologia... Não acredito em “almas do outro mundo...” Acredito na existência lógica de milhões de planetas habitados, por este mundão de Deus! Por que só a nossa terrinha, este “zero pequenino”, ser habitado? Só não consigo entender o porquê de seres tão avançados, depois de viajarem distâncias tão astronômicas, em velocidades próximas da luz -- Einstein frustrou a humanidade ao limitar-nos à velocidade da luz -- fiquem por aí, escondidos, medrosos... --Temerosos de quê, se tão poderosos? Só se for medo do Lula e seus quarenta ladrões rsrsr...
Quando eu era Major-Aviador servindo no Primeiro Comando Aéreo Regional, em Belém, havia uma turma de militares que “via” os tais discos evoluindo nas margens do rio Guamá, e nas águas azuis do rio Tapajós. Juravam para mim, que sou leigo e descrente de “quase” tudo, que os viam saindo, molhados e velozes, das águas profundas e sob os olhares admirados de botos e jacarés! Dizem as “más línguas” que eles só conseguiam ver esses fabulosos fenômenos, depois de terem tomado “todas” as cerpinhas, a deliciosa cerveja dos paraenses. Brincadeiras à parte, eu queria vê-los, nem que fosse uma só vez. Quem é que sabe alguma coisa sobre Deus e o seu reino, ou sobre “almas, ou coisas do outro mundo? – Ninguém!”... Não me lembro quando nem onde eu li esta frase magnífica:- - Se não conseguimos entender o grande Deus nas suas obras visíveis, como querer penetrar em seus pensamentos?
Shakespeare, na sua gigantesca obra “Hamlet”, dizia que há muito mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia... Por isso que, mesmo duvidando, mesmo não acreditando, acredito na “inocência” daqueles que vêem discos voadores; o medo, a ignorância, a escuridão criaram os deuses... É o que se costuma dizer... Criaram os inofensivos deuses da mitologia, hoje desacreditados. Criaram o “triangulo das Bermudas”, hoje também desacreditado. Insistem na existência desses fabulosos UFO’s... Mas tudo é possível, já dizia o nosso grande Machado de Assis.
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SOS Ponta Negra
João da Mata Costa
Enviado pelo autor
Leio estarrecido em letras garrafais que vão retomar o projeto de construção de espigões ao lado do morro do careca. Projeto embargado. Projeto que é um acinte à cidade de Natal e seus moradores. Não podemos permitir tamanha agressão. Eles não podem vender uma cidade, a sua alma, o seu cartão postal. Invoco a todos os santos e políticos do Brasil e do mundo para que não permitam que seja cometido mais esse crime.
Participei de inúmeras manifestações em defesa do morro do careca. Corremos abaixo-assinado com milhares de assinatura. Abraçamos o morro. E agora, na gestão de Micarla, esse projeto é retomado. Não permitamos. Meu Deus, não permita que eu morra vendo mais essa insensatez. Essa gestão da prefeitura de Natal tem tudo para ser a pior em todos os tempos. Só uma pessoa que não ama a sua cidade pode permitir tamanha agressão. È um crime de natureza ecológica, ambiental e espiritual. Esse morro é o nosso referencial. Esse morro é a nossa identidade e maior patrimônio. Não, não deixemos que esses monstros desfigurem nossa cidade.
damata
PONTANEGRA
ti conheci virgem e selvagem,
quando em menino vinha em picnic
banhar-me em tuas aguas e mergulhar em tuas ondas
para desvendar os teus mistérios
depois crescestes e tornastes mocinha
ficastes mais cobiçada e procurada por muitos que
só querem a aventura de um momento
e eu, para te desvendar melhor vim morar junto a ti
e fostes crescendo sempre bela
apesar dos aventureiros e daqueles que só te usam
nunca perdestes o viço e a beleza de tuas tardes
eternamente doiradas.
Ai veio o progresso e apagaram o teu luar
que cobria na noite todas as juras de amor
que te sussurrava.
E como se não bastasse
Querem te ferir de morte
Com cinco MENIR
Em cima da careca que ti simboliza.
E da vista que é teu cartão.
Sei que não pedistes isto
e ti estrupam e enxovalham
quando o que queres é só mais atenção
e mais praças com banquinhos e um violão
para ti namorar.
CHORO POR TI MINHA NEGRA
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Deu no site do Tácito Costa www.substantivoplural.com.br
Tempo-Será
Por João da Mata Costa
Para o teatrólogo e poeta Jairo Lima
TEMPO-SERÁ: 28 anos de um projeto teatral coletivo
“… o amor se vai o mar se sono se esvai como diz: o caso está enterrado a canoa do amor se quebrou no cotidiano estamos quites inútil apanhando de mútua dor mútua cota de dano”. (Maiakowisky).
Em 1982 uma experiência teatral muito bonita na cidade de Natal. Um grupo formado basicamente de professores universitários no início da carreira, alguns já retornando do mestrado e cheios de sonhos e projetos.
A idéia era montar uma peça teatral com textos do grupo e de outros autores que se afinavam com a temática das contradições do homem. Uma criação coletiva, altamente enriquecedora para todos do grupo. Líamos tudo que envolvesse a contradição. Um dos livros mais lidos pelo grupo era o Escuta Zé Ninguém, do Wilhelm Reich. Líamos muito Engels, Marx e todos os clássicos da dialética.
Um livro na mão, e muitas idéias na cabeça. Um laboratório dramático, de voz e expressão corporal. Um não findar de discussões teóricas e exercícios do corpo, dirigido pela amiga e professora Vera Rocha. Éramos rodeados de pessoas amigas e profissionais da maior competência. Eugenio Lima cuidava dos arranjos musicais, e Glênio Sá educava nossas vozes que cantava o poema de Ferreira Gullar: “uma parte de mim é todo mundo, outra parte é ninguém fundo sem fundo”.
A iluminação foi feita por Carlos Meirelles, e Eduardo Salmar foi o assistente de produção. Elizabeth Raulino fez a programação visual. Joana Lopes (autora de Pega Teatro) era amiga do grupo e deu muitas sugestões valiosíssimas. Joana, na apresentação do programa da peça, escreveu; “todos eles se dedicam à educação, embora sejam vistos como funcionários públicos. Eles falam em Tempo Será de contradições, algumas covardes, outras magníficas. É uma aventura cotidiana, dessas que não têm final feliz aparente, mas permite perguntar se os amantes da última cena vão jantar a vida a dois”.
A última cena eu fazia com a colega Lívia, numa dramatização de um texto do Veríssimo. A Troupe Teastral era formada pelos atores Fausto Faria, João da Mata Costa, Juca Villaschi, Lenira Dantas, Lívia Penna Firme e Sérgio Fialho. O texto da peça era de autoria do grupo, do Luís Fernando Veríssimo, Cecília Meirelles e Pablo Neruda. A estréia da peça se deu no Teatro Alberto Maranhão – em Natal, nos dias 13 e 14 de dezembro de 1982. Um tremendo sucesso e um exemplo do que o coletivo pode num tempo que sonhávamos com a transformação do país e do mundo. Uma experiência rica e prazerosa para todo o grupo. Um fazer teatro diferente, onde o processo foi mais importante que o produto final apresentado ao público.
A peça ainda seria apresentada em Campina Grande e Recife. Nesses 28 anos não poderia deixar de registrar esse belo momento de Natal, e de nossas vidas – e dizer da saudade que tenho de todos os que faziam a Troupe Teastral. “… Quem me vê assim cantando não sabe nada de mim… ”
O amigo e ator Olinto Rocha, resumiu bem essa experiência: Vários séculos de paixão retomados em quase um ano de trabalho. Paixão de representar. A magia do corpo, da voz, do palco, tentando construir uma verdade. Representação de realidades pequeno-burguesas, das nossas contradições e disfarces. Uma reflexão, no palco, do que está em torno (e dentro) de cada um.
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Ponta esquerda.
Coronel Maciel
Enviado pelo autor
Nunca joguei na esquerda! Nunca aprendi a ser canhoto! Sou “reaça” e sem medo de ser feliz. Isto não quer dizer que eu seja a favor de ditaduras. Sou contra! Sou contra qualquer uma delas; seja à moda “paredón” do Fidel Castro; seja à moda nazista, hitlerista, stalinista ou dessas ditaduras tupiniquins que estão sendo disseminadas pela nossa amada, mas sempre enganada América Latina. Sou contra qualquer tipo de ditadura. Apresso-me a dizer que no Brasil dos generais não houve ditadura; o que houve -- quer queiram quer não queiram alguns esquerdinhas daqui -- foram vinte anos de muita paz, muita tranqüilidade, segurança e muito desenvolvimento. Fábrica de aviões, hidroelétricas, grandes aeroportos, CTA’s, projetos Rondons e por aí vai; ou melhor, “foi”... Nada de PAC’s, nem mãe de PAC’s. Nada de bolsas-esmolas. Nada de terroristas nos governando... Ontem fui dar um giro pelos conjuntos residenciais construídos na época da nossa “ditadura”. Que beleza! Completamente diferente desses conjuntos, ou melhor, desses aglomerados, desses ajuntamentos, dessas favelas construídas nesta corrupta “nova república”. Quanta diferença... Poderia ir destacando outras diferenças entre o bem e mal; entre o céu e o inferno; entre o período revolucionário e esta orgia desenfreada que estamos sofrendo hoje... Mas deixo tudo na imaginação, nas lembranças daqueles tempos quando “éramos felizes e não sabíamos”...
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Enviado por Pedro Lucas Bezerra
Ô Jairo, você vai me desculpar a demora pra dizer qualquer coisa sobre sua partida. Mas você também já sabe todo o respeito e a honra que tenho de ter conhecido alguém com sua grandeza. Nunca vi pessoa pra saber conversar tão bem quanto Jairo Lima. Nunca vi conhecimento tão assombroso sobre arte em todas suas formas. Jairo Lima leu todo o Dostoievski. Isso aí já prometia o total respeito de qualquer ser humano por ele. Mas não bastante isso, Jairo já deve ter ouvido toda peça erudita possível e já viu de tudo por aí. De tudo mesmo, é só conversar meia hora com ele. Logo mais Natal verá o tamanho da perda que está tendo.
Eu pelo menos não tenho nem como agradecer o tanto que aprendi e a alegria que me dá ter conhecido alguém do seu quilate.
Um abraço forte, e até a próxima, pelo menos não só virtualmente.
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Pedo, esse menino, deixe disso, vá. Assim você me deixa inté sem jeito, desaprumado, com tuas palavras tão generosas sobre este prosador militante que conversa que nem o cão e não deixa ninguém falar. Eu é que tive o privilégio de ver a tua aparição para a cena literária, tão novo e já tão encapetado, vixe Maria! Essa semana, conversando com o grande Chico Guedes, teve um momento em que eu puxei o teu saco e o de Sérgio Vilar, dizendo que via em vocês a renovação de uma estirpe de ensaístas aqui deste Rio Grande.
Obrigado, irmão, pelos belos papos no PF e um grande abraço no Bob.
JL
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Arte de Mário Zanini
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Deu no El Pais
Freud, em permanente ebulição
José Andrés Rojo
Desde 1º de janeiro, as obras de Sigmund Freud, o pai da psicanálise, ficaram livres de direitos autorais no mundo inteiro. Exceto na Espanha, onde devido a uma disposição transitória da lei de propriedade intelectual continuam vigentes até 2019. Na França a notícia mobilizou as editoras, e ao longo do ano serão traduzidos por diversos selos vários textos do fundador da psicanálise. Tal rapidez de reflexos indica que Freud continua conquistando leitores e que sua obra mantém seu virulento poder de agitar o debate intelectual?
Sigmund Freud (1856-1939) veio questionar que o sujeito governasse sua vida com total autonomia, como se acreditava até então. Em condições normais, contou em "O Mal-estar da Cultura", o ego "se apresenta como algo independente, unitário, bem demarcado diante de todo o resto". Mas, acrescentou, esse ego se prolonga "para dentro, sem limites precisos, com uma entidade psíquica inconsciente que denominamos id, ao qual vem a servir de fachada". Por isso não sabemos grande coisa do que ocorre por essas zonas interiores, explicou, onde operam muitos desejos sexuais reprimidos.
Médico de formação, Freud investigou esses territórios obscuros para encontrar a maneira de curar determinados transtornos psicológicos. Daí surgiu uma nova escola, e sua correspondente terapia, a psicanálise. Mas o que fez principalmente esse brilhante senhor vienense foi mudar nossa maneira de entendermos a nós mesmos e ao mundo.
"Pode-se acreditar ou não na psicanálise, como se pode ser ou não marxista, entretanto as contribuições de Freud são indiscutíveis", comenta Antonio Valdecantos, um filósofo que ensina na Universidade Carlos 3º de Madri e que publicou há pouco tempo "La fábrica del bien" (ed. Síntesis). "Todo mundo sabe hoje que o ego não é transparente, nem está sempre disponível. Ninguém discute que haja zonas obscuras e que por mais liberdade que se possa ter nossa sexualidade continuará sendo opaca."
Carlos Gómez Sánchez, autor de "Freud y su obra: Génesis y constitución de la teoría psicoanalítica" (ed. Biblioteca Nueva), entende que o médico vienense soube vincular de maneira muito frutífera a sexualidade com a cultura, o desejo com a norma. Por isso considera que sua influência pode ser localizada em boa parte das referências intelectuais do século 20, começando pela fenomenologia e passando por Sartre, Fromm ou Bloch até chegar a Deleuze. "Há duas questões que me preocupam a propósito de seu legado", explica. "Em primeiro lugar, que não sejam levadas a sério suas contribuições e que sua obra se banalize e vulgarize. Ou, pelo contrário, que se entendam suas teorias como uma nova pedra filosofal, com o que a psicanálise poderá se transformar em uma péssima metafísica. Freud não é nenhum molho que sirva para enfeitar todos os pratos."
Em geral não há discussão: Freud é um clássico, faz parte do patrimônio intelectual de nosso tempo, dinamitou a maneira de entender o sujeito enquanto tentou tratou da força da libido.
Fernando Savater, em um artigo sobre o fundador da psicanálise, lembrou-se da definição que Chesterton deu em sua biografia de Dickens do que é um clássico: "Um rei do qual já se pode desertar, mas que não há modo de destronar". A citação veio a calhar, porque se alguém teve discípulos dispostos a questioná-lo foi Freud. Mas ninguém foi tão longe quanto ele na hora de mostrar o fundamental. É "invulnerável", escreveu Savater, apesar de ter sido muitas vezes traído. E anotou que a mais escandalosa dessas tradições foi a estilística. "É interessante, é detalhista, é pedagógico", dizia sobre Freud, "não renuncia às imagens nem as confunde com as explicações, pertence à cultura da sinceridade."
Continuam, portanto, vivos seus conceitos e sua lucidez na hora de diagnosticar nossas complicações. E sua terapia? Francisco Granados, que é analista há mais de 30 anos e dirige a revista da Associação Psicanalítica de Madri, responde no intervalo entre duas sessões. "O que podemos oferecer a quem nos consulta é a maneira de encontrar suas pulsões, seus medos, sua sexualidade, seus problemas na relação com os outros... mas a cura é algo que fica no ar: está em suas mãos seguir ou não o caminho proposto." Voltando a Freud, Granados insiste em um detalhe que nem sempre é valorizado em sua obra: que não há psicanálise se não for social. "Sem o outro não somos nada", afirma.
O escritor Andrés Barba, que ganhou com Javier Montes o Prêmio Anagrama de Ensaio com o livro "La ceremonia del porno", observa que, por mais permissiva que possa ser a sociedade atual na hora de difundir imagens sexuais, "a pornografia não resolve nada de nossa relação com os outros". "É um canal que nos permite o acesso a uma informação ilimitada sobre as práticas menos ortodoxas", diz, "mas não vai além."
Freud nos permitiu "ser conscientes de que existe uma série de processos que ocorrem de maneira soterrada, inconsciente, mas tanta consciência não consertou grande coisa". Abriu, isso sim, imensos caminhos para a literatura ao "transformar a nós mesmos em objeto de observação". Esse interesse continua aí. Será por isso que, como afirma Antonio Valdecantos, Freud continua sendo lido. E certamente será ainda mais, agora que em quase todo lugar sua obra ficou livre de direitos autorais.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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De Alberto Camus
Às vezes imagino o que dirão de nós os futuros historiadores. Uma só frase lhes bastará para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais.
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Na verdade, eles diriam: trepavam e editavam blogs.
JL
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De Michel Foucauld
Um livro é produzido, evento minúsculo, pequeno objeto manejável. A partir daí, é aprisionado num jogo contínuo de repetições; seus duplos, a sua volta e bem longe dele, formigam; cada leitura atribui-lhe, por um momento, um corpo impalpável e único; fragmentos de si próprio circulam como sendo sua totalidade, passando por contê-lo quase todo e nos quais acontece-lhe, finalmente, encontrar abrigo; os comentários desdobram-no, outros discursos no qual enfim ele mesmo deve aparecer, confessar o que se recusou a dizer, libertar-se daquilo que, ruidosamente, fingia ser.
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Amargo estilo novo
Antonio Gedeão
Tudo é fácil quando se está brincando com a flor entre os dedos
quando se olham nos olhos as crianças,
quando se visita no leito o amor convalescente.
É bom ser flor, criança, ou ser doente.
Tudo são terras donde brotam esperanças,
pétalas, tranças,
a porta do hospital aberta à nossa frente.
Desde que nasci que todos me enganam,
em casa, na rua, na escola, no emprego, na igreja, no quartel
com fogos de artifício e fatias de pão besuntadas com mel
E o mais grave é que não me enganam com erros nem com falsidades
mas com profundas, autênticas verdades.
E é tudo tão simples quando se rola a flor entre entre os dedos
Os estadistas não sabem,
mas nós, os das flores, para quem os caminhos do sonho não guardam segredos,
sabemos isso e todas as coisas mais que nos livros não cabem
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Em 'Caim', Saramago questiona as ações de Deus
Leandro Konder
Como estão hoje as crenças dos crentes? E as descrenças dos descrentes?
Ideias nem sempre claras são defendidas por representantes das duas perspectivas, que constituem campos complexos, matizados. Em ambos os casos, as exigências de um aprofundamento do conhecimento abrangem polos que vão da fé inabalável ao mais arraigado ceticismo.
Impõe-se a pergunta: como se tocam os extremos? Em outros termos: em que pé as convicções apaixonadas de uns e outros conseguem dialogar? Essa é uma questão importante. Quando os interlocutores se defrontam com diferenças mais explosivas, aumentam as possibilidades de ossificação do pensamento. E cresce o risco do fanatismo.
Historicamente, a disputa não tem sido uma parada festiva: ações censuráveis foram cometidas por ambos os lados. Os crentes são a ampla maioria. Não gostam de perder tempo em debates inúteis. Vão direto ao ponto crucial, segundo a sua doutrina. “Você não acredita em Deus?”.
O ateu, em sua resposta, decepciona a maioria. No passado, no tempo da inquisição, a decepção virava feroz intolerância. Numa outra época, na União Soviética, os bolchevistas tentaram erradicar – em vão – o sentimento religioso da alma do povo. Eram ateus tentando impor o ateísmo por decreto.
Os dois lados fazem criticas ferinas um ao outro. E fazem autocríticas, reconhecendo seus limites. Atualmente, as condições, ao que parece, estão ficando mais civilizadas. E o primeiro nome que me ocorre para ilustrar essa sofisticação cultural é o do escritor português José Saramago.
Saramago recebeu o Prêmio Nobel em 1998, publicou Memorial do convento, O ano da morte de Ricardo Reis, O evangelho segundo Jesus Cristo e mais recentemente lançou Caim, que está causando polêmica.
Usando sua liberdade de criação, Saramago faz de Cristo o narrador dos acontecimentos de sua vida. Tínhamos quatro Evangelhos e agora, graças à ficção, temos cinco.
Mas a audácia do escritor não para aí: em Caim, o protagonista é narrador, com base em alguns episódios do Velho Testamento. Denuncia o senhor (assim mesmo, com minúscula), acusando-o de cumplicidade no assassinato de Abel, porque, sendo onisciente, sabia do que estava para acontecer e; sendo onipotente, poderia tê-lo impedido de acontecer.
Quando o senhor ordena que seu servo Abraão sacrifique seu dileto filho Isac, Caim se irrita com a crueldade do senhor e termina por insultá-lo, com palavras de baixo calão.
Saramago dá um show de erudição. Seus conhecimentos não o impedem de, em alguns momentos, exagerar um pouco. Talvez essa tenha lhe parecido ser a maneira de sacudir com suficiente vigor as almas de seus leitores.
Saramago é um ateu que pode proporcionar momentos privilegiados, os quais interessam às duas perspectivas. Suas possíveis consequências vão desde um reajuste das criticas que se fazem mutuamente, no campo do pensamento religioso, até uma reflexão mais densa e mais cuidadosa na qual os descrentes saibam evitar gestos e atitudes que sejam lidos como desrespeitosos.
Se não perdermos anos decisivos de nossas vidas, podemos prever que ocorrerão novos movimentos que mexerão conosco, serão capazes de nos convencer a adotarmos novos critérios.
Não resisto a apontar um palpite meu. Acho que a teologia tem sobre outros saberes uma vantagem considerável. A ideologia dominante, na época atual, assume a forma do relativismo, que exerce forte influência em várias regiões científicas. Muitos cientistas cultivam uma acentuada desconfiança na filosofia. E, recusando a dialética, cada um deles trata de relativizar os conhecimentos da sua área.
A teologia não se deixou levar por esse movimento. Seu nome indica que ela se ocupa de Deus. E é obvio que Deus – quer acreditemos n'Ele, quer sejamos céticos – não pode ser relativizado. A teologia, como mostra o nosso autor, é apaixonante, porque as questões que ela enfrenta são questões grandes, que não se deixam reduzir a um jogo mesquinho.
O marxista José Saramago sabe disso. Quando faz suas incursões na esfera da teologia, o ateu debocha, torna-se sarcástico. Mas deixa transparecer o quanto a estudou, o quanto assimilou dela.
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'Os Moedeiros falsos', de André Gide, ganha nova edição
José Antônio Cavalcanti
O relançamento de Os moedeiros falsos, de André Gide (1869-1951) vem preencher um vazio de quase duas décadas de ausência dos livros do ganhador do Prêmio Nobel de 1947 entre nós. Juntamente com o texto assumido pelo próprio autor como seu único romance, a editora Estação Liberdade lançou o Diário dos Moedeiros falsos, até então inédito no Brasil.
Parece haver uma renovação do interesse pela obra do autor de A sinfonia pastoral. A mesma editora publicou uma nova tradução de Os subterrâneos do Vaticano, além de promover a primeira edição do conto Pombo-torcaz, escrito em 1907, porém só publicado em 2002. Na França, no ano passado, a coleção Pléiade colocou novamente em circulação toda a prosa ficcional de André Gide, reunida em dois grossos volumes, quase no mesmo momento em que a revista Magazine Litteraire lançava sobre o autor o rótulo de “O mais moderno dos clássicos” estampado na capa da edição de março.
O desejo, o homoerotismo sutil, a mise en abyme, o diário íntimo, o combate aos dogmas, a luta contra a falsificação, o confessionalismo, o caráter aberto da narrativa, o romance de formação, entre outros temas e recursos ficcionais dessa narrativa dividida em três partes, constroem um universo de apuradíssima técnica ficcional.
A trama complexa gira em torno do movimento das três personagens fundamentais: Bernard Profitendieu, Olivier Molinier e Édouard. Os primeiros, dois jovens intelectuais, e o último, um romancista que mantém um diário de anotações para a criação de um romance também denominado Os moedeiros falsos. O diário não duplica apenas o título, mas reproduz ainda personagens e situações da narrativa-matriz. Cruzam-se, assim, personagem, narrador e autor. “Se quiserem, esse caderno contém a crítica de meu romance; ou melhor: do romance em geral. Imaginem o interesse que teria para nós semelhante caderno mantido por Dickens, ou Balzac; se tivéssemos o diário de A educação sentimental ou dos Irmãos Karamázov. A história da obra, de sua gestação!”.
Bernard foge de casa ao descobrir que não era filho legítimo de seu pai. Após um longo périplo, acaba reconciliado com a família. Seu percurso alia o tema bíblico da volta do filho pródigo ao bildungsroman. Graças à mediação de Édouard pôde completar sua formação, tornar-se maduro e ser capaz de fazer escolhas. O tímido e inseguro Olivier vive fascinado por Édouard, seu tio, a quem não consegue revelar seus sentimentos. Move-se tensionado entre a influência do conde de Passavant, protótipo do mau romancista, e a do tio: “Junto de Édouard, o que tinha de melhor em si se exaltava. Junto de Passavant, era o pior”. É a sua tentativa de suicídio que o aproxima finalmente de Édouard. Este auxilia Olivier e Bernard a ingressar no assustador mundo adulto. O romance termina em aberto. Liberado do papel de protetor de seu ex-secretário, Édouard parece encontrar um novo aprendiz, o irmão de Bernard, como sugere a frase final do romance: “Estou bastante curioso para conhecer Caloub”.
Na visão homoerótica gideana, falta aos jovens fragilizados na luta pela existência a experiência de um homem mais velho, capaz de orientá-los, pelo menos até que consigam alcançar um ponto em que possam se defender e fazer escolhas. Concepção expressa com nitidez na parte final de Córidon, livro fundamental à compreensão do homoerotismo e marco na luta contra o preconceito homofóbico: “Se alguém mais velho se enamora dele [do adolescente], (...) julgo que nada se lhe pode apresentar de melhor, de preferível que um amante”. Trata-se da velha concepção pedagógica de pederastia tão cara aos gregos, embora hoje as reflexões de Gide possam provocar uma leitura permeada de incompreensões, se lidas com olhos censores, sensíveis às conotações de pedofilia e infensos à filiação helênica da afirmação homossexual de Gide.
A crítica gideana ao darwnismo social pode ser observada na brutalização sofrida pelos mais fracos, com os quais há manifesta solidariedade e identificação. Tanto em O imoralista quanto em Os moedeiros falsos, há o domínio dos mais fortes sobre os mais fracos, sempre mais numerosos e merecedores do olhar carinhoso do autor. É Marceline, a infeliz personagem de O imoralista, martirizada até a morte por Michel, quem melhor exprime essa denúncia ao dizer-lhe: “Tua moral suprime os fracos”. Esta moral, em Os moedeiros falsos, rege o comportamento de Victor Strouvilhou, do conde de Passavant e, de modo mais agudo, provoca o suicídio de Boris. Strouvilhou é um jovem transgressor, responsável pelo golpe das moedas falsas e que conta com alguns seguidores para a execução de seus planos; Passavant usa a sua força e o seu prestígio para corromper os jovens que dele se aproximam; Boris é a trágica vítima de um rito de iniciação de uma gangue juvenil.
Do ponto de vista da técnica romanesca, André Gide, ao promover o cruzamento e espelhamento de textos que remetem a outros textos no interior da mesma obra, ajudou a formular um processo de largo emprego na contemporaneidade: a mise en abyme. Não bastasse isso, a publicação do Diário dos Moedeiros Falsos, torna a questão mais complexa, já que duplica personagens e temas, inscreve outras possibilidades de leitura, intervém sobre o romance ao mostrar as suas entranhas.
Se Gide não é o autor da expressão, é o responsável pela criação do conceito, como pode ser comprovado pela leitura de seu Journal, onde faz uma analogia entre a sua proposição romanesca e o procedimento de heráldica “que consiste em localizar no brasão, um segundo [brasão], menor 'em abismo', no seu centro”. Segundo Lucien Dällenbach, em Le récit spéculaire, mise en abyme pode ser definida como “todo espelho interno que reflete o conjunto da narrativa por reduplicação simples, repetida ou complexa”. O mesmo autor atribui a autoria da expressão a Claude Edmonde Magny, em L'âge du roman américain, de 1950. A importância de seu emprego por Gide se dá pelo fato de traduzir a sua descrença sobre a possibilidade de existir uma verdade a ser aprisionada pela escrita. Qualquer que seja o texto, aos olhos do autor, será sempre em hiato, em descompasso, um campo de interrogações mediante o qual a realidade é deslocada e a verdade reduz-se a um ponto de vista, ao infinito movimento de busca e reflexão. Gide não caiu no logro do mimetismo. Cedo percebeu que a linguagem é conquista, trabalho intenso e constante, fato comprovado pelas inúmeras correções que fez ao texto.
O Diário dos Moedeiros falsos reúne dois cadernos de anotações sobre o processo de criação do romance, aos quais foram acrescentadas notícias de jornais (sobre o episódio das moedas falsas e a respeito do suicídio de um jovem secundarista), cartas e dois pequenos textos: “Páginas do diário de Lafcádio” (o protagonista de Os subterrâneos do Vaticano ainda estava muito vivo na imaginação do autor) e “Identificação do demônio”, uma reflexão sobre um dos motivos recorrentes em Gide: a influência diabólica sobre o homem (no romance a sua ação incide sobre Vincent Molinier).
Apresenta observações, algumas duplicadas no diário de Édouard, sobre a sua concepção do romance: “Purgar o romance de todos os elementos que não pertencem especificamente ao romance”. Veja-se esta reflexão machadiana: “E mais ainda aquilo que não é nem de amanhã nem de ontem, mas que em qualquer tempo se possa dizer: hoje”. Ou a melhor síntese da proposta gideana: “Tanto pior para o leitor preguiçoso: quero outros. Inquietar, essa é minha função. O público prefere sempre que o tranquilizem. Há alguns que têm isso como profissão. Há até demais”.
No romance, o episódio das moedas falsas serve para o autor, a partir da situação concreta dos jovens delinquentes, construir uma metáfora das relações humanas como forma de perversão da possibilidade de compreensão do outro e de si mesmo. A falsificação cunha desencontros na linguagem, na família, no amor e em todos os níveis da existência. Linhagem de busca e inquietação, a prosa gideana guarda sempre uma dimensão moral próxima da formulação de Pascal: “A verdadeira moral zomba da moral”. O autor, criticado pela direita e pela esquerda, engajou-se na sinceridade como marca de sua atividade intelectual, daí a mobilidade, o caráter proteico de seu percurso. Não se fixar em um ponto significa que nada pode ser encontrado na escrita a não ser o seu próprio movimento, do qual não advém nenhuma verdade, nenhuma certeza. Ideia implícita na conhecida frase do autor: “Crê nos que buscam a verdade; duvida dos que a encontraram”.
André Gide combateu os dogmas, o efeito corrosivo de tudo aquilo que torna as ações humanas gestos enrijecidos pelo peso de induções exteriores, preconceitos, tradições mortas, automatismo. A liberdade exige um esforço extraordinário, já percebido por Michel, protagonista de O imoralista: “Saber libertar-se não é nada; o difícil é saber ser livre”. Gide soube conquistar e preservar a sua liberdade, ainda que ao preço de incompreensões de toda natureza.
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Enviado por Marcos Silva
Jairo: Longe, sempre perto.
Prezado Jairo:
Como eu não moro em Natal, lamentarei sua mudança apenas pelos que ali residem. Sempre estou perto de vc no espaço virtual, todos os natalenses continuarão a desfrutar desse privilégio. Desejo grandes felicidades para vc em qualquer endereço.
Abraços.
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É verdade, Marcos, somos amigos virtuais. Com um breve momento de "desvirtualização" quando, em visita ao Mercado de Petrópolis com uns amigos, você nos concedeu alguns momentos de sua atenção em uma breve mas proveitosa visita ao Papo Furado. Que espero se repita em algum barzim do Recife ou aqui mesmo de Natal, se nossas agendas coincidirem. Na pauta uma pequena questão que quero discutir com vc: na tradução de poesia, lê-se o tradutor ou o traduzido? Bom, assunto a gente já tem. Só falta providenciar o encontro e a cachacinha.
JL
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O portão
José Carlos L. Poroca
Executivo do segmento shopping centers
Enviado pelo autor
Durante a infância e adolescência morei em casa. Os edifícios já existiam: eram prédios de poucos andares, quase sempre sem elevadores. Os maiores se destinavam a atividades comerciais e se concentravam no centro da cidade. Pelos motivos que todo mundo já sabe, começaram a surgir os prédios maiores - residenciais ou não - e foram se aproximando uns dos outros, como se quisessem um namoro, um caso, coisas assim. Dentro em breve, se não surgir um freio, o que chamam de espigão vai encostar nas nuvens, o que não é de todo ruim. Poderá ser um diferencial na hora da compra e venda: meio caminho andado para se chegar ao céu.
Diferentes dos irmãozinhos do norte que falam a língua inglesa, as casas daqui tinham muros e portões, de madeira ou de ferro. O muro era de alvenaria ou de madeira, mas o portão sempre esteve presente. Era algo emblemático, uma espécie de fronteira entre dois 'países'; a divisão entre a rua e o lar; o limite entre o bem e o mal. Evidente que, nessas divisões, os lados podiam estar invertidos: o bem podia estar na rua e o mal dentro de casa. E antes que alguém questione, informo que, no meu caso, o adotado foi o convencional.
Havia portões 'não-oficiais', nas laterais ou nos fundos, para as escapulidas. Os muros não eram elevados e alguns também possuam saídas alternativas. Foi dessa época que surgiram as expressões 'pular o muro' ou 'pular a cerca', que também eram rotas para os amigos do alheio, profissionais sem pós-graduação, que se contentavam com uma galinha ou com um aparelho de rádio, tudo na maior surdina. Também foi dessa época que surgiu o pé de lã, figura que marcava encontros na casa e, para justificar a passagem, levavam alguns objetos. Maurício, pessoa honesta, mas que costumava freqüentar a casa da vizinha, se viu 'forçado' a levar um aparelho de rádio, porque o dono da casa chegou na hora errada. O pior veio depois: o que fazer e onde guardar um trambolho sem tamanho, como eram aqueles aparelhos antes da tevê.
Os portões ainda existem, mas o simbolismo praticamente acabou. Não se pede mais licença, não se batem mais palmas e nem se diz "ó de casa!". As linhas divisórias que marcavam o terreno da casa e da rua estão apagadas ou houve uma inversão de lados, sem prévia comunicação. Não há saudosismo. O que vejo é que o que chamavam de privacidade foi para o beleleu, vem sendo descumprida com a entrada de tudo o que está na terra, no mar e no ar. Nem os atos privados - e nem precisa dizer quais - são mais privativos. O que acontece no meu 'portão' é compartilhado com o vizinho da esquerda ou da direita, com o de baixo ou de cima.
O individual se transformou em coletivo. Dentro em breve vão inventar portas transparentes para os banheiros, sob a justificativa de modernidade ou sob a pecha de ser politicamente correto. Não estranhem e nem se assustem com a 'nova' que virá logo, logo.
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Enviado por Marcos Silva
Prezado Jairo:
Agradeço muito pela reprodução do brilhante comentário de Fernando sobre minha observação. Lembro, entretanto, que alguns leitores do BPF poderão não ter lido o pequeno texto meu que deu origem àquela comovente reação de Fernando. Por esse motivo, peço-lhe o favor de reproduzir o mesmo, que saiu como post no Substantivo Plural:
Laurence:
O enorme sucesso de Salinger impressiona e nos obriga a pensar que ele foi mesmo ao encontro de profundos anseios de leitores. Eram anseios que estavam na pauta do dia (dos anos e das décadas pois o livro é muito lido até hoje): juventude, rebeldia, indagação sobre o futuro de sucesso que uma classe social e um país pareciam reservar automaticamente para quem se comportasse bem.
O livro dele é bom mas não priorizo o sucesso para avaliá-lo assim. E tem ecritor que demorou décadas ou mais para ser lido amplamente (exemplo óbvio: Rimbaud; no Brasi, gente ótima como Orides Fontela ainda é pouco lida!) porque, embora escrevessem muitíssimo bem – até muito mais que Salinger -, apresentavam uma literatura mais problematizadora do mundo, de difícil leitura por diferentes motivos: temas, linguagem etc.
Cada escritor é um escritor, não devemos recriminar ninguém pelo fato de vender muito – nem de vender pouco. Mas o fascínio pelas vendas pode nos colocar na fila dos compradores de Paulo, o que, evidentemente, não é seu caso.
Abraços.
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Meu caro Marcos Silva, vejo que o amigo não observou que o texto a que você se refere foi postado pelo próprio Monteiro (sugiro que o releia e observe o título: Enviado por Fernando Monteiro). Portanto, embora lisongeado, não posso aceitar os seus agradecimentos pela publicação da nota.
JL
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Enviado por Rodrigo Levino
Agora to feito cabrito desmamado, de berreiro no meio do mundo.
A sua resposta me quebrou as pernas.
O orgulho é todo meu. aprendi demais e devo um tanto a você que nunca vou conseguir pagar.
Grato por tudo, sempre. E até breve.
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Ei, me avisa quando for pro Recife que é pra gente tomar umas e conversar merda, tá? Abração.
JL
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Homenagem a Jairo Lima
Cleido Freire
Escutarei Wagner;
Assistirei Salomé, Madama Butterfly, Tannhäuser;
Beberei vinho, cachaça, uísque doze anos e outras coisas;
Comerei ginga com tapioca no mercado da redinha, carne de sol no farol bar e buchada de bode da Dona Maria que voce não saboreou, mas um dia irá conhecer;
E, acima de tudo, lerei Dostoievski.
Esses não são versos de saudades e melancolias, e sim, constatacões de uma amizade verdadeira.
P.S. Ah! já estou quase embriagado com coca-cola e gelo, pois ela pura é muito forte.
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Cleido é tão abstêmio quanto três mulçumanos e um testemunha de Jeová juntos. Só bebe coca-cola. Sentava no bar, pedia uma latinha, depois outra, depois outra, e lá pras tantas já soltava o verbo como o que mais desvairadamente bêbado estivesse à mesa. Amigão. Amigo daqueles de parachoque de caminhão. Público. Escancarado. Definitivo.
Devo-lhe, além da amizade com um cara inteligente e refinado, favores impagáveis. Amigos que levava ao bar. Ele próprio, de cadeira cativa, literalmente: na Kriterion, a penúltima cadeira do lado direito de quem entrava; no Papo Furado, que tinha mesa redonda, uma cadeira que ficava a nordeste, acho, nunca fui bom com a rosa-dos-ventos.
Dizer obrigado é pouco. Adeus é muito. Então fico com um até logo, amigão, ainda nos reuniremos muito pra conversar lezeira entre cocas e vinhos. Que Dioniso, o deus papudinho, abençõe a ti e te perdoe, oh amante da coca-cola.
JL
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Arte de Vicente do Rego Monteiro
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Enviado por Rodrigo Levino
Natal
ja disseram uma vez que natal cospe os bons. pode ser. taí sua partida pra testemunhar a favor da tese.
a cidade perde e a perda é irreparável.
haja prejuízo a ser contabilizado.
de cá fica o desejo de sorte no retorno e a saudade de sempre.
um beijo e um abraço
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A morte sugere as grandes confissões. As viagens reclamam as pequenas, as mesquinhas e, porisso mesmo, as mais vergonhosas. Confesso. Tenho orgulho de avô babão por este menino Levino. Como se ele fosse minha cria, bicho nascido e cevado nos meus cercados. E sempre usei impudicamente a sua amizade. Rodrigo Levino? Amigo do peito, sabe, aquele que escreve na Piauí, na Playboy, aquele que escreveu o mais belo livro de crônicas de que se tem notícia por estas partes. Pois é. Usei e abusei do Levino pra me promover, pra fazer inveja pro povo, pra me apropriar de um latifúndio afetivo que só existe na alma. Um dia esse cabra me chega com a notícia que vai pra São Paulo. Fiquei triste pra caralho. Aí, acendi o olho. São Paulo? Ele vai se mostrar muito mais por lá. E eu vou me amostrar muito mais aqui na província, como amigo dele. Rodrigo Levino? Sou assim com aquele menino!
Caba bom, ele. Eu, caba safado.
O mundo é assim.
JL
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Deu no site do Tácito Costa www.substantivoplural.com.br
Jairo Lima
Por Moacy Cirne
Como você, caro Tácito, também desejo boa sorte a Jairo Lima, grande figura humana e um papo excelente. (O seu conhecimento sobre literatura, cinema e música erudita é digno de louvor.) Ainda bem que o seu blogue vai continuar.
Um abraço em todos.
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Basta dizer uma coisa: só tem dois sites que leio diariamente, que nem breviário ou missal. O teu, Cirne, e o de Tácito.
JL
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Moisés e o monoteísmo
Laurence Bittencourt
Enviado pelo autor
Para Fernando Monteiro
Caro Monteiro estou relendo sei lá já por quantas vezes “Moisés e o monoteísmo” desse gigante do século XX e imbatível a meu ver séculos afora, chamado Sigmund Freud. A capacidade de manusear um denso material articulando-o com suas premissas psicológicas é qualquer coisa de espantoso neste ensaio memorável.
Lembrei de você, Monteiro, claro, porque Freud trata brilhantemente no referido ensaio, do Faraó egípcio da XVIII dinastia, Akhenaton ou Amenófis IV, que no dizer de Brestead foi “o primeiro individuo da história humana”. Freud, como Judeu, percebe e atribui a Akhenaton o real e verdadeiro instituidor do primeiro monoteísmo na face da terra e não aos judeus.
Partindo da premissa de que Moisés (Freud começa sua análise pelo nome Moisés que é de origem egípcia e não hebraica) era um egípcio, e de uma forma fenomenal tenta conduzir a idéia de que Moisés viveu como alto graduado na corte de Akhenaton e quando de sua morte – de Akhenaton (os egípcios não aceitaram a implantação de um deus único, no caso o Sol, e retornaram ao politeísmo após sua morte) deu prosseguimento à tentativa de impor o monoteísmo abortado, tomando os judeus como “o seu povo”. É fascinante. Essa escolha resultou segundo Freud na idéia de “um povo eleito”.
O ensaio, claro, é longo e genial. Haveria muito mais a falar. Freud irá perceber que o mérito de Akhenaton não foi apenas o de implatar com sua adoração ao Sol (no sentido simbólico e não material) uma nova religião e sim no que ele, Freud, chama de “o fator da exclusividade de um deus universal”. É incrível e basta lermos o hino que Akhenaton compôs em homenagem ao deus sol “Ó tu, único Deus ao lado de quem nenhum outro existe” e enxergar as semelhanças com o (de forma quase idêntica, portanto, copiado) mesmo hino que aparece nos Salmos dos hebreus, ou seja, no velho testamento, já retransformado e dirigido agora a Javé.
A grandeza e a genialidade de Freud são fascinante mas que hoje parece a cada dia mais e mais fora de moda. É uma pena. Sua coragem, ousadia e amor à verdade (nos dizeres precisos de Erick Fromm), continuam calando fundo para quem se dedica aos seus escritos. Ainda sobre o fato de Moisés ser um egípcio e não um judeu, Freud começa citando o fato de alguns estudiosos, incluindo Breasted, terem chegado muito próximo dessa verdade ao reconhecerem que de fato o nome Moises era egípcio.
A questão onde esbarraram foi no passo seguinte que recuaram talvez diante da empreitada grandiosa. Foi preciso um judeu ateu destemido para ousar o que nenhum teve a coragem.
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Enviado por Laélio Ferreira
Samba de crioulo doido?
Jairo - meu poeta que se vai.
Jerome David Salinger nasceu em 1919 e bateu as botas esta semana, com noventa e um janeiros (ou safras de caju).
John Griffith Chaney, conhecido como Jack London, veio ao mundo em São Francisco, na Califórnia, em 12 de janeiro de 1876, passando desta para a outra, por overdose de morfina, em 22 de novembro de 1916).
Logo, Salinger nasceu três anos depois da morte de Jack London.
No "Papo Furado", edição de hoje, leio Laurence Bittencourt ( "J. D. Salinger, influências e seguidores") afirmando que:
"Salinger, certamente deixou seguidores, sem dúvida, em autores como Jack London e o próprio Jack Kerouac ..."
"E agora, José?"
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Enviado por Fernando Monteiro
No Substantivo Plural
“Cada escritor…”
Por Fernando Monteiro
“Cada escritor é um escritor”.
Fiquei deslumbrado com essa descoberta do Marcos Silva, neste sábado, dia 30 de janeiro de 2010.
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Deu no site do Tácito Costa www.substantivoplural.com.br
Franco Maria Jasiello e Jairo Lima
Por fernando monteiro
Os que me conhecem, sabem que considero Natal uma “pátria adotiva” (a pátria é a língua – mas também o lugar dos afetos, das boas lembranças e das chegadas & partidas etc).
Em Natal, o primeiro dos meus amigos – cronologicamente falando – foi o italiano mais natalense do mundo, o poeta Franco Maria Jasiello.
Franco foi um grande poeta, de dicção ungarettiana, e, através dele, eu conheci a Natal boa e a Natal ruim.
A boa, a de Cascudo, atravessa corações & mentes dos muitos amigos que AÍ também tive (e ainda tenho!), e a “ruim” foi aquela Natal que, entre outras faltas cometidas contra outros, não soube apreciar devidamente – permitam-me que fale com franqueza – o alto intelecto do poeta Jasiello, seu senso de fidelidade e sua integridade moral à toda prova.
Não entrarei em mais detalhes (até porque os que foram desleais a Franco – ou que não foram retos e francos com ele – sabem BEM o que lhe fizeram)…
Essa Natal-R – de “ruim” – certamente superada, em número e grau, pela Natal-B – de “boa” – agora também está vendo outro poeta “pelas costas”, afastando-se no rumo de Pernambuco.
Refiro-me, é claro, a Jairo Lima (foto), que aí, na cidade de Cascudo, tentou de tudo para dar contribuição cultural a mais desinteressada possível, como livreiro-sebista, animador cultural, dono de “pub” de cachaças finas e outras veredas trilhadas, por Jairo, para se entender com as Natais todas.
Não foi possível. A Natal que não é boa às vezes é mais forte do que a verdadeira cidade das antigas margens douradas do Potengi.
Que há de se fazer? Lamentar-se tal fato, eu diria, sempre que se puder.
E lamentar também a falta que Jairo Lima fará, na cidade superlativa deste “Substantivo”, por estar indo embora (de volta para o Recife), poeta, teatrólogo e amante da Grande Música, ainda vivo-e-bolindo, graças a Deus, enquanto o poeta Franco Maria Jasiello se foi, de vez, para a Itália celeste onde se encontram Dante e Leopardi, Foscolo e Ungaretti, Montale, Salvatore Quasimodo e outros que talvez lhe fizeram esquecer tudo que a Natal-”R” lhe fez.
Essa, caro Jairo, vosmicê também esqueça, e se lembre, somente, da Natal boa e luminosa, de dunas suaves como o corpo de uma bela mulher, ou seja, a Natal que ninguém cala e se “sorta”, mesmo apesar da atual “Alcaidessa” Micarla fazendo o que pode pela outra Natal que tenta calar os talentos e, como me disse, recentemente, um natalense da gema, “PREFERE GASTAR CEM PARA O OUTRO NÃO GANHAR DEZ”…
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Obrigado, caro amigo, por suas palavras. Desta cidade só levo excelentes recordações, sendo que, entre elas, destaco a sua presença na Kriterion/Papo Furado.
JL
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Enviado por Chico Guedes
Tuitadas de chicomgue no fim duma noite memorável:
Ai, com'é linda a vida em torno duma mesa d'amigos: pão, azeite e vinho + a alquimia lusa do Sta Maria + Amália tragediando ao fundo.
Velho Jairo, fizemos o ritual de partida como os deuses tinham estabelecido do alto da sua inescrutabilidade. Seja bem feliz.
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Vê só, moçada, o que é o twitter nas mãos de um escritor. E, com o rabo do olho, espiem o que é a amizade nas mãos de um cultivador. Chico Guedes, por alcunha incontestada deste blog, O Grande, é homem de gestos e de palavras que fazem da experiência de estar vivo, numa noite em Natal, uma epifania de vinhos, saudades, fados, lembranças, risadas, encantamento e esplendor.
JL
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Arte de Antonio Poteiro
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Enviado por Geraldo Barboza de Oliveira Jr
Tese de que a humanidade pode ser dividida em raças foi relegada ao ridículo.
O ser humano tem 25.000 genes, dos quais não mais de 30 definem a cor da pele e dos olhos, o formato do rosto, o tamanho do nariz e a textura do cabelo, entre outras características morfológicas. (Sérgio Pena, geneticista da UFMG). Conclui Diogo Schelp, em reportagem na
Veja
: Ou seja, na imensidão do genoma humano, os aspectos físicos geralmente usados para classificar as raças não representam nada. Do ponto de vista genético, pode haver mais diferenças entre dois africanos do que entre um deles e um europeu nórdico.
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J. D. Salinger, influências e seguidores.
Laurence Bittencourt
Enviado pelo autor
Com a morte do escritor americano J. D. Salinger, aos 91 anos de idade, se encerra uma das mais fascinantes e interessantes histórias de escritor americano contemporâneo. Autor do clássico traduzido no Brasil como “O apanhador no campo de centeio” ou, no original “The Catcher in the Rye”, Salinger morreu recluso da mesma forma como viveu.
Agora, após a sua morte, inevitavelmente sua vida pessoal e literária irá ser motivo de inúmeras análises biográficas que ainda esperam para serem escritas. Digo isto, porque pouco se sabe dos reais motivos que levaram esse gigante das letras americanas a partir da publicação de “O apanhador...” em 1951, a se retirar da vida social, preferindo o isolamento, recusando-se inclusive a conceder qualquer entrevista desde 1980.
Além do best seller que escreveu e que o fez entrar no mundo da alta literatura americana e mundial, Salinger escreveu outros romances como “Pra cima com a viga Moçada!”, “Franny & Zooey” e um livro de contos “Nove histórias”. Mas foi realmente com a estória do adolescente rebelde e angustiado Holden Caufield em “O apanhador no campo de centeio” que Salinger se imortalizou.
O livro
O grande segredo de Salinger em “O apanhador no campo de centeio”, foi ter usado de forma inovadora, o palavreado da juventude americana que começava a se fazer ouvir no inicio da década de 1950 através do personagem adolescente Holden Caufield. Nessa mesma década o rock and roll começava a explodir no ocidente, em especial nos EUA, com toda a sua rebeldia e que terminou resultando no movimento hippie e em Woodstock.
Fazendo uso de gírias e expressões típicas da juventude americana da década de 50, “O apanhador” é sem duvida um grande livro contracultural. Incrível que hoje percebo que não há nada no famoso personagem de “O apanhador...”, que já não tivesse sido dito de uma forma muito mais elaborada e psicologicamente complexa por um escritor como Dostoievski, por exemplo quase um século antes.
Obviamente que não estou com isso retirando o mérito de Salinger, bem entendido, nem de “O apanhador...”, até porque eu gosto bastante do livro. No entanto, a inadequação de Holden Caufield ante a civilização (inadequação registrada por todo grande artista, diga-se, “A montanha mágica” de Thomas Mann é um exemplo claro) também se faz presente em personagens como Raskolnikov de “Crime e Castigo” de Dostoievski, ou se quiserem, em outro livro fundador da moderna prosa americana “As aventuras de Huckleberry Finn” de Mark Twain, livro que o escritor Ernest Hemingway tinha verdadeira adoração. Sem falar claro em “As aventuras de Tom Sawyer” também de Mark Twain.
Dois dos meus livros favoritos nessa mesma pegada de personagens que se debatem contra a civilização, vivenciando o conflito contra o mundo convencional, puritano, cheio de regras e que hoje estão infelizmente esquecidos, é “O lobo da estepe” e “Demian” do escritor alemão Hermann Hesse, premio Nobel de 1946. É famosa a frase de Demian no livro homônimo “quem quiser nascer tem que destruir um mundo”.
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Em relação à Salinger, no entanto, no sentido de elaboração lingüística e de enredo, considero “Pra Frente com a Viga Moçada!” bastante superior ao “Apanhador”, embora nem de longe tenha influenciado e alcançado o sucesso mundial que a estória de Holden Caufield conseguiu.
Salinger, certamente deixou seguidores, sem dúvida, em autores como Jack London e o próprio Jack Kerouac autor do celebre “On the road”, traduzido no Brasil como “Pé na estrada”. Recentemente, por indicação de um professor amigo, me dei ao trabalho de me aventurar na leitura de “Meus dias de escritor” de Tobias Wolff (que estou inclusive para passar a frente em qualquer sebo da cidade) uma espécie de seguidor de Salinger, mas infinitamente distante do talento, brilho e do charme de salinger.
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Absurdo verde.
Geraldo Barboza de Oliveira.
Na residência universitária,em Petrópolis, a UFRN está destuindo o pouco verde que ali existe. As frondosas castanholas, que abrigavam famílias de sagüis e davam sombra aos residentes e passantes estão sendo estupidamente destruídas com uma motossera, só para consagrar a burrice da elite e a apatia covarde dos residentes e demais moradores da área.
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Fiéis escudeiros.
Coronel Maciel
Enviado pelo autor
Não sei se o Hugo Chavez é também chegado a uma branquinha; à seguidas doses de 51! -- Mas, quem não é?... Mas, porém, contudo, todavia todos têm os seus limites. Eu já bebi muito; muito mesmo! E sempre ao lado do meu violão... Mas há sete anos que parei; e parei mesmo! Guardo até hoje o receituário do médico de dia do CATRE, hoje novamente BANT. Foi no dia 2 de abril de 2003. Até escrevi assim no próprio receituário:- - Para recordar sempre que tiver vontade de beber... Parei; parei mesmo! Estava com os mesmos sintomas apresentados pelo Lula. Pressão alta; altíssima. Dores na nuca; fortes câimbras; igualzinho ao Lula. Tive que parar. Parei, mas não virei “crente”, aconselhando todo mundo a também parar. Cada um tem a sorte que Deus lhe deu. Cada um sabe os seus limites. Não se pode negar que Lula está sempre acompanhado de “fiéis escudeiros”. O Franklin (lembram dele?... é o mesmo daquele seqüestro...) é o principal dos seus “bombeiros”, sempre pronto a apagar os incêndios provocados nas veias, nos sangues, nos nervos do presidente por excesso da “branquinha”. O Franklin tem completo domínio das rádios e televisões do Brasil, para não dizer do mundo todo... Diz ele que a principal causa da doença do Lula foi excesso de trabalho... Agenda cheia... Só não diz que são viagens para ocupar palanques políticos, pelo Brasil e pelo mundo, promovendo a sua preferida “mãe do PAC”; uma vergonha! E bem nas barbas dos ministros dos tribunais eleitorais. O Lula está mais precisado de um confessor, que de médicos... Cuidado, Lula! O Brasil está acordando...
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Ética nicomaquéia
Marcos Silva
Enviado pelo autor
Caros amigos:
Sou plenamente favorável a criticarmos os políticos, ainda mais os que estão no governo – faz parte do exercício do poder ser criticado. Entendo que a crítica deve se pautar por valores políticos. Comentar a vida sexual de políticos e de seus apoiadores é se situar abaixo de qualquer crítica.
Combater os erros do governo Lula se situa a quilômetros de distância de falar sobre a vida sexual dele e de seus apoiadores. O desargumento é tão mesquinho que seu autor nem merece ser citado. Vamos preservar a dignidade da argumentação política. Até quando ela for usada contra pessoas que nós consideremos indignas da política.
Abraços.
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Enviado por Laélio Ferreira
De Jairo Lima para Laélio
“Meu poeta
Tô Voltando pra casa. Mas, de vez em quando vou estar aqui em Natal enchendo o saco de vcs.
abraços
Jairo Lima”
M O T E :
Jairo Lima vai-se embora
do Rio Grande Sem Sorte
G L O S A :
Minha terra é caipora
- é toca de carnatais!
Porisso, com seus bornais,
Jairo Lima vai-se embora...
- Valei-me Nossa Senhora,
sou mesmo um cabra sem porte!
- Quem dará, depois, suporte
aos meus versos, minhas glosas,
fodendo as almas sebosas
do Rio Grande sem Sorte?
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Arte de Danilo di Prete
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De Millor Fernandes
A maior parte dos escritores não merece as árvores cortadas por causa deles.
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Duas pátrias
José Martí
Tradução Olga Savary
Duas pátrias eu tenho: Cuba e a noite.
Ou as duas são uma? Nem bem retira
sua majestade o sol, com grandes véus
e um cravo à mão, silenciosa
Cuba qual viúva triste me aparece.
Eu sei qual é esse cravo sangrento
que na mão lhe estremece! Está vazio
meu peito, destruído está e vazio
onde estava o coração. Já é hora
de começar a morrer. A noite é boa
para dizer adeus. A luz estorva
e a palavra humana. O universo
fala melhor que o homem.
Qual bandeira
que convida a batalhar, a chama rubra
das velas flameja. As janelas
abro, já encolhido em mim. Muda, rompendo
as folhas do cravo, como uma nuvem
que obscurece o céu, Cuba, viúva, passa. . .
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Palavras do sol
Claudia Lage
E o que foi a vida? Uma aventura obscena de tão lúcida.
Hilda Hilst
"Eu fiz tudo o que pude fazer", disse Hilda Hilst em entrevista à Folha de S. Paulo, em 1999. A escritora estava com 69 anos. Autora de 40 livros, não hesitou em afirmar à jornalista, "Não escrevo mais". A decisão não vinha do desinteresse pela escrita, nem por algum ressentimento de ter tido uma carreira literária brilhantemente criativa e, na mesma proporção, solitária e obscura, mas de uma contestação: "Já disse o que tinha a dizer, e a da melhor forma que pude".
Foi justamente a forma, ou a linguagem, a grande companheira de Hilda em sua vida literária. Ao se mudar para a Casa do Sol, aos trinta e cinco anos, com o então marido Dante Casarini, Hilda deixou uma vida social intensa para se dedicar exclusivamente à literatura. Opção que manteve até o fim de sua vida, aos 73 anos. Opção que a tornou uma escritora de inspiração inquieta e transgressora, ou foi antes a sua inquietude e a transgressão que a fizeram optar radicalmente pela literatura. Amante da física e da filosofia, reconhecia em escritores como Joyce e Kafka a dimensão einsteiniana do espaço e do tempo. "Por isso, não acredito mais no texto linear", ela disse uma vez, "em romances com começo, meio e fim". Realmente, quem for corajoso o bastante para ler Hilda Hilst, irá se deparar com um narrador essencialmente lírico, cuja voz anuncia pensamentos, reflexões, sentimentos e atos, mas que nunca exercerá, como faz o narrador mais prosaico, o papel de organizador dessas anunciações. "Nunca é assim na própria vida", ela considerava, destruindo conscientemente toda e qualquer hierarquia em sua escrita. "Minha linguagem é inovadora sim, e essencialmente poética. Não obedece a convenções gramaticais, tem outro ritmo porque não pensamos nem sentimos de forma simplezinha, organizada ou linear", afirmou, em uma de suas últimas entrevistas.
"Cheguei aqui nuns outubros de um ano que não sei, não estava velha e não estou", fala a narradora de Matamouros, novela pertencente ao livro Tu não de moves de ti, um dos mais densos e belos da prosa de Hilst, "talvez jamais ficarei porque faz-se há muito tempo nos adentros importante saber e sentimento". E depois dessas primeiras frases, a narrativa mergulha num ritmo insinuante e ardoroso, sem praticamente mais interrupções de pontos finais e parágrafos a ordenar os assuntos, a separar o que se diz do que se sente, a elucidar o que é memória ou acontecimento. "Amei de maneira escura porque pertenço à Terra, Matamouros me sei desde menina, nome de luta que com prazer carrego e cuja origem longínqua desconheço, Matamouros talvez porque mato-me a mim mesma desde pequenina". E assim, nós, capturados pelo serpentear mágico da palavra de Hilda, conhecemos essa menina que se relaciona com todos e tudo com uma sensualidade e sexualidade exacerbadas: "desde sempre tudo toquei, só assim é que conheço o que vejo, tocava os morangos antes do vermelho, tocava-os depois gordo-escorridos, tocava-os com a língua também, mexia tudo muito, tanto, que a mãe chamou um homem para que fizesse rezas sobre mim".
A busca dessa escrita não linear, a ausência de um narrador que organiza os eventos, que dá seqüência ao enredo, situa o leitor em um espaço e tempo, apresenta personagens e conflitos, expõe sentimentos justificados e reflexões contextualizadas, desenvolve acontecimentos até o seu clímax e inevitável desfecho, exige tanto do leitor quanto a literatura exige da escritora, Hilda sabia. "Sei que não escrevo do jeito que a grande maioria dos leitores está acostumado a ler", profere, com a consciência de que a ânsia criativa e a proposta criadora que sua arte demandava poderiam ter um preço. "A minha forma é inovadora, mas não incompreensível." Hilda não se surpreendia de provocar estranhamento no leitor, o que a espantava era o rótulo da incompreensão.
Aclamada pela crítica em grande parte de sua carreira, premiada muitas vezes, e até se não o fosse, Hilda tinha consciência do seu trabalho de escritora. Mais tarde, a própria crítica e o meio literário silenciaram a respeito de sua obra. Quando não havia o silêncio, havia a classificação errônea de que era pornográfica, ou de complexa, dois adjetivos que a própria Hilda não resistia a dar uma resposta irônica: em toda a sua vida, ela nunca tinha visto duas qualidades como aquelas andarem juntas. No entanto, não era a ausência da crítica, mas a dos leitores que mais a incomodava. Numa tarde, na Casa do Sol, uma amiga foi visitá-la, e a encontrou chorando em seu escritório. Preocupada, perguntou se havia acontecido alguma coisa de grave. Hilda foi direta em sua resposta: "Eu não sou lida!", disse. E ali estava o maior lamento sobre a sua obra. Não ser lida. Era isso que havia acontecido de grave.
Quando sua obra completa foi enfim relançada pela editora Globo, em 2002, e começou a crescer o interesse em torno de seu nome, a reação de Hilda foi plácida. "Fico feliz, mas agora isso não tem mais tanta importância." A escritora, com 72 anos, tinha a convicção de que a sua missão literária estava cumprida. "Não escrevo mais", ela havia dito à jornalista, e completou: "Está tudo lá". Lá: em seus romances, contos, poemas, peças, uma obra vasta e surpreendente, que atrai cada vez mais leitores, fascinados pelo seu texto pulsante e desconcertante, pelo intenso fluxo de imagens e sensações que a sua leitura desperta. "O escritor e seus múltiplos vêm nos dizer", ela escreveu, em um dos seus últimos textos, "Tentou na palavra o extremo-tudo". Palavras que eram praticamente um epíteto de sua obra, "Esboçou-se santo, prostituto e corifeu", de sua relação apaixonada com a escrita, "Transgressor metalescente de percursos", de sua entrega absoluta à sua voz criativa, "Colou-se à compaixão, abismos e à sua própria sombra", consciente de todos os riscos, sim, "Poupem-no o desperdício de explicar o ato de brincar", mas, principalmente, de toda a liberdade artística de seguir o próprio caminho: "Sinto-me livre para fracassar".
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Um, nenhum e cem mil
Luigi Pirandello
Eu queria estar só de um modo inusitado, totalmente novo. O oposto do que vocês pensam: isto é, sem mim e, portanto, com um estranho por perto.
Isso já lhes parece um primeiro sinal de loucura?
Talvez porque não tenham refletido bem.
Pode ser que a loucura já estivesse em mim, não nego, mas peço que acreditem que o único modo de estar realmente só é este que lhes digo.
A solidão nunca está com você, ela está sempre sem você e, portanto, ela só é possível na presença de algo estranho, lugar ou pessoa que seja, que o ignore completamente, e que você desconheça totalmente, de tal modo que a sua vontade e o seu sentimento fiquem suspensos e perdidos numa incerteza angustiosa e, cessando toda afirmação de sua pessoa, cesse também a própria intimidade de sua consciência. A verdadeira solidão está em um lugar que vive por si e que para você não tem nem voz nem feição, onde o estranho é você.
Assim eu queria estar só. Sem mim. Quero dizer, sem aquele “mim” que eu já conhecia ou pensava conhecer. Sozinho com um certo estranho que eu já sentia obscuramente não poder afastar para longe, que era eu mesmo: o estranho inseparável de mim.
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Deu no blog de Leonardo Sodré.
Laélio Ferreira
Enviado pelo autor
(http://www.leonardosodre.blogspot.com/)
"A última novidade do verão é a idéia de alguns donos de embarcações, que trafegam nos mares de Pirangi, de realizar uma prévia de carnaval nos parrachos que ficam a cerca de 800 metros da praia, berçário de várias espécies já ameaçadas pelo constante vai e vem de lanchas, diariamente.
O apelido da festa será “Carnaparrachos”.
Mas, como vivemos um período de extenso estresse ambiental, muita gente já está criticando a idéia.
A farofada momesca dos ricos e novos ricos, se ocorrer, deverá ser hilária. Imagine centenas de pessoas – ou quem sabe milhares -, se equilibrando nas lanchas ou nas pedras afiadas dos parrachos, dançando e fazendo suas necessidades dentro do mar, porque onde danado colocariam banheiros químicos?”
M O T E :
A rafameia se arrancha
faz carnaval nos parrachos
G L O S A :
I)
Nouveau riche vai de lancha,
piranha vai, convidada...
Muito brilho. Enfumaçada,
a rafameia se arrancha!
No cenário de cangancha,
proliferam os rapa-tachos,
as bibas arrumam machos,
farto corre o doze-anos
e a súcia de carcamanos
faz carnaval nos parrachos...!
II)
Político vai, e se escancha
no ouvido dos marqueteiros:
nos sussuros inzoneiros
a rafameia se arrancha...
- “Fulano, será, deslancha?”
- um pergunta, entre os borrachos.
- “Depende dos cambalachos!”
- responde um assessor de imprensa...
A cambada não dispensa:
Faz carnaval nos parrachos!
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Casa dos Politicos!
Enviado por Civone Medeiros
A cantora e ativista Rita Lee teve uma daquelas idéias brilhantes,
dignas do seu gênio criativo.
Reclamando da inutilidade de programas como o Big Brother, ela deu a seguinte sugestão:
- Colocar todos os pré-candidatos à presidência da República trancados em uma casa,
debatendo e discutindo seus respectivos programas de governo.
Sem marqueteiros, sem assessores, sem máscaras e sem discursos ensaiados.
Toda semana o público vota e elimina um.
No final do programa, o vencedor ganharia o cargo público máximo do país.
Além de acabar com o enfadonho e repetitivo horário político,
a população conheceria o verdadeiro caráter dos candidatos.
Assim, quem financiaria essa casa seria o repasse de parte do valor dos telefonemas
que a casa receberia e ninguém mais precisará corromper empreiteiras
ou empresas de lixo sob a alegação de cobrir o 'fundo de campanha'.
A idéia não é incrivelmente boa?
Se você também gostou, mande essa mensagem para os amigos
e faça coro pela campanha:
Casa dos Políticos, já!!!
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Entrevista de Yves Gandra Martins no Jornal Nacional
Enviado por Ronald Guimarães
Há algumas semanas atrás comentando o estapafúrdio decreto dos "Direitos Humanos (?)" citei uma entrevista do jurista Yves Gandra Martins ao Jornal da Globo.
Vale a pena assistir, pois encontra-se no youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=VQldMpBECvo
Ou entre no Youtube e pesquise "Yves Gandra Martins"
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Carta de Gilberto Geraldo Garbi para Lula
Enviado por Fernando Monteiro
Gilberto Geraldo Garbi (foto) foi um dos alunos classificados, a seu tempo, como UM DOS MELHORES ALUNOS DE MATEMÁTICA que já haviam adentrado o ITA; entre outras honrarias que recebeu daquela excelsa instituição.
Depois de graduado, desenvolveu carreira na TELEPAR, onde chegou a Diretor Técnico e Diretor Presidente, ocupando posteriormente a Presidência da TELEBRAS.
A CAMINHO DOS 99,9999995%
Gilberto Geraldo Garbi
Há poucos dias, a imprensa anunciou amplamente que, segundo as últimas pesquisas de opinião, Lula bateu de novo seus recordes anteriores de popularidade e chegou a 84% de avaliação positiva. É, realmente, algo "nunca antes visto nesse país" e eu fiquei me perguntando o que poderemos esperar das próximas consultas populares.
Lembro-me de que quando Lula chegou aos 70% achei que ele jamais bateria Hitler, a quem, em seu auge, a cultíssima Alemanha chegara a conceder 82% de aprovação.
Mas eu estava enganado: nosso operário-presidente já deixou para trás o psicopata de bigodinho e hoje só deve estar perdendo para Fidel Castro e para aquele tiranete caricato da Coreia do Norte, cujo nome jamais me interessei em guardar. Mas Lula tem uma vantagem sobre os dois ditadores: aqui as pesquisas refletem verdadeiramente o que o povo pensa, enquanto em Cuba e na Coreia do Norte as pesquisas de opinião lembram o que se dizia dos plebiscitos portugueses durante a ditadura lusitana: SIM, Salazar fica; NÃO, Salazar não sai; brancos e nulos sendo contados a favor do governo...(Quem nunca ouviu falar em Salazar, por favor, pergunte a um parente com mais de 60).
Portanto, a popularidade de Lula ainda "tem espaço" para crescer, para empregar essa expressão surrada e pedante, mas adorada pelos economistas. E faltam apenas cerca de 16% para que Lula possa, com suas habituais presunção e imodéstia, anunciar ao mundo que obteve a unanimidade dos brasileiros em torno de seu nome, superando até Jesus Cristo ou outras celebridades menores que jamais conseguiram livrar-se de alguma oposição...
Sim, faltam apenas 16% mas eu tenho uma péssima notícia a dar a seu hipertrofiado ego: pode tirar o cavalinho da chuva, cumpanhero, porque de 99,9999995% você não passa.
Como você não é muito chegado em Aritmética, exceto nos cálculos rudimentares dos percentuais sobre os orçamentos dos ministérios que você entrega aos partidos que constituem sua base de sustentação no Congresso, explico melhor: o Brasil tem 200.000.000 de habitantes, um dos quais sou eu. Represento, portanto, 1 em 200.000.000, ou seja, 0,0000005% enquanto os demais brasileiros totalizam os restantes 99,9999995%. Esses, talvez, você possa conquistar, em todo ou em parte. Mas meus humildes 0,0000005% você jamais terá porque não há força neste ou em outros mundos, nem todo o dinheiro com que você tem comprado votos e apoios nos aterros sanitários da política brasileira, não há, repito, força capaz de mudar minha convicção de que você foi o pior dentre todos os presidentes que tive a infelicidade de ver comandando o Brasil em meus 65 anos de vida.
E minha convicção fundamenta-se em um fato simples: desde minha adolescência, quando comecei a me dar conta das desgraças brasileiras e a identificar suas causas, convenci-me de que na raiz de tudo está a mentalidade dominante no Brasil, essa mentalidade dos que valorizam a esperteza e o sucesso a qualquer custo; dos que detestam o trabalho e o estudo; dos que buscam o acesso ao patrimônio público para proveito pessoal; dos que almejam os cabides de emprego, as sinecuras e os cargos fantasmas; dos que criam infindáveis dinastias nepotistas nos órgãos públicos; dos que desprezam a justiça desde que a injustiça lhes seja vantajosa; dos que só reclamam dos privilégios por não estar incluídos entre os privilegiados; dos que enriquecem através dos negócios sujos com o Estado; dos que vendem seus votos por uma camiseta, um sanduíche ou, como agora, uma bolsa família; dos que são de tal forma ignorantes e alienados que se deixam iludir pelas prostitutas da política e beijam-lhes as mãos por receber de volta algumas migalhas do muito que lhes vem sendo roubado desde as origens dos tempos; dos que são incapazes de discernir, comover-se e indignar-se diante de infâmias.
Antes e depois de mim, muitos outros brasileiros, incomparavelmente melhores e mais lúcidos, chegaram à mesma conclusão e, embora sejamos minoria, sinto-me feliz e honrado por estar ao lado de Rui Barbosa. Já ouviu falar nele? Como você nunca lê, eu quase iria sugerir-lhe que pedisse a algum de seus incontáveis assessores que lhe falasse alguma coisa sobre a Oração aos Moços... Mas, esqueça... Se você souber o que ele, em 1922, disse de políticos como você e dos que fazem parte de sua base de sustentação, terá azia até o final da vida.
Pense a maioria o que quiser, diga a maioria o que disser, não mudarei minha convicção de que este País só deixará de ser o que é - uma terra onde as riquezas produzidas pelo suor da parte honesta e trabalhadora é saqueada pelos parasitas do Estado e pelos ladrões privados eternamente impunes - quando a mentalidade da população e de seus representantes for profundamente mudada.
Mudada pela educação, pela perseverança, pela punição aos maus, pela recompensa aos bons, pelo exemplo dos governantes. E você Lula, teve uma oportunidade única de dar início à mudança dessa mentalidade, embalado que estava com uma vitória popular que poderia fazer com que o Congresso se curvasse diante de sua autoridade moral, se você a tivesse. Você teve a oportunidade de tornar-se nossa tão esperada âncora moral, esta sim, nunca antes vista nesse País.
Mas não, você preferiu o caminho mais fácil e batido das práticas populistas e coronelistas de sempre, da compra de tudo e de todos.
Infelizmente para o Brasil, mas felizmente para os objetivos pessoais seus e de seu grupo, você estava certo: para que se esforçar, escorado apenas em princípios de decência, se muito mais rápido e eficiente é comprar o que for necessário, nessa terra onde quase tudo está à venda?
Eu não o considero inteligente, no nobre sentido da palavra,porque uma pessoa verdadeiramente inteligente, depois de chegar aonde você chegou, partindo de onde você partiu, não chafurdaria nesse lamaçal em que você e sua malta alegremente surfam, nem se entregaria a seu permanente êxtase de vaidade e autoidolatria.
Mas reconheço em você uma esperteza excepcional: nunca antes nesse País um presidente explorou tão bem, em proveito próprio e de seu bando, as piores qualidades da massa brasileira e de seus representantes.
Esse é seu legado maior, e de longa duração: o de haver escancarado a lúgubre realidade de que o Brasil continua o mesmo que Darwin encontrou quando passou por essas plagas em 1832 e anotou em seu diário: "Aqui todos são subornáveis".
Você destruiu as ilusões de quem achava que havíamos evoluído em nossa mentalidade e matou as esperanças dos que ainda acreditavam poder ver um Brasil decente antes de morrer.
Você não inventou a corrupção brasileira, mas fez dela um maquiavélico instrumento de poder, tornando-a generalizada e fazendo-a permear até os últimos níveis da Administração.
O Brasil, sob você, vive um quadro que em medicina se chamaria de septicemia corruptiva. Peça ao Marco Aurélio para lhe explicar o que é isso.
Você é o sonho de consumo da banda podre desse País, o exemplo que os funcionários corruptos do Brasil sempre esperaram para poder dar, sem temores, plena vazão a seus instintos.
Você faz da mentira e da demagogia seu principal veículo de comunicação com a massa.
A propósito, o que é que você sente, todos os dias, ao olhar-se no espelho e lembrar-se do que diz nos palanques? Você sente orgulho em subestimar a inteligência da maioria e ver que vale a pena?
Você mentiu quando disse haver recebido como herança maldita a política econômica de seu antecessor, a mesma política que você manteve integralmente e que fez a economia brasileira prosperar;
Você mentiu ao dizer que não sabia do Mensalão;
Mentiu quando disse que seu filho enriqueceu através do trabalho;
Mentiu sobre os milhões que a Ong 13, de sua filha, recebeu sem prestar contas;
Mentiu ao afastar Dirceu, Palocci, Gushiken e outros cumpanheros pegos em flagrante;
Mente quando, para cada platéia, fala coisas diferentes, escolhidas sob medida para agradá-las;
Mentiu, mente e mentirá em qualquer situação que lhe convenha.
Por falar em Ongs, você comprou a esquerda festiva, aquela que odeia o trabalho e vive do trabalho de outros, dando-lhe bilhões de reais através de Ongs que nada fazem, a não ser refestelar-se em dinheiro público, viajar, acampar, discursar contra os exploradores do povo e desperdiçar os recursos que tanta falta fazem aos hospitais.
Você não moveu uma palha, em sete anos de presidência, para modificar as leis odiosas que protegem criminosos de todos os tipos neste País sedento de Justiça e encharcado pelas lágrimas dos familiares de tantas vítimas.
Jamais sua base no Congresso preocupou-se em fechar ao menos as mais gritantes brechas legais pelas quais os criminosos endinheirados conseguem sempre permanecer impunes, rindo-se de todos nós.
Ao contrário, o Supremo, onde você tem grande influência, por haver indicado um bom número de Ministros, acaba de julgar que mesmo os condenados em segunda instância podem permanecer em liberdade, até que todas as apelações, recursos e embargos sejam julgados, o que, no Brasil, leva décadas.
Isso significa, em poucas palavras, que os criminosos com dinheiro suficiente para pagar os famosos e caros criminalistas brasileiros podem dormir sossegados, porque jamais irão para a cadeia.
Estivesse o Supremo julgando algo que interessasse a seu grupo ou a suas inclinações ideológicas, certamente você teria se empenhado de corpo e alma.
Aliás, Lula, você nunca teve ideais, apenas ambições.
Você jamais foi inspirado por qualquer anseio de Justiça. Todas as suas ações, ao longo da vida, foram motivadas por rancores, invejas, sede pessoal de poder e irrefreável necessidade de ser adorado e ter seu ego adulado.
Seu desprezo por aquilo que as pessoas honradas consideram Justiça manifesta-se o tempo todo: quando você celeremente despachou para Cuba alguns pobres desertores que aqui buscavam a liberdade; quando você deu asilo a assassinos terroristas da esquerda radical; quando você se aliou à escória do Congresso, aquela mesma contra quem você vociferava no passado; quando concedeu aumentos nababescos a categorias de funcionários públicos já regiamente pagos, às custas dos impostos arrancados do couro de quem trabalha arduamente e ganha pouco; quando você aumentou abusivamente as despesas de custeio, sabendo que pouquíssimo da arrecadação sobraria para os investimentos de que tanto carece a população; quando você despreza o mérito e privilegia o compadrio e o populismo; e vai por aí.... Justiça, ora a Justiça, é o que você pensa...
Você tem dividido a nação, jogando regiões contra regiões, classes contra classes e raças contra raças, para tirar proveito das desavenças que fomenta.
Aliás, se você estivesse realmente interessado, como deveria, em dar aos pobres, negros e outros excluídos as mesmas oportunidades que têm os filhos dos ricos, teria se empenhado a fundo na melhoria da saúde e do ensino públicos.
Mas você, no íntimo, despreza o ensino, a educação e a cultura, porque conseguiu tudo o que queria, mesmo sendo inculto e vulgar. Além disso, melhorar a educação toma um tempo enorme e dá muito trabalho, não é mesmo?
E se há coisa que você e o Partido dos Trabalhadores definitivamente detestam é o trabalho: então, muito mais fácil é o atalho das cotas, mesmo que elas criem hostilidades entres as cores, que seus critérios sejam burlados o tempo todo e que filhos de negros milionários possam valer-se delas.
A Imprensa faz-lhe pouca oposição porque você a calou, manipulando as verbas publicitárias, pressionando-a economicamente e perseguindo jornalistas.
O que houve entre o BNDES e as redes de televisão?
O que você mandou fazer a Arnaldo Jabor, a Boris Casoy, a Salete Lemos?
Essa técnica de comprar ou perseguir é muito eficaz. Pablo Escobar usou-a com muito sucesso na Colômbia, quando dava a seus eventuais opositores as opções: "O plata, o plomo". Peça ao Marco Aurélio para traduzir. Ele fala bem o Espanhol.
Você pode desdenhar tudo aquilo que aqui foi dito, como desdenha a todos que não o bajulem.
Afinal, se você não é o maior estadista do planeta, se seu governo não é maravilhoso, como explicar tamanha popularidade?
É fácil: políticos, sindicatos, imprensa, ONGs, movimentos sociais, funcionários públicos, miseráveis, você comprou com dinheiro, bolsas, cotas, cargos e medidas demagógicas.
Muita gente que trabalha, mas desconhece o que se passa nas entranhas de seu governo, satisfez-se com o pouco mais de dinheiro que passou a ganhar, em consequência do modesto crescimento econômico que foi plantado anteriormente, mas que caiu em seu colo.
Tudo, então, pode se resumir ao dinheiro e grande parte da população parece estar disposta a ignorar os princípios da honradez e da honestidade e a relevar as mentiras, a corrupção, os desperdícios, os abusos e as injustiças que marcam seu governo em troca do prato de lentilhas da melhoria econômica.
É esse, em síntese, o triste retrato do Brasil de hoje...
E, como se diz na França, "l´argent n´est tout que dans les siècles où les hommes ne sont rien".
Você não entendeu, não é mesmo? Então pergunte à Marta. Ela adora Paris e há um bom tempo estamos sustentando seu gigolô franco-argentino...
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Hora da verdade.
Coronel Maciel
Enviado pelo autor
Todos têm sua “hora da verdade”. É o terrível momento da chegada do “juízo final”, quando, para os que acreditam, haveremos que nos justificar perante Deus. É o momento atual do Tenente-Coronel PQD Hugo Chavez. Chegou a sua hora. A sua hora da agonia. Hora de ele sepultar suas malditas ilusões. O povo venezuelano começa acordar... Os chilenos acordaram... E os brasileiros?... Quando? Não se pode enganar a todos, durante o tempo todo. Lula terá que se corrigir, se quiser se sustentar. Chega de falsidades, Lula! Chega de demagogia barata! Chega de cachaça... Ou tu te afastas, e logo, desta curriola que te escraviza; destes que te deram o papel principal de uma história que não é a tua verdadeira história. Dos que se aproveitam da tua inegável inteligência política; de uma inteligência capaz de enganar a gregos e troianos. Ou te adaptas à nova realidade que se aproxima, ou estarás perdido. Deixa de lado, esquece essas obras do PAC; esquece a “mãe do PAC” com suas obras alegres e inconseqüentes; deixa essa fase de empirismo imprudente, eleitoreiro, para uma planificação consciente. Ou terás que voltar a ser pobre; voltar a andar nas costas de um jumento, e abandonar as caras e confortáveis poltronas do teu tapete mágico... É horrível voltar a ser pobre. Ou controlas o teu destino, a tua sina; deixas de ficar escravizado às circunstâncias, ou logo vai te acontecer o que já está acontecendo com o risível, o bufante palhaço Hugo Chavez. É um processo penoso esse encontro com a verdade... Acorda Brasil!
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Negação de passaporte.
François Silvestre
Enviado pelo próprio cabra.
Que história é essa de levar saudades daqui? Sei que o RN é uma sesmaria, mas, pelo menos, não lamentamos a demora de Sartre. A sua estrada de volta tá bloqueada. Veio pro gueto de livre e espontânea vontade. Pra sair é mais complicado. Só depois de uma audiência pública. Que é a muganga de nada se decidir. Assim como a comissão, que foi encarregada de desenhar um cavalo e saiu o camelo. Volta é papo furado!
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Ora se deu que vim a Natal desenhar um camelo e saiu-me um cavalo. Montei, esquipei, tomei o rumo da venta e agora estou no prumo de Pernambuco. Mas, não pense que se livrou de mim, seu cabra. Fico com um pé e um apartamento aqui pra voltar de vez em quando. Na agenda, uma visita a Martins e uma estupidamente gelada com você. Um abração, amigo.
JL
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Arte de Djanira Mota e Silva
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A Grande Boa Viagem
Joca Souza Leão
jocasouzaleao@gmail.com
Enviado pelo autor
Até os anos de 1960, ou mesmo os 70, Boa Viagem ia do 2º Jardim até o Terminal (isto é, a praça onde tem a igreja e foi terminal de bonde e depois de ônibus). Do Terminal pra lá era Piedade.
Ali onde o pintor Lula Cardoso Ayres morava já era Piedade. A Casa de Retiro dos Padres Jesuítas, Piedade. Clube, hospital e vila dos oficiais da Aeronáutica, Piedade. Até a curva, Recife. Da curva pra lá, Jaboatão.
Podia-se ir também pela Imbiribeira, mas o caminho pra Boa Viagem que todo mundo fazia era pela Rua Imperial (não existia a Agamenon). No Cabanga, atravessava-se a ponte (única e estreita, quem ia tinha que esperar quem vinha) e do outro lado era o Pina. Até o 1º jardim. Daí em diante, Boa Viagem: 2º Jardim, Corta Jaca, Casa Navio, Castelinho e Terminal. (Para imitar os cariocas, alguns se referiam ao número do posto de salva-vida, como em Copacabana: Posto três, Posto quatro... ).
“Pina, praia de banho / Tem um tolete do seu tamanho”, cantavam os moradores e frequentadores de Boa Viagem para debochar dos moradores e frequentadores do Pina, menos abastados. Isso por que um emissário (um cano grosso, primeiro subterrâneo e depois submarino) saía da Usina de Tratamento de Esgoto do Cabanga, atravessava o Pina, a praia e ia lançar a merda do Recife em alto mar. Mesmo depois de o emissário ter sido extinto, o Pina conviveu com o estigma: “Pina é um colosso! / Tem um armazém que vende merda em grosso.”
E pra completar a fama do bairro, tinha a zona de prostituição. A Zona do Pina, que segundo o professor e antropólogo João Hélio Mendonça, estudioso e mestre no assunto, era a mais recifense das zonas do Recife, por que distante da zona portuária.
Os moradores do Pina tinham, portanto, motivos de sobra para dizer que não moravam lá, que moravam em Boa Viagem. Além, claro, do status social. Daí, o mercado imobiliário deitou e rolou. Na propaganda de lançamento dos edifícios localizados no Pina, todos diziam ficar em Boa Viagem. E assim, esquecido, o Pina foi sendo engolido e digerido na pança do mercado.
Se de um lado, no Pina, os problemas eram a merda e a zona; do outro lado, em Piedade, o problema era a distância. Ninguém gosta de dizer que mora longe (ainda que more). Aí, o que fez a propaganda? Ora, foi só dizer que até a fronteira com Jaboatão era tudo Boa Viagem. A Grande Boa Viagem, digamos.
Segundo as imobiliárias, Aflitos já é Graças; Arruda e Encruzilhada, Rosarinho; (a Grande) Casa Forte inclui Parnamirim, Jardim Triunfo, Estrada do Encanamento, Monteiro e parte de Casa Amarela.
Só a gente, a gente do Recife e com mais de ciqnquenta, é que chama o Bairro do Recife de Bairro do Recife, que é seu nome de batismo (e não Recife Antigo, nome dado pela propaganda de uma gestão municipal); a gente continua chamando Aflitos de Aflitos, Encruzilhada de Encruzilhada, Pina de Pina e do Terminal pra lá é tudo Piedade.
O resto é propaganda.
PS: E o cronista, como em anos anteriores, entra de férias em fevereiro para retornar com todo o gás em 6 de março. Até lá!
Joca Souza Leão é publicitário e cronista.
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De Carybé
E tem o mulherio. Pra mais de dez ruas de mulher-dama. Uma riqueza de paços e sobradões antigos abriga essa correição de pecantes que ali mesmo começam e terminam a dura vida fácil. O começo nos casarões e botequins, o término duas ou três ruas além, no Instituto de Medicina Legal Nina Rodrigues, cujo laudo é o passaporte à tranquilidade do outro mundo, sem cafifas, sem marafonas, sem propinas à policiais e malandros, sem os cinquenta por cento para a dona do quarto, sem gonorréia e mais doenças do mundo, sem amor e com muita paz.
Algumas viram assombração penando nos porões bolorentos e nos becos de mijo, são as que ateiam fogo às vestes ou as que morrem em fúria nas broncas e entreveros de alcovas e cabarés.
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Livro de Luciano Trigo denuncia que arte virou finanças e marketing
Marcos Pasche
Recentemente, uma revista brasileira especializada em artes divulgou um inusitado projeto do dinamarquês Marco Evaristti: triturar o corpo de um texano condenado à morte para distribuir o farelo como ração a ser jogada, pelos visitantes de uma exposição sua, aos peixes de um aquário. Mais absurda que a ideia é o fato de Evaristti ser reconhecido internacionalmente como artista, e conquistar holofotes e muito dinheiro a reboque de empreitadas de tal natureza, como uma do ano 2000, em que ele expôs dezenas de liquidificadores, cada um com água e um peixinho dentro, que poderia ser espatifado caso qualquer espectador acionasse o aparelho.
Farpas no ventilador
É como um protesto veemente em relação a bizarrices dessa espécie que Luciano Trigo elabora A grande feira: uma reação ao vale-tudo na arte contemporânea, com o qual joga farpas no ventilador para atingir instalações, seus autores, críticos e, no cerne da questão, os bastidores do mercado internacional das artes: “Todos os aspectos de uma obra de arte – estéticos, emocionais, morais – foram reduzidos a questões de finanças e marketing. Em outras palavras, o mundo da arte se tornou um instrumento de afirmação do capitalismo neoliberal”.
O livro de Trigo é uma interessante contribuição para pensar, numa dimensão maior, o próprio tempo caótico em que as artes atuais são engendradas. Por isso, a obra se soma a contestações do panorama atual da cultura, realizadas, em âmbito estrangeiro, por Frédric Jameson e Eric Hobsbawm, e que no Brasil têm sido exercidas por Ferreira Gullar e, com maior frequência, por Affonso Romano de Sant'Anna (surpreendentemente ignorado pelo autor).
Entretanto, há uma série de aspectos que impedem o livro de alcançar maior êxito, sendo o principal deles a repetição interminável de seu argumento central – a arte atual é mais impregnada de capitalismo do que de intelecto – o que torna a leitura de alguns fragmentos previsível e, por vezes, prescindível. Vê-se um nítido exemplo no capítulo “A falência da crítica de arte”, que na sua sexta parte não faz qualquer menção à atividade crítica, e, na sétima, nem mesmo a própria palavra crítica consta nas páginas.
Apesar de dividido em nove capítulos, A grande feira carece de melhor distribuição das abordagens feitas acerca dos atores e setores componentes do campo artístico hodierno. Em nota introdutória, Trigo informa ter o livro nascido de um blog e, como jornalista, combate o academicismo e defende uma escrita a primar pela inteligibilidade: “(...) no caso dos textos universitários, que, no Brasil, nunca se caracterizam pela clareza”. Mas a constatação generalizada do erro não o leva necessariamente ao acerto, pois há várias subdivisões do texto em que o enfoque é modificado bruscamente, além da citação de um dossiê de Georges Strohl, que é, por si só, um subcapítulo inteiro, dentro do qual o autor interpõe alguns comentários entre colchetes, dando referências claras do que se trata apenas no fim.
Ainda como recurso para quebrar a dureza formal e a suposta aura torre de marfim da escrita universitária, Trigo lança mão de informalidades para dar ao texto maior fluidez e leveza, porém o teor algo adolescente (no sentido negativo do termo) das expressões torna a empresa sem sucesso: “A ideia era discutir a validade da pornografia em arte. Aham” (grifo deste resenhista).
Enlatamento de fezes
Também merece nota uma curiosa contradição: depois de apontar acertadamente uma série de engodos (com maior frequência o americano Jeff Koons e, especialmente, o inglês Damien Hirst, que inclusive tem seu famigerado tubarão em formol na capa do livro), Trigo vê na obra do italiano Piero Manzoni, cuja ação mais famosa consistiu, em 1961, no enlatamento e na venda de suas próprias fezes, “uma arte crítica e questionadora, que apostava na emancipação e na conscientização do homem”.
Os problemas formais não impedem o livro de acertar em muitas de suas interpretações. Num felicíssimo lance, diagnostica o equívoco em meio à tão apregoada pluralidade da arte contemporânea: “A produção artística global é efetivamente plural, mas a produção filtrada e eleita pelo sistema internacional da arte para entreter os espectadores cosmopolitas das bienais... esta é tediosamente uniforme e homogênea (...). A diversidade é normatizada e enquadrada, e seu conteúdo político desaparece”.
O autor percebe com acuidade o desgaste da transgressão, numa arte que só se sustenta se apoiada nos braços vetustos do dadaísmo. Num tempo em que se faz indústria da desordem urbana no Rio de Janeiro e os Estados Unidos continuam a produzir males para alardearem-se como panaceia, Luciano Trigo analisa e denuncia uma arte anêmica e alienada que é também um produto da brutal inversão de valores própria de nossa época, a mesma época que, apesar de aplaudir a diferença, irá xingá-lo de conservador, reacionário e restrito.
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Ah, diz-me a verdade acerca do amor
W. H. Auden
Há quem diga que o amor é um rapazinho,
E quem diga que ele é um pássaro;
Há quem diga que faz o mundo girar,
E quem diga que é um absurdo,
E quando perguntei ao meu vizinho,
Que tinha ar de quem sabia,
A sua mulher zangou-se mesmo muito,
E disse que isso não servia para nada.
Será parecido com uns pijamas,
Ou com o presunto num hotel de abstinência?
O seu odor faz lembrar o dos lamas,
Ou tem um cheiro agradável?
É áspero ao tacto como uma sebe espinhosa
Ou é fofo como um edredão de penas?
É cortante ou muito polido nos seus bordos?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.
Os nossos livros de história fazem-lhe referências
Em curtas notas crípticas,
É um assunto de conversa muito vulgar
Nos transatlânticos;
Descobri que o assunto era mencionado
Em relatos de suicidas,
E até o vi escrevinhado
Nas costas dos guias ferroviários.
Uiva como um cão de Alsácia esfomeado,
Ou ribomba como uma banda militar?
Poderá alguém fazer uma imitação perfeita
Com um serrote ou um Steinway de concerto?
O seu canto é estrondoso nas festas?
Ou gosta apenas de música clássica?
Interrompe-se quando queremos estar sossegados?
Ah! diz-me a verdade acerca do amor.
Espreitei a casa de verão,
E não estava lá,
Tentei o Tamisa em Maidenhead
E o ar tonificante de Brighton,
Não sei o que cantava o melro,
Ou o que a tulipa dizia;
Mas não estava na capoeira,
Nem debaixo da cama.
Fará esgares extraordinários?
Enjoa sempre num baloiço?
Passa todo o seu tempo nas corridas?
Ou a tocar violino em pedaços de cordel?
Tem ideias próprias sobre o dinheiro?
Pensa ser o patriotismo suficiente?
As suas histórias são vulgares mas divertidas?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.
Chega sem avisar no instante
Em que meto o dedo no nariz?
Virá bater-me à porta de manhã,
Ou pisar-me os pés no autocarro?
Virá como uma súbita mudança de tempo?
O seu acolhimento será rude ou delicado?
Virá alterar toda a minha vida?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.
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Não-coisa
Ferreira Gullar
O que o poeta quer dizer
no discurso não cabe
e se o diz é pra saber
o que ainda não sabe.
Uma fruta uma flor
um odor que relume...
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume?
Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa
e que não tem sentido?
A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes
só o sabes no corpo
o sabor que assimilas
e que na boca é festa
de saliva e papilas
invadindo-te inteiro
tal do mar o marulho
e que a fala submerge
e reduz a um barulho,
um tumulto de vozes
de gozos, de espasmos,
vertiginoso e pleno
como são os orgasmos
No entanto, o poeta
desafia o impossível
e tenta no poema
dizer o indizível:
subverte a sintaxe
implode a fala, ousa
incutir na linguagem
densidade de coisa
sem permitir, porém,
que perca a transparência
já que a coisa ë fechada
à humana consciência.
O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura — e iluminá-la.
Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,
a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós.
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Burnt Norton
T.S.Elliot
I
O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral. As minhas palavres ecoam
Assim, no teu espirito.
Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
Não sei.
Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos segui-los?
Depressa, disse a ave, procura-os, procura-os,
Na volta do caminho. Através do primeiro portão,
No nosso primeiro mundo, seguiremos
O chamariz do tordo? No nosso primeiro mundo.
Ali estavam eles, dignos, invisiveis,
Movendo-se sem pressão, sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E a ave chamou, em resposta à
Música não ouvida dissimulada nos arbustos,
E o olhar oculto cruzou o espaço, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como nossos convidados, recebidos e recebendo.
Assim nos movemos com eles, em cerimonioso cortejo,
Ao longo da alameda deserta, no círculo de buxo,
Para espreitar o lago vazio.
Lago seco, cimento seco, contornos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita de luz do sol,
E os lótus elevaram-se, devagar, devagar,
A superfície cintilava no coração da luz,
E eles estavam atrás de nós, reflectidos no lago.
Depois uma nuvem passou, e o lago ficou vazio.
Vai, disse a ave, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Escondendo-se excitadamente.. contendo o riso.
Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
II
Alhos e safiras na lama
Coagulam o eixo fixo.
O arame que vibra no sangue
Canta sob inventeradas cicatrizes
Apaziguando guerras há muito esquecidas.
A dança ao longo da artéria
A circulação da linfa
Estão representadas no rumo dos astros
Elevam-se ao verão na árvore
Nós movemo-nos acima da árvore em movimento
Na luz sobre a folha imaginada
E ouvimos no solo molhado
Lá em baixo, o cão de caça e o javali
Prosseguirem o seu ciclo como antes
Mas reconciliados no meio dos astros.
No ponto morto do mundo em rotação. Nem came nem
espírito;
Nem de nem para; no ponto morto, aí está a dança,
Mas nem paragem nem movimento. E não se chame a isso
fixidez,
Onde o passado e o futuro se reúnem. Nem movimento de
nem para,
Nem ascensâo nem declínio. Se não fosse o ponto, o ponto
morto,
Não haveria dança, e há só a dança.
Eu apenas posso dizer, estivemos ali: mas não posso dizer onde.
E não posso dizer por quanto tempo, pois seria situar isso no tempo.
A liberdade interior do desejo prático,
A libertação de acção e sofrimento, libertação da compulsão
Interior e exterior, e no entanto tendo à volta
Uma graça de sentido, uma luz branca em repouso e em movimento,
Erhebung sem movimento, concentração
Sem eliminação, ao mesmo tempo um novo mundo
E o velho tomado explícito, compreendida
No remate do seu êxtase parcial
A resolução do seu horror parcial.
Todavia o encadeamento de passado e futuro
Tecido na fraqueza do corpo em mutação
Protege a humanidade do céu e da danação
Que a carne não pode suportar.
O tempo passado e o tempo futuro
Apenas concedem um pouco de consciência.
Estar consciente é não estar no tempo
Mas apenas no tempo podem o momento no roseiral,
O momento no caramanchel onde a chuva batia,
O momento na igreja desabrigada ao entardecer
Ser lembrados; envolvidos em passado e futuro.
Apenas pelo tempo o tempo é conquistado.
III
Este é um lugar de desafeição
O tempo antes e o tempo depois
Numa luz sombria: nem luz do dia
Investindo a forma de lúcida quietude
Transformando a sombra em efémera beleza
Com vagarosa rotação sugerindo permanência
Nem escuridão para purificar a alma
Esvaziando o sensual pela privação
Purificando a afeição do temporal.
Nem plenitude nem vazio. Apenas um tremeluzir
Sobre os rostos tensos devastados pelo tempo
Distraídos da distracção pela dístracção
Cheios de fantasias e vazios de sentido
Túmida apatia sem concentração
Homens e pedaços de papel remolnhando no vento frio
Que sopra antes e depois do tempo,
Vento que entra e sai de pulmões viciados
Tempo antes e tempo depois.
Eructação de almas doentias
No ar desbotado, os miasmas
Levados no vento que varre os sombrios montes de Londres,
Hampstead e Clerkenwell, Campden e Putney,
Hihgate, Primrose e Ludgate. Não aqui
Não aqui a escuridão, neste mundo de agitadas vozes.
Desce mais, desce apenas
Ao mundo da solidão perpétua,
Mundo não mundo, mas aquilo que não é mundo,
Escuridão interna, privação
E destituição de toda a propriedade,
Dissecação do mundo do sentido,
Evacuação do mundo da fantasia,
Inoperância do mundo do espírito;
Estee é um dos caminhos, e o outro
É o mesmo, não em movimento
Mas abstenção de movimento; enquanto o mundo se move
Em apetência, nos seus caminhos metalizados
Do tempo passado e do tempo futuro.
IV
O tempo e o sino enterraram o dia,
A nuvem negra arrebata o sol.
Irá voltar-se para nós o girassol, a clematite
Desprender-se, debruçar-se; irão a gavinha e a vergôntea
Unir-se e aderir?
Os frígidos
Dedos do teixo descerão
Para nos envolver? Depois da asa do alcião
Ter respondido à luz com a luz e calar-se, a luz está em repouso
No ponto morto do mundo em rotação.
V
As palavras movem-se, a música move-se
Apenas no tempo; mas o que apenas vive
Apenas pode morrer. As palavras, depois de ditas,
Alcançam o silêncio. Apenas pela forma, pelo molde,
Podem as palavras ou a música alcançar
O repouso, tal como uma jarra chinesa ainda
Se move perpetuamente no seu repouso.
Não o repouso do violino, enquanto a nota dura,
Não isso apenas, mas a coexistência,
Ou digamos que o fim precede o princípio,
E que o fim e o princípio estiveram sempre ali
Antes do princípio e depois do fim.
E tudo é sempre agora. As palavras deformam-se,
Estalam e quebram-se por vezes, sob o fardo,
Sob a tensão, escorregam, deslizam, perecem,
Definham com imprecisão, não se mantêm,
Não ficam em repouso. Vozes estridentes
Ralhando, troçando, ou apenas tagarelando,
Assaltam-nas sempre. O Verbo no deserto
É muito atacado por vozes de tentação,
A sombra que chora na dança funérea,
O clamoroso lamento da quimera desconsolada.
O detalhe do molde é movimento,
Como na figura dos dez degraus.
O próprio desejo é movimento
Não desejável em si;
O próprio amor é inamovível,
Apenas a causa e o fim do movimento,
Intemporal, e sem desejo
Excepto no aspecto do tempo
Capturado sob a fonna de limitação
Entre o não ser e o ser.
De repente num raio de sol
Mesmo enquanto se move a poeira
Eleva-se o riso escondido
De crianças na folhagem
Depressa, aqui, agora, sempre-
Ridículo o triste tempo inútil
Que se estende antes e depois.
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Enviado por Ronald Guimarães
Encontram-se paralisadas no Congresso Nacional por anos e até décadas algumas leis de extrema relevância, como importantes alterações do Código Penal, dos Códigos de Processo Penal e Civil, a reforma política, a reforma da previdência, a reforma eleitoral, e por aí vai.
Pelo menos agora aprovou-se (a toque de caixa) uma lei que deve ser da maior importância para a canalha que governa e legisla nesse país:
Presidência da República
Casa Civil
Subchefia para Assuntos Jurídicos
LEI Nº 12.206, DE 19 DE JANEIRO DE 2010.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA institui o Dia Nacional da Baiana de Acarajé.
Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1o Fica instituído, no calendário das efemérides nacionais, o Dia Nacional da Baiana de Acarajé, a ser comemorado, anualmente, no dia 25 de novembro.
Art. 2o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Brasília, 19 de janeiro de 2010; 189o da Independência e 122o da República.
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
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Deu no site do Tácito Costa www.substantivoplural.com.br
Floresta Amazônica e Xamanismo
Por edjane
Aos amigos João da Mata e Jairo!
Estive afastada desta telinha por motivos vários. Mas Quero deixar aqui meu pedido ao nosso amigo João da Mata que não nos deixe. Você é um dos colaboradores que se preocupa em passar conhecimento, ofício dos grandes mestres.
Jairo, lembro com ternura do ritual quase xamânico que era o bar Papo Furado: O xamã, o som e bebida sagrada e a limpeza n’alma.
Abraços.
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De minha parte, brigado, menina de Caicó. Você é uma das lembranças queridas que vou levar do RN.
JL
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Clarice Lispector é CLARICE LISPECTOR!
Yerma Magalhães
Enviado pela autora
Quero muito compartilhar com os leitores desse site maravilhoso essa crônica de Clarice Lispector, escritora da qual sou admiradora número um. Adoro a sua inteligência e sensibilidade. Beijos e todos. Saudades de muitos de vocês.
Sem aviso
Clarice Lispector
Tanta coisa que eu não sabia. Nunca tinham me falado, por exemplo, deste sol duro das três horas. Também não me tinham avisado sobre este ritmo tão seco de viver, desta martelada de poeira. Que doeria, tinham-me vagamente avisado. Mas o que vem para a minha esperança do horizonte, ao chegar perto revela abrindo asas de águia sobre mim, isso eu não sabia. Não sabia o que é ser sombreada por grandes asas abertas e ameaçadoras, um agudo bico de águia inclinado sobre mim e rindo. E quanto nos álbuns de adolescente eu respondia com orgulho que não acreditava no amor, era então que eu mais amava; isso tive que saber sozinha. Também não sabia no que dá mentir. Comecei a mentir por precaução, e ninguém me avisou do perigo de ser tão precavida; porque depois nunca mais a mentira descolou de mim. E tanto menti que comecei a mentir até a minha própria mentira. E isso – já atordoada eu sentia – isso era dizer a verdade. Até que decaí tanto que a mentira eu dizia crua, simples, curta: eu dizia a verdade bruta.
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Arte de Clovis Graciano
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Harnoncourt faz leitura convincente de Gershwin
Irineu Franco Perpetuo
Um dos papas da música antiga com instrumentos de época, o maestro berlinense Nikolaus Harnoncourt completou 80 anos em dezembro, e a comemoração não foi com repertório barroco, mas com o norte-americano Gershwin (1898-1937): luxuoso álbum triplo, com a ópera "Porgy and Bess".
A surpresa no mundo erudito foi grande. Harnoncourt, recentemente, até abordou o século 20, com um disco dedicado ao húngaro Béla Bartók (1881-1945). Mas não era de se esperar que chegasse a um repertório tão próximo da música popular: estreada em 1935, "Porgy and Bess", afinal de contas, tem itens que já foram gravados por grandes nomes do jazz e até do pop, como "Summertime".
O fato é que o maestro vê a partitura de Gershwin não como um musical com orquestração sinfônica, mas como uma das grandes óperas do século 20, e o sentido de teatralidade, a meticulosidade com os detalhes e uma qualidade de som absolutamente suntuosa são os grandes trunfos da gravação.
Utilizando tempos, no geral, mais relaxados que os de outros regentes, Harnoncourt mostra apurado senso de estilo no comando da Chamber Orchestra of Europe. Cem por cento negro, como pedia o compositor, o elenco destaca a intensa Maria de Roberta Alexander.
O maestro, que até restaurou um item inédito, faz pequenos cortes na partitura, única decisão realmente digna de pena. Porque a leitura de Harnoncourt é tão convicta e convincente que dá vontade de ouvir tudo que Gershwin previu para sua mais ambiciosa criação.
GERSHWIN: PORGY AND BESS
Artista: Nikolaus Harnoncourt
Gravadora: RCA Victor
Quanto: US$ 46,49 mais taxas, em
www.amazon.com (importado)
Avaliação: ótimo
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Os outros
Antonio Prata
Você não acha estranho que existam os outros? Eu também não achava, até anteontem, quando tive o que, por falta de nome melhor, chamei de SCA - Súbita Consciência da Alteridade.
Estava no carro, esperando o farol abrir e comecei a observar um pedestre, vindo pela calçada. Foi então que, do nada, senti o espasmo filosófico, a fisgada ontológica. Simplesmente entendi, naquele instante, que o pedestre era um outro: via o mundo por seus próprios olhos, sentia um gosto em sua boca, um peso sobre seus ombros, tinha antepassados, medo da morte e achava que as unhas dos pés dele eram absolutamente normais - estranhas eram as minhas e as suas, caro leitor, pois somos os outros da vida dele.
O farol abriu, o pedestre ficou para trás, mas eu não conseguia parar de pensar que ele agora estava no quarteirão de cima, aprisionado em seus pensamentos, embalado por sua pele, tão centro do Cosmos e da Criação quanto eu, você e sua tia avó.
Sei que o que estou dizendo é de uma obviedade tacanha, mas não são essas verdades as mais difíceis de enxergar? A morte, por exemplo. Você sabe, racionalmente, que um dia vai morrer. Mas, cá entre nós: você acredita mesmo que isso seja possível? Claro que não! Afinal, você é você! Se você acabar, acaba tudo e, convenhamos, isso não faz o menor sentido.
As formigas não são assim. Elas não sabem que existem. E, se alguma consciência elas têm, é de que não são o centro nem do próprio formigueiro. Vi um documentário, ontem de noite. Diante de um riacho, as saúvas africanas se metiam na água e formavam uma ponte, com seus próprios corpos, para que as outras passassem. Morriam afogadas, para que o formigueiro sobrevivesse.
Não, nenhuma compaixão cristã brotou em mim naquele momento, nenhuma solidariedade pela formiga desconhecida. (Deus me livre, ser saúva africana!). O que senti foi uma imensa curiosidade de saber o que o pedestre estaria fazendo, naquele momento. Estaria vendo o mesmo documentário? Dormindo? Desejando a mulher do próximo? Afinal, ele estava existindo, e continua existindo agora, assim como eu, você, o Bill Clinton, o Moraes Moreira.
São sete bilhões de narradores em primeira pessoa, soltos por aí, crentes que, se Deus existe, é conosco que virá puxar papo, qualquer dia desses. Sete bilhões de mundinhos. Sete bilhões de chulés. Sete bilhões de irritações, sistemas digestivos, músicas chicletentas que não desgrudam da cabeça e a esperança quase tangível de que, mês que vem, ga-nharemos na loteria. Até a rainha da Inglaterra, agorinha mesmo, tá lá, minhocando as coisas dela, em inglês, por debaixo da coroa. Não é estranhíssimo?
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PAPO SOLTO
JAIRO
FEIRA