Quarenta e oito José Carlos L. Poroca Advogado e Executivo do segmento shopping centers jcporoca@uol.com.br Enviado pelo autor
Volto, com motivo, a um tema que me encanta e fascina: a propriedade da Mãe Natureza. Vi há poucos dias, peças – madeira, metal, tecido – corroídos pelo mofo e pela ação oxidante da maresia. “Maresia em madeira e tecido?” – alguém pode duvidar e entortar a boca numa demonstração de descrédito. Sim. Vi os efeitos que a névoa quase invisível provoca nos objetos produzidos pelo humano, que também não escapa aos efeitos da natureza. E não há, sem exceções, quem resista aos efeitos da passagem do vento, mesmo que se esteja a dezenas e centenas de quilômetros do mar sob a proteção de morros e montanhas. O tempo e o vento são cruéis e não há aeróbica, complexo vitamínico, dieta disso ou daquilo e qualquer outra fórmula que impeça o processo involutivo. Trata-se de processo inconveniente, principalmente agora quando se sabe que o brasileiro ocupou a 12ª posição entre os povos mais felizes do Planeta. O Instituto que realizou a pesquisa é sério e não há motivo para duvidar que somos uns infelizes. Há moradia, educação e saneamento para todos; o futebol e a cachaça contribuem para a felicidade geral, dependendo do momento e situação; a renda segura o orçamento e ainda sobra para férias européias, norte-americanas ou australianas. Temos um parlamento sério e ativo, que trabalha incansavelmente com um único objetivo: fazer um Brasil melhor. E quase esqueço o Carnaval, que proporciona o que pode ser chamado de férias com lazer durante uns 15 dias no ano. Com tudo isso, já começo a duvidar dos critérios de pontuação: acho que o Brasil deveria estar entre os primeiros colocados. Vejam, por exemplo, o caso do Seu Clóvis, personagem real que viveu no município de Euclides da Cunha, no nordeste baiano. Foi vaqueiro e agricultor, convivendo com a natureza de verão a verão, seguindo à risca as recomendações do Livro (“crescei e multiplicai-vos”). Produziu 48 filhos. Para que não haja dúvidas, vamos repetir: o vaqueiro baiano produziu quatro dúzias de filhos, em três relacionamentos: 22 no primeiro, 13 no segundo e 13 no terceiro. No período em que produziu a segunda fornada (26 filhos), tinha dois casamentos simultâneos. Morreu com 76 anos de idade e não foi de ‘fraqueza’, tuberculose ou bronquite. Morreu de cobra - uma jararaca -, mordida de uma cobra jararaca. Não faleceu na hora e ficou durante anos com um problema aqui, outro ali, até o dia em que não deu mais pra segurar a peteca e a encomenda (no bom sentido) foi colocada à disposição do comprador sete palmos abaixo do chão. Um dos filhos que mora na Capital diz que a cobra foi apenas uma picada; na verdade, segundo o filho, o pai morreu de ‘praga’. De quem? (Ele contou, mas pediu segredo). O mesmo filho que narrou a história do pai vaqueiro também falou do sofrimento que ele, a mãe e irmãos passaram, comendo o pão que o diabo amassou na luta pela sobrevivência. Da primeira leva, nenhum deles concluiu o segundo grau, 21 ainda estão vivos e espalhados pelo Brasil afora. A história tem cerca de 50 anos. Merece registro para a memória.
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Um soneto de Othoniel Menezes Enviado por Laélio Ferreira
Os ursos Othoniel Menezes
Houve (que, até no Pólo, anda a maldade) Esta conversa, entre um político e um urso: - “ Amigo, como vai tua irmandade? “a fábula, no mundo, ainda tem curso?” –
- “Melhor que outrora! a deusa Liberdade reina e prospera... a pólvora e discurso; este, é que predispõe; a outra persuade! e Judas participa do concurso... “
- “Caramba! e Judas ainda vive?” – “Engorda! trinta centavos cada cristo...” – “E a corda?” – - “Quem prova que ele a usou? Expôs à venda!”
- “Vem comigo, ver isso!” – “Qual! No gelo é que um urso de bem resguarda o pelo! Confiar nos homens? Bruhh! Deus me defenda!
(In “DESENHO ANIMADO”, “Obra Reunida” - no prelo -, com organização, revisão e notas de Laélio Ferreira, filho do Poeta)
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Puta em pauta Laélio Ferreira Enviado pelo autor
“O Tribunal de Contas informatizou todo o seu processo, permitindo que a puta seja consultada via Internet”
(Grossa mancada, estrepolia, do jornalista Cassiano Arruda Câmara, na coluna “Roda-Viva”, de 02/out/2006, no “Diário de Natal”)
M O T E :
Nosso mundo é roda-viva puta agora virou pauta
G L O S A :
Vida vária – à vida, um viva! Vida, a minha; vida, a sua; velha vida, vida crua - nosso mundo é roda-viva... Vidinha de expectativa; vida vã e vida lauta; vida insana, vida incauta; vida plena de arrelia... - Ó vida de estrepolia: puta, agora, virou PAUTA!
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Um mote de Nei Leandro de Castro Laélio Ferreira Enviado pelo autor
“Mestre Laélio,
Antes do nosso encontro (para tomar umas e outras), vou lhe pedir um favor. Gostaria que você glosasse e gozasse esse mote:
“Quero ver sua caveira Com os grilos cantando dentro.”
Você vai tirar de letra…
Abraços,
Nei” (*)
M O T E :
Quero ver sua caveira Com os grilos cantando dentro
G L O S A :
Naquela cova rampeira, num buraco do caralho, gargalhando do escangalho, quero ver sua caveira! Faço mais: me agacho à beira desse antro e acerto o centro, cago muito no epicentro do que foi cara sebosa! - Só queria ver sua prosa com os grilos cantando dentro!
(*) Nei Leandro de Castro (Caicó-RN, 30 de maio de 1940) é um escritor brasileiro. Poeta, prosador e antropófago, é formado em direito, mas dedicou-se à publicidade, principalmente no Rio de Janeiro. Foi um dos fundadores da revista natalense CACTUS. Tem vários livros de poesia publicados, boa parte deles voltada para o erotismo, como Zona Erógena e Era uma Vez Eros. No gênero romance, escreveu O Dia das Moscas, As Dunas Vermelhas e As Pelejas de Ojuara, este inspirado na cultura popular sertaneja, foi premiado pela União Brasileira de Escritores e adaptado ao cinema em 2007 sob o nome O Homem que Desafiou o Diabo.
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Enviado por Haroldo Mota
Caros amigos,
Iniciamos nosso boletim sobre o lamentável caso das derrubadas das árvores da Rua Praia da Pipa, em Ponta Negra, com a frase de Mokiti Okada “Lutar pelo bem-estar do próximo é a condição essencial para nos tornarmos felizes”. Jornal de Hoje Agradecemos ao jornalista Alex Medeiros pela publicação do artigo com o título “Salvem as Árvores de Pipa”, em 01 de setembro, na sua coluna Portfólio. SIM TV Agradecemos ao “Programa Sua Cidade”, sobre a denúncia do corte das árvores, exibido na terça-feira, dia 31 de agosto, emissora afiliada a RedeTV. Ministério Público do Meio Ambiente Esta semana, estaremos entregando a cópia da autorização do corte das árvores, emitido pela Semsur; o artigo que escrevi sobre o caso, publicado por Alex Medeiros no Jornal de Hoje; a cópia em DVD da reportagem do Programa Sua Cidade, da SimTV; alguns e-mails recebidos sobre o mesmo e fotografias.
Publicações
Seguem alguns blogs que divulgaram o caso:
www.sergiovilar.blogspot.com www.papofurado.org www.kriterion.zlg.br www.sospontanegra.blogspot.com
E-mails recebidos
Haroldo,
Parabéns pela iniciativa e principalmente pela sensibilidade. Aqui em Brasília fazemos vigílias em torno das árvores com velas e música. Temos logrado êxito, mas o crime tem que ser percebido antes, depois não dá mais. Vocês podem fazer um manifesto colocando faixas dizendo aqui jaz uma tamarineira, uma tulipa tropical e uma algarobeira vítimas de xenofobia. Não trará as árvores de volta, mas certamente inibirá próximas ações criminosas. Você é muito especial. Parabéns.
Jacqueline
Sugestão:
Divulguem amplamente o nome da loja com a recomendação de nada lá se compre em virtude de a mesma ser ecologicamente incorreta por todos os motivos citados abaixo. O bolso costuma ser o órgão do ser humano que mais dói nessas horas. Saudações ecológicas e boa sorte na campanha! Cristina - SP Grande Haroldo: boa noite!
Aqui no Pium estas atitudes violentas estão acontecendo permanentemente.
Para construir uma lagoa de captação de esgotos de forma irregular em área de perservação ambiental - APA Bonfim Guaraíras e em área Especial de Agricultura Familiar, a Caern proprietária do terreno de 16 ha, derrubou umas 200 Mangabeiras Nativas do Nordeste num único dia de forma extremamente assassina.
Parece ser um ato sem motivo aparente?
Muito triste. O sistema nervoso central das autoridades que tomam estas decisões estão totalmente desequilibrados. Quem se alimenta com alimento doente, comida estragada, envenenada, vindo de um solo degenerado, doente, se torna um homem doente e violento.
É o progresso voraz e lucrativo!
"Quem é que vai pagar por isto?"
Inté
Pedro
Caro Haroldo,
A SEMSUR tem sido arbitrária e isso a sociedade não tem se dado conta. A remoção das nossas árvores tem sido uma prática constante dessa secretaria que não tem conhecimento etnobotânico das inúmeras espécies que ainda resistem em nossa cidade. Somando o desrespeito com a nossa flora, fauna, avifauna e o patrimônio socio-cultural da nossa cidade... seguem as licenças para o massacre maciço das nossas espécies.
E o mais segue meu lamento e compartilho consigo esse triste episódio!
Saudações,
Rose Dantas - Natal RN
Cordialmente, Haroldo Mota
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Reflexão sobre o osso da minha perna Ferreira Gullar
A parte mais durável de mim são os ossos e a mais dura também como, por exemplo, este osso da perna que apalpo sob a macia cobertura ativa de carne e pele que o veste e inteiro me reveste dos pés à cabeça esta vestimenta fugaz e viva sim, este osso a mais dura parte de mim dura mais do que tudo o que ouço e penso mais do que tudo o que invento e minto este osso dito perônio é, sim, a parte mais mineral e obscura de mim já que à pele e à carne irrigam-nas o sonho e a loucura têm, creio eu, algo de transparente e dócil tendem a solver-se a esvanecer-se para deixar no pó da terra o osso o fóssil futura peça de museu o osso este osso (a parte de mim mais dura e a que mais dura) é a que menos sou eu?
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Enviado por Jarbas Martins
Atenção, amigo Jairo.
O terceiro maior poeta de Angicos/RN envia para o teu boteco virtual o poema RIO PATAXÓ,RIO ANGICOS, dedicado a Carmen Vasconcelos, o primeiro nome da poesia angicana. O segundo é o meu primo Edson Péres, glosador e boêmio, já falecido.Abração, meu bardo de Arcoverde.
• Poeta, hoje estamos inaugurando tua banca aqui no Papo Furado. Vá no menu aí de banda e dê uma olhada. Se não gostar da arrumação, desculpe o mau jeito deste terceiro bardo do bairro do Cuscus em Arcoverde PE.
JL
Rio Pataxó, rio Angicos Jarbas Martins
a Carmen Vasconcelos
rio seco desinverno rio Pataxó rio Angicos cai a tarde em meus cabelos como uma sombra de oiticica
como na canção do cego -cruéis janeiros, Pataxó- em chão de guerra e sossego aprendi também a ser só
esperando meus invernos murmurando inquietudes nas vazantes do meu tédio no sono dos meus açudes
tantas águas, Pataxó tantas mágoas represadas rio escondido em meus olhos um rio seco mais nada
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Enviado por Laélio Ferreira
Papa Berto Filho, in “A Palavra do Editor” do Jornal da Besta Fubana, Recife-PE, 02/09/2010 “Pra senador irei votar no Dr. Joaquim Francisco, figura de exponencial importância da direita reacionária pernambucana e brasileira. Ele iniciou sua vida política bem cedo, quando se filiou à ARENA, o partido da ditadura militar e no qual exerceu diversos cargos públicos. Depois ingressou no PDS, do qual se mudou para o PFL, que virou DEM, onde concorreu a todos os cargos eletivos que conquistou. Como grande reacionário direitista, foi secretário de estado, prefeito do Recife, governador de Pernambuco, ministro de Sarney até que, recentemente, tocado pela luz esquerdo-divina, abrandou o coração, abraçou o evangelho encarnado, aceitou o Redentor Lula como seu salvador e converteu-se ao Socialismo do governador Eduardo Campos.” )
M O T E :
Eu vou já pra Pernambuco votar em Joaquim Francisco
G L O S A :
Em troca de um bazaruco de Natal saio correndo! Deixo as putas cá gemendo, eu vou já pra Pernambuco! Reaça todo, maluco, no Recife, no aprisco dessa gente, viro o disco, dou o cu, sigo o meu Papa que me ordena entrar na chapa - votar em Joaquim Francisco!
Laélio Ferreira
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Cultura no RN – petista e marombada... Laélio Ferreira Enviado pelo autor
M O T E :
Presidente marombado (1) cordelista de bancada
G L O S A :
Pensei eu que o camarada fosse só de “Prosa & Verso” (2) - nos cordéis, somente, imerso, cordelista de bancada! Não sabia quase nada desse petista aloprado, (3) de óleo Jonhson ensaboado, brilhando mais que pão doce - se halterofilista fosse, presidente marombado!
(1) Este primeiro verso do mote é cópia fiel do título de um post do Jornalista Alexis Gurgel, no seu blog “Grande Ponto” - Natal-RN (http://grandeponto.blogspot.com/); Sobre Joaquim Crispiniano Neto, transcrevo, ipsis litteris, o que se contém na home page da organização “Poetas del Mundo”, onde aparece como “Cônsul” da entidade, no Rio Grande do Norte: “Crispiniano Neto, natural de Santo Antônio do Salto da Onça é um homem multifacetado: engenheiro agrônomo, advogado, jornalista, violeiro, repentista, cordelista, produtor cultural e ex-candidato a prefeito e a vereador de Mossoró, e presidente da Fundação José Augusto - Fundação de Cultura do Rio Grande do Norte desde 2007, é membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel”.
(2) “Prosa & Verso” é uma coluna de Crispiniano Neto no “Jornal de Fato”, de Mossoró-RN. Há anos, não proseia nem verseja. Cinge-se à politicagem do PT, defendendo o partido, pra cima e pra baixo, ano acima e ano abaixo...
(3) Abaixo, sem nenhum comentário, mais informação sobre o reponsável pela cultura do tão sofrido Rio Grande SEM SORTE (os grifos não são do original):
(ABRO ASPAS) “Crispiniano Neto lança o livro "Lula na Literatura de Cordel" em Mossoró O livro, que já foi lançado em Brasília, Rio de Janeiro, Natal e outras capitais do país, relata, através do cordel, diversos momentos da trajetória política e pessoal do Presidente Lula. São 10 capítulos divididos em temáticas, como: as lutas do movimento sindical, as campanhas de Lula, as vitórias, Programas do Governo Federal e aliados políticos do líder petista, como a Governadora Wilma de Faria e o Deputado Estadual Fernando Mineiro. Além de cordéis do próprio Crispiniano, poetas populares de todo o país estão representados no livro Lula na Literatura de Cordel. Crispiniano Neto fez uma minuciosa pesquisa e selecionou trabalhos que melhor representavam momentos marcantes do Presidente Lula, que, inclusive, já é uma das cinco figuras mais cantadas pelos poetas populares, juntando-se ao grupo formado por Padre Cícero, Lampião, Frei Damião e Getúlio Vargas. A impressão número 01 do livro Lula na Literatura de Cordel foi entregue em mãos ao Presidente da República durante o evento de posse de Crispiniano na ABLC - Academia Brasileira de Literatura de Cordel.” (FECHO ASPAS) (http://www.natalpress.com/index.php?Fa=mat.inf&EDI_ID=7&MAT_ID=25435)
Arre égua!
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A platéia que aplaude François Silvestre Enviado pelo autor
Quando você fala mal dos corruptos, os corruptos lhe aplaudem. Porque eles não se sentem elencados. E assim o fazem os ladrões, os burocratas e os picaretas de todas as tonalidades. Cada um se sente o observador da carapuça do outro. E conserva o cocuruto descoberto. Quando você fala mal dos eleitores venais, o mundo vem abaixo de tanta palma. Ninguém se acha vendedor do próprio voto. Mesmo com a quitanda exposta ao sol da praça, escangalhada no furdunço do mercado. Quando você se inclui no rol da patifaria, recebe a solidariedade cândida e generosa dos colegas. Tem mais mentira num carro de som, que passeia sem pedir licença nas veredas dos meus ouvidos, do que num romance do realismo mágico. Tá na praça. Tá na igreja. Tá no palanque. Tá no banco. Tá na loja. Tá no palácio. Tá no tribunal. Tá no blog. Tá no jornal. Tá na televisão. Tá no alpendre da minha casa. A mentira é a sombra que nos segue. E quando falta a luz de fazer sombra, ela se incorpora feito tatuagem. A mídia é o ancoradouro da frota que alça aos ventos o miasma de intestinos podres. Panarício social. Quando abre uma fresta ao sarjar da crítica, escancara a janela toda ao pus do carnicão. Viva o tempo da mentira. Todos os tempos também o foram. Mas anteontem era o tempo da mentira carroçável. Ontem, o tempo da mentira analógica. Hoje é o tempo da mentira digital. Basta estirar o dedo. E mantê-lo estirado. Haverá sempre alguém que o mereça. O nazareno silenciou sobre a verdade ante a provocação de Pilatos. Os políticos silenciam sobre a mentira ante a provocação da história. Certa vez, no Jeca, cruzamento da Ipiranga com São João, Mário Quintana disse que a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer. Depois essa frase virou verso de um poema que consta da sua obra. Ele era assim. Fazia poesia numa conversa banal, com a mesma naturalidade com que uma criança monta e desmonta o universo. Será que as verdades da nossa história simplesmente deixaram ou se esqueceram de acontecer? Será que o nosso poder público é uma verdade que só acontecerá no futuro? Em que futuro? Longe? Perto? Não peço que mintam menos. Pelo contrário. Estou me abastecendo de mentira política para exercitar minhas mentiras literárias. E escrever romances. Indispensável na literatura, a mentira é a melhor verdade. Esquecida na política, a verdade é a pior mentira. Foi pra isso que duas gerações se deixaram consumir de exílio, tortura, morte, censura? Foi pra isso? Foi pra isso que morreram, sob tortura, operários, estudantes, intelectuais, religiosos? Velhos e adolescentes. Foi pra isso que desapareceram corpos que nunca mereceram o enterro comum dos mortos? Foi pra isso? Pra essa democracia beiçola de caçuá? Té mais.
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O Cavalo que Bebia Cerveja Guimarães Rosa
Essa chácara do homem ficava meio ocultada, escurecida pelas árvores, que nunca se viu plantar tamanhas tantas em roda de uma casa. Era homem estrangeiro. De minha mãe ouvi como, no ano da espanhola, ele chegou, acautelado e espantado, para adquirir aquele lugar de todo defendimento; e a morada, donde de qualquer janela alcançasse de vigiar a distância, mãos na espingarda; nesse tempo, não sendo ainda tão gordo, de fazer nojo. Falavam que comia a quanta imundície: caramujo, até rã, com as braçadas de alfaces, embebidas num balde de água. Ver, que almoçava e jantava, da parte de fora, sentado na soleira da porta, o balde entre suas grossas pernas, no chão, mais as alfaces; tirante que, a carne, essa, legítima de vaca, cozinhada. Demais gastasse era com cerveja, que não bebia à vista da gente. Eu passava por lá, ele me pedia: — "Irivalíni, bisonha outra garrafa, é para o cavalo..." Não gosto de perguntar, não achava graça. Às vezes eu não trazia, às vezes trazia, e ele me indenizava o dinheiro, me gratificando. Tudo nele me dava raiva. Não aprendia a referir meu nome direito. Desfeita ou ofensa, não sou o de perdoar — a nenhum de nenhuma.
Minha mãe e eu sendo das poucas pessoas que atravessávamos por diante da porteira, para pegar a pinguela do riacho. — "Dei'stá, coitado, penou na guerra..." — minha mãe explicando. Ele se rodeava de diversos cachorros, graúdos, para vigiarem a chácara. De um, mesmo não gostasse, a gente via, o bicho em sustos, antipático — o menos bem tratado; e que fazia, ainda assim, por não se arredar de ao pé dele, estava, a toda a hora, de desprezo, chamando o endiabrado do cão: por nome "Mussulino". Eu remoia o rancor: de que, um homem desses, cogotudo, panturro, rouco de catarros, estrangeiro às náuseas — se era justo que possuísse o dinheiro e estado, vindo comprar terra cristã, sem honrar a pobreza dos outros, e encomendando dúzias de cerveja, para pronunciar a feia fala. Cerveja? Pelo fato, tivesse seus cavalos, os quatro ou três, sempre descansados, neles não amontava, nem agüentasse montar. Nem caminhar, quase, não conseguia. Cabrão! Parava pitando, uns charutos pequenos, catinguentos, muito mascados e babados. Merecia um bom corrigimento. Sujeito sistemático, com sua casa fechada, pensasse que todo o mundo era ladrão.
Isto é, minha mãe ele estimava, tratava com as benevolências. Comigo, não adiantava — não dispunha de minha ira. Nem quando minha mãe grave adoeceu, e ele ofertou dinheiro, para os remédios. Aceitei; quem é que vive de não? Mas não agradeci. Decerto ele tinha remorso, de ser estrangeiro e rico. E, mesmo, não adiantou, a santa de minha mãe se foi para as escuridões, o danado do homem se dando de pagar o enterro. Depois, indagou se eu queria vir trabalhar para ele. Sofismei, o quê. Sabia que sou sem temor, em meus altos, e que enfrento uns e outros, no lugar a gente pouco me encarava. Só se fosse para ter a minha proteção, dia e noite, contra os issos e vindiços. Tanto, que não me deu nem meio serviço por cumprir, senão que eu era para burliquear por lá, contanto que com as armas. Mas, as compras para ele, eu fazia. — "Cerveja, Irivalíni. É para o cavalo..." — o que dizia, a sério, naquela língua de bater ovos. Tomara ele me xingasse! Aquele homem ainda havia de me ver.
Do que mais estranhei, foram esses encobrimentos. Na casa, grande, antiga, trancada de noite e de dia, não se entrava; nem para comer, nem para cozinhar. Tudo se passava da banda de cá das portas. Ele mesmo, figuro que raras vezes por lá se introduzia, a não ser para dormir, ou para guardar a cerveja — ah, ah, ah — a que era para o cavalo. E eu, comigo: — "Tu espera, porco, para se, mais dia menos dia, eu não estou bem aí, no haja o que há!" Seja que, por essa altura, eu devia ter procurado as corretas pessoas, narrar os absurdos, pedindo providências, soprar minhas dúvidas. O que fácil não fiz. Sou de nem palavras. Mas, por aí, também, apareceram aqueles — os de fora.
Sonsos os dois homens, vindos da capital. Quem para eles me chamou, foi o seo Priscílio, subdelegado. Me disse: — "Reivalino Belarmino, estes aqui são de autoridade, por ponto de confiança." E os de fora, me pegando à parte, puxaram por mim, às muitas perguntas. Tudo, para tirar tradição do homem, queriam saber, em pautas ninharias. Tolerei que sim; mas nada não fornecendo. Quem sou eu, quati, para cachorro me latir? Só cismei escrúpulos, pelas más caras desses, sujeitos embuçados, salafrados também. Mas, me pagaram, o bom quanto. O principal deles dois, o de mão no queixo, me encarregou: que, meu patrão, sendo homem muito perigoso, se ele vivia mesmo sozinho? E que eu reparasse, na primeira ocasião, se ele não tinha numa perna, embaixo, sinal velho de coleira, argolão de ferro, de criminoso fugido de prisão. Pois sim, piei prometi.
Perigoso, para mim? — ah, ah. Pelo que, vá, em sua mocidade, podendo ter sido homem. Mas, agora, em pança, regalão, remanchão, somente quisesse a cerveja — para o cavalo. Desgraçado, dele. Não que eu me queixasse, por mim, que nunca apreciei cerveja; gostasse, comprava, bebia, ou pedia, ele mesmo me dava. Ele falava que também não gostava, não. De verdade. Consumia só a quantidade de alfaces, com carne, boquicheio, enjooso, mediante muito azeite, lambia que espumava. Por derradeiro, estava meio estramontado, soubesse da vinda dos de fora? Marca de escravo em perna dele, não observei, nem fiz por isso. Sou lá serviçal de meirinho-mor, desses, excogitados, de tantos visares? Mas eu queria jeito de entender, nem que por uma fresta, aquela casa, debaixo de chaves, espreitada. Os cachorros já estando mansos amigáveis. Mas, parece que seo Giovânio desconfiou. Pois, por minha hora de surpresa, me chamou, abriu a porta. Lá dentro, até fedia a coisa sempre em tampa, não dava bom ar. A sala, grande, vazia de qualquer amobiliado, só para espaços. Ele, nem que de propósito, me deixou olhar à minha conta, andou comigo, por diversos cômodos, me satisfiz. Ah, mas, depois, cá comigo, ganhei conselho, ao fim da idéia: e os quartos? Havia muitos desses, eu não tinha entrado em todos, resguardados. Por detrás de alguma daquelas portas, pressenti bafo de presença — só mais tarde? Ah, o carcamano queria se birbar de esperto; e eu não era mais?
Demais que, uns dias depois, se soube de ouvidos, tarde da noite, diferentes vezes, galopes no ermo da várzea, de cavaleiro saído da porteira da chácara. Pudesse ser? Então, o homem tanto me enganava, de formar uma fantasmagoria, de lobisomem. Só aquela divagação, que eu não acabava de entender, para dar razão de alguma coisa: se ele tivesse, mesmo, um estranho cavalo, sempre escondido ali dentro, no escuro da casa?
Seo Priscílio me chamou, justo, outra vez, naquela semana. Os de fora estavam lá, de colondria, só entrei a meio na conversa; um deles dois, escutei que trabalhava para o "Consulado". Mas contei tudo, ou tanto, por vingança, com muito caso. Os de fora, então, instaram com seo Priscílio. Eles queriam permanecer no oculto, seo Priscílio devia de ir sozinho. Mais me pagaram.
Eu estava por ali, fingindo não ser nem saber, de mão-posta. Seo Priscílio apareceu, falou com seo Giovânio: se que estórias seriam aquelas, de um cavalo beber cerveja? Apurava com ele, apertava. Seo Giovânio permanecia muito cansado, sacudia devagar a cabeça, fungando o escorrido do nariz, até o toco do charuto; mas não fez mau rosto ao outro. Passou muito a mão na testa: — "Lei, guer ver?" Saiu, para surgir com um cesto com as garrafas cheias, e uma gamela, nela despejou tudo, às espumas. Me mandou buscar o cavalo: o alazão canela-clara, bela-face. O qual — era de se dar a fé? — já avançou, avispado, de atreitas orelhas, arredondando as ventas, se lambendo: e grosso bebeu o rumor daquilo, gostado, até o fundo; a gente vendo que ele já era manhudo, cevado naquilo! Quando era que tinha sido ensinado, possível? Pois, o cavalo ainda queria mais e mais cerveja. Seo Priscílio se vexava, no que agradeceu e se foi. Meu patrão assoviou de esguicho, olhou para mim: "Irivalíni, que estes tempos vão cambiando mal. Não laxa as armas!" Aprovei. Sorri de que ele tivesse as todas manhas e patranhas. Mesmo assim, meio me desgostava.
Sobre o tanto, quando os de fora tornaram a vir, eu falei, o que eu especulava: que alguma outra razão devia de haver, nos quartos da casa. Seo Priscílio, dessa vez, veio com um soldado. Só pronunciou: que queria revistar os cômodos, pela justiça! Seo Giovânio, em pé de paz, acendeu outro charuto, ele estava sempre cordo. Abriu a casa, para seo Priscílio entrar, o soldado; eu, também. Os quartos? Foi direto a um, que estava duro de trancado. O do pasmoso: que, ali dentro, enorme, só tinha o singular — isto é, a coisa a não existir! — um cavalão branco, empalhado. Tão perfeito, a cara quadrada, que nem um de brinquedo, de menino; reclaro, branquinho, limpo, crinado e ancudo, alto feito um de igreja — cavalo de São Jorge. Como podiam ter trazido aquilo, ou mandado vir, e entrado ali acondicionado? Seo Priscílio se desenxaviu, sobre toda a admiração. Apalpou ainda o cavalo, muito, não achando nele oco nem contento. Seo Giovânio, no que ficou sozinho comigo, mascou o charuto: — "Irivalíni, pecado que nós dois não gostemos de cerveja, hem?" Eu aprovei. Tive a vontade de contar a ele o que por detrás estava se passando.
Seo Priscílio, e os de fora, estivessem agora purgados de curiosidades. Mas eu não tirava o sentido disto: e os outros quartos, da casa, o atrás de portas? Deviam ter dado a busca por inteiro, nela, de uma vez. Seja que eu não ia lembrar esse rumo a eles, não sou mestre de quinaus. Seo Giovânio conversava mais comigo, banzativo: — "Irivalíni, eco, a vida é bruta, os homens são cativos..." Eu não queria perguntar a respeito do cavalo branco, frioleiras, devia de ter sido o dele, na guerra, de suma estimação. — "Mas, Irivalíni, nós gostamos demais da vida..." Queria que eu comesse com ele, mas o nariz dele pingava, o ranho daquele monco, fungando, em mal assôo, e ele fedia a charuto, por todo lado. Coisa terrível, assistir aquele homem, no não dizer suas lástimas. Saí, então, fui no seo Priscílio, falei: que eu não queria saber de nada, daqueles, os de fora, de coscuvilho, nem jogar com o pau de dois bicos! Se tornassem a vir, eu corria com eles, despauterava, escaramuçava — alto aí! — isto aqui é Brasil, eles também eram estrangeiros. Sou para sacar faca e arma. Seo Priscílio sabia. Só não soubesse das surpresas.
Sendo que foi de repente. Seo Giovânio abriu de em par a casa. Me chamou: na sala, no meio do chão, jazia um corpo de homem, debaixo de lençol. — "Josepe, meu irmão"... - ele me disse, embargado. Quis o padre, quis o sino da igreja para badalar as vezes dos três dobres, para o tristemente. Ninguém tinha sabido nunca o qual irmão, o que se fechava escondido, em fuga da comunicação das pessoas. Aquele enterro foi muito conceituado. Seo Giovânio pudesse se gabar, ante todos. Só que, antes, seo Priscílio chegou, figuro que os de fora a ele tinham prometido dinheiro; exigiu que se levantasse o lençol, para examinar. Mas, aí, se viu só o horror, de nós todos, com caridade de olhos: o morto não tinha cara, a bem dizer — só um buracão, enorme, cicatrizado antigo, medonho, sem nariz, sem faces — a gente devassava alvos ossos, o começo da goela, gargomilhos, golas. — "Que esta é a guerra..." — seu Giovânio explicou — boca de bobo, que se esqueceu de fechar, toda doçuras.
Agora, eu queria tomar rumo, ir puxando, ali não me servia mais, na chácara estúrdia e desditosa, com o escuro das árvores, tão em volta. Seo Giovânio estava da banda de fora, conforme seu costume de tantos anos. Mais achacoso, envelhecido, subitamente, no trespassamento da manifesta dor. Mas comia, sua carne, as cabeças de alfaces, no balde, fungava. — "Irivalíni... que esta vida... bisonha. Caspité?" — perguntava, em todo tom de canto. Ele avermelhadamente me olhava. — "Cá eu pisco..." — respondi. Não por nojo, não dei um abraço nele, por vergonha, para não ter também as vistas lagrimadas. E, então, ele fez a mais extravagada coisa: abriu cerveja, a que quanta se espumejasse. — "Andamos, Irivalíni, contadino, bambino?" — propôs. Eu quis. Aos copos, aos vintes e trintas, eu ia por aquela cerveja, toda. Sereno, ele me pediu para levar comigo, no ir-m'embora, o cavalo — alazão bebedor — e aquele tristoso cachorro magro, Mussulino.
Não avistei mais o meu Patrão. Soube que ele morreu, quando em testamento deixou a chácara para mim. Mandei erguer sepulturas, dizer as missas, por ele, pelo irmão, por minha mãe. Mandei vender o lugar, mas, primeiro, cortarem abaixo as árvores, e enterrar no campo o trem, que se achava, naquele referido quarto. Lá nunca voltei. Não, que não me esqueço daquele dado dia — o que foi uma compaixão. Nós dois, e as muitas, muitas garrafas, na hora cismei que um outro ainda vinha sobrevir, por detrás da gente, também, por sua parte: o alazão façalvo; ou o branco enorme, de São Jorge; ou o irmão, infeliz medonhamente. Ilusão, que foi, nenhum ali não estava. Eu, Reivalino Belarmino, capisquei. Vim bebendo as garrafas todas, que restavam, faço que fui eu que tomei consumida a cerveja toda daquela casa, para fecho de engano.
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Deu no site do Tácito Costa www.substantivoplural.com.br
Delicadeza versus Canudo Fernando Monteiro
Você me desculpe, poeta Jairo, mas o que estão chamando de fetichismo em torno do “velho Livro” etc, representa uma DELICADEZA a mais perdida na voragem da vulgaridade “massmedia” que nos cerca, acachapante. E, para ficar bem de acordo com as novidades virtualmente do “caralho” (para usar a sua palavra), aqui vai a indelicadeza de uma metáfora grossa: ler um livro no Kindle (ou qualquer outro), em comparação com o contato direto das páginas impressas etc, é mais ou menos como fazer a mais profunda carícia oral, na amada, com um CANUDO de plástico. Deu pra entender? Jogue o canudo fora, poeta, e caia de boca nos velhos livros de sempre…, recém-descritos no post abaixo (do João da Mata – APOIADO!) com todos os requintes do fetichismo que eles seguirão inspirando, como as mulheres que a gente começa a beijar desde o alto da testa até a…
• Monteiro se refere a uma postagem que fiz lá no SP enaltecendo o livro digital e sugerindo que o livro de papel já era.
JL
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Enviado por Jarbas Martins
Honradíssimo por fazer parte do seu seletíssimo Papo Furado.Um abraço do terceiro maior poeta da cidade de Angicos.Abs.
• O terceiro maior poeta do bairro do Cuscus da cidade de Arcoverde agradece. Abração, amigo.
JL
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A Aurora de Nova York Federico García Lorca
A aurora de Nova Iorque tem Quatro colunas de lodo E um furacão de pombas Que explode as águas podres. A aurora de Nova lorque geme Nas vastas escadarias A buscar entre as arestas Angústias indefinidas. A aurora chega e ninguém em sua boca a recebe Porque ali a esperança nem a manhã são possíveis. E as moedas, como enxames, Devoram recém-nascidos. Os que primeiro se erguem, em seus ossos adivinham: Não haverá paraíso nem amores desfolhados; Só números, leis e o lodo De tanto esforço baldado. A barulheira das ruas sepulta a luz na cidade E as pessoas pelos bairros vão cambaleando insones Como se houvessem saído De um naufrágio de sangue
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Retrato de uma princesa desconhecida
Sophia de Mello Breyner
Para que ela tivesse um pescoço tão fino Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos Para que a sua espinha fosse tão direita E ela usasse a cabeça tão erguida Com uma tão simples claridade sobre a testa Foram necessárias sucessivas gerações de escravos De corpo dobrado e grossas mãos pacientes Servindo sucessivas gerações de príncipes Ainda um pouco toscos e grosseiros Ávidos cruéis e fraudulentos Foi um imenso desperdiçar de gente Para que ela fosse aquela perfeição Solitária exilada sem destino
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Do Desejo Hilda Hilst
E por que haverias de querer minha alma Na tua cama? Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas Obscenas, porque era assim que gostávamos. Mas não menti gozo prazer lascívia Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro. E te repito: por que haverias De querer minha alma na tua cama? Jubila-te da memória de coitos e de acertos. Ou tenta-me de novo. Obriga-me
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Uma mulher espera por mim Walt Whitman Tradução:José Paulo Paes
Uma mulher espera por mim, ela tudo contém, nada falta, No entanto, tudo ficou faltando se o sexo faltou, ou se o orvalho do varão certo estivesse faltando. O sexo contém tudo, corpos, almas, Significados, experiências, purezas, delicadezas, resultados, promulgações, Canções, mandamentos, saúde, orgulho, o mistério da maternidade, o leite seminal, Todas as esperanças, benefícios, doações, todas as paixões, amores, belezas, deleites da terra, Todos os governos, juízes, deuses seguiram pessoas da terra, Estes estão contidos no sexo como partes de si mesmo e justificativas de si mesmo. Sem pejo a mulher de quem eu gosto conhece e assegura a delícia do seu sexo, Sem pejo a mulher de quem eu gosto conhece e assegura as suas. Agora vou dispensar-me de mulheres frias, Vou ficar com ela que espera por mim e com aquelas mulheres que são apaixonadas e me satisfazem, Vejo que me compreendem e não me negam, Vejo que são dignas de mim, serei o marido vigoroso de tais mulheres. Elas não são em nada menos do que eu, Têm a face curtida por sóis luzentes e o sopro dos ventos, A sua carne possui a velha divina maleabilidade e energia, Sabem como nadar, remar, cavalgar, lutar, atirar, correr, golpear, recuar, avançar, resistir, defenderem-se, São irrevogáveis quanto a seus direitos - são calmas, claras, seguras de si próprias. Trago-as para perto de mim, vocês mulheres, Não posso deixá-las ir, faria bem a vocês, Estou para vocês e vocês estão para mim, não apenas para o nosso bem, mas para o bem de outros, Envoltos em vocês adormecem os maiores heróis e bardos, Recusam-se a despertar ao toque de qualquer homem, a não ser eu. Sou eu, mulheres, faço meu caminho, Sou duro, amargo, grande, indissuadível, mas amo-as, Eu não as faço sofrer além do necessário para vocês, Eu verto a substância para encetar filhos e filhas aptos para estes EUA, pressiono com o músculo rude e lento, Eu me abraço efetivamente, não escuto súplicas, Não ouso me afastar até que deposite o que, há muito, estava acumulado dentro de mim. Através de vocês faço escoar os reprimidos rios de mim mesmo, Em vocês contenho mil lágrimas progressivas, Sobre vocês eu enxerto os enxertos do mais amado de mim e da América, Os pingos que destilo sobre vocês farão crescer moças impetuosas e atléticas, novos artistas, músicos e cantores, As crianças que eu gerar sobre vocês hão de gerar crianças por sua vez, Hei de exigir homens e mulheres perfeitos do meu consumir amoroso, Espero que eles se interpenetrem com outros, como eu e vocês nos interpenetramos agora, Vou contar os frutos das ejeções abundantes deles, assim como conto os frutos das ejeções abundantes que eu agora dou, Vou aguardar as colheitas de amor, desde o nascimento, vida, morte, imortalidade, do que planto tão amorosamente agora
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Tipos de homens H. L. Mencken
Foto: obra de Tarsila do Amaral
O parente
A normal antipatia do homem por seus parentes, principalmente pelos de segundo grau, é explicada pelos psicólogos de várias maneiras torturantes e improváveis. A real explicação me parece muito mais simples. reside no simples fato de que todo homem vê em seus parentes (especialmente em seus primos) uma série de grotescas caricaturas de si próprio. Eles exibem as qualidades dele deformadas para o máximo ou para o mínimo; dão-lhe a impressão de que talvez seja assim que ele próprio se mostra ao mundo, e isto é inquietante — e por isso ferem o seu amour propre e lhe provocam intenso desconforto.
O contra-parente
O homem detesta os parentes de sua mulher pela mesma razão de que não gosta de seus próprios, ou seja, porque eles lhe parecem grotescas caricaturas daquela por quem ele tem respeito e afeição, ou seja, sua mulher. De todos eles, a sogra é obviamente a mais repugnante, porque ela não apenas macaqueia sua mulher, mas também porque antecipa o que sua mulher provavelmente se tornará. Aquela visão, naturalmente, lhe provoca náuseas. Às vezes, a coisa é mais sutil. Digamos, por exemplo, que sua própria mulher lhe pareça uma caricatura de uma irmã mais jovem e bonita. Neste caso, estando atado à sua mulher, ele pode vir a detestar a irmã — como sempre se detesta uma pessoa que simboliza o fracasso e a escravidão de alguém.
O dono da verdade
O homem que se gaba de só dizer a verdade é simplesmente um homem sem nenhum respeito por ela. A verdade não é uma coisa que rola por aí, como dinheiro trocado; é algo para ser acalentada, acumulada e desembolsada apenas quando absolutamente necessário. O menor átomo da verdade representa a amarga labuta e agonia de algum homem; para cada pilha dela, há o túmulo de um bravo dono da verdade sobre algumas cinzas solitárias e uma alma fritando no Inferno.
O romântico
Há uma variedade enorme de homens cujo olho inevitavelmente exagera o que vê, cujo ouvido ouve mais do que a orquestra toca e cuja imaginação duplica ou triplica as informações captadas por seus cinco sentidos. É o entusiasta, o crédulo, o romântico. É o tipo do sujeito que, se fosse um bacteriologista, diria que uma mísera pulga é do tamanho de um cachorro São Bernardo, tão bela quanto a catedral de Beauvais e tão respeitável quanto um professor de Yale.
O empresário
Existe um sólido instinto que põe o empresário abaixo de todos os outros profissionais e joga-lhes às costas um fardo de inferioridade social do qual ele não consegue se livrar, mesmo na América. O próprio empresário reconhece esta suposição de inferioridade, mesmo quando protesta contra ela. É o único homem, além do verdugo e do gari, que vive se desculpando por sua ocupação, para fazer parecer, quando atinge o objetivo de seu trabalho — i. e., ter ganho uma montanha de dinheiro —, que o dinheiro não era o objetivo de seu trabalho.
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Dona Doida Adélia Prado
Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora. Quando se pôde abrir as janelas, as poças tremiam com os últimos pingos. Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema, decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos. Fui buscar os chuchus e estou voltando agora, trinta anos depois. Não encontrei minha mãe. A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha, com sombrinha infantil e coxas à mostra. Meus filhos me repudiaram envergonhados, meu marido ficou triste até a morte, eu fiquei doida no encalço. Só melhoro quando chove.
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Nem a Rosa, nem o Cravo… Jorge Amado
As frases perdem seu sentido, as palavras perdem sua significação costumeira, como dizer das árvores e das flores, dos teus olhos e do mar, das canoas e do cais, das borboletas nas árvores, quando as crianças são assassinadas friamente pelos nazistas? Como falar da gratuita beleza dos campos e das cidades, quando as bestas soltas no mundo ainda destroem os campos e as cidades? Já viste um loiro trigal balançando ao vento? É das coisas mais belas do mundo, mas os hitleristas e seus cães danados destruíram os trigais e os povos morrem de fome. Como falar, então, da beleza, dessa beleza simples e pura da farinha e do pão, da água da fonte, do céu azul, do teu rosto na tarde? Não posso falar dessas coisas de todos os dias, dessas alegrias de todos os instantes. Porque elas estão perigando, todas elas, os trigais e o pão, a farinha e a água, o céu, o mar e teu rosto. Contra tudo que é a beleza cotidiana do homem, o nazifascismo se levantou, monstro medieval de torpe visão, de ávido apetite assassino. Outros que falem, se quiserem, das árvores nas tardes agrestes, das rosas em coloridos variados, das flores simples e dos versos mais belos e mais tristes. Outros que falem as grandes palavras de amor para a bem-amada, outros que digam dos crepúsculos e das noites de estrelas. Não tenho palavras, não tenho frases, vejo as árvores, os pássaros e a tarde, vejo teus olhos, vejo o crepúsculo bordando a cidade. Mas sobre todos esses quadros bóiam cadáveres de crianças que os nazis mataram, ao canto dos pássaros se mesclam os gritos dos velhos torturados nos campos de concentração, nos crepúsculos se fundem madrugadas de reféns fuzilados. E, quando a paisagem lembra o campo, o que eu vejo são os trigais destruídos ao passo das bestas hitleristas, os trigais que alimentavam antes as populações livres. Sobre toda a beleza paira a sombra da escravidão. É como u’a nuvem inesperada num céu azul e límpido. Como então encontrar palavras inocentes, doces palavras cariciosas, versos suaves e tristes? Perdi o sentido destas palavras, destas frases, elas me soam como uma traição neste momento. Mas sei todas as palavras de ódio, do ódio mais profundo e mais mortal. Eles matam crianças e essa é a sua maneira de brincar o mais inocente dos brinquedos. Eles desonram a beleza das mulheres nos leitos imundos e essa é a sua maneira mais romântica de amar. Eles torturam os homens nos campos de concentração e essa é a sua maneira mais simples de construir o mundo. Eles invadiram as pátrias, escravizaram os povos, e esse é o ideal que levam no coração de lama. Como então ficar de olhos fechados para tudo isto e falar, com as palavras de sempre, com as frases de ontem, sobre a paisagem e os pássaros, a tarde e os teus olhos? É impossível porque os monstros estão sobre o mundo soltos e vorazes, a boca escorrendo sangue, os olhos amarelos, na ambição de escravizar. Os monstros pardos, os monstros negros e os monstros verdes. Mas eu sei todas as palavras de ódio e essas, sim, têm um significado neste momento. Houve um dia em que eu falei do amor e encontrei para ele os mais doces vocábulos, as frases mais trabalhadas. Hoje só 0 ódio pode fazer com que o amor perdure sobre o mundo. Só 0 ódio ao fascismo, mas um ódio mortal, um ódio sem perdão, um ódio que venha do coração e que nos tome todo, que se faça dono de todas as nossas palavras, que nos impeça de ver qualquer espetáculo – desde o crepúsculo aos olhos da amada – sem que junto a ele vejamos o perigo que os cerca. Jamais as tardes seriam doces e jamais as madrugadas seriam de esperança. Jamais os livros diriam coisas belas, nunca mais seria escrito um verso de amor. Sobre toda a beleza do mundo, sobre a farinha e o pão, sobre a pura água da fonte e sobre o mar, sobre teus olhos também, se debruçaria a desonra que é o nazifascismo, se eles tivessem conseguido dominar o mundo. Não restaria nenhuma parcela de beleza, a mais mínima. Amanhã saberei de novo palavras doces e frases cariciosas. Hoje só sei palavras de ódio, palavras de morte. Não encontrarás um cravo ou uma rosa, uma flor na minha literatura. Mas encontrarás um punhal ou um fuzil, encontrarás uma arma contra os inimigos da beleza, contra aqueles que amam as trevas e a desgraça, a lama e os esgotos, contra esses restos de podridão que sonharam esmagar a poesia, o amor e a liberdade!
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O vício do poeta matuto Laélio Ferreira
Bob Motta quando apoja chupa peito e é mamador! Não é leite, o tal, de soja do que gosta o bom poeta… É de peito - ele se arreta, Bob Motta, quando apoja! Toda noite ele se arroja, caça tetas com ardor, cai de boca com furor, mama, chupa, apoja, mama - porisso leva essa fama: chupa peito e é mamador!
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Enviado pela ONG Baobá
Natal, 02 de setembro de 2010.
Caros Amigos,
Compartilho um pensamento da cantora Olívia Byington “Nunca estou satisfeita e parada no mesmo lugar. As coisas entram na minha vida e me revolucionam”. 19 de setembro (domingo) Participe do “3º Passeio Ciclístico de Natal”, pedale por ar limpo, por uma cidade saudável, pela construção de linhas expressas para bicicletas, implantação de bicicletários em prédios públicos e principalmente pelo Plano Municipal Arborístico em Todas as Vias e Passeios Públicas da nossa cidade. Concorra a vários sorteios para viajar e se hospedar em magníficos encantos do nosso litoral. Doe Alimento A inscrição é mediante 01 kg de alimento que será destinado a Casa do Bem, para as suas ações humanitárias.
Inscrição/lojas: Bike Aventura Bike Sport Favorito Supermercados RapaNui RedeMais Supermercados: Daterra, Pajuçara, Compre Bem e Veneza Terral
Sorteio de um final de semana nos hotéis:
Chalemar Hotel, Baia Formosa Pousada Cabo Verde, em Pipa Hotel Marinas, em Tibau do Sul Praia Azul Hotel, em Ponta Negra Pousada Casa de Taipa, em São Miguel do Gostoso Hotel Costa Atlântico, em Areia Branca Dromedunas São 10 bilhetes com direito a um acompanhante, para o famoso passeio nos Dromedários, nas dunas de Genipabu. Manoa Parque São 05 senhas com direito a um acompanhante, para conhecer também a Área de Proteção Ambiental dos Parrachos de Maracajaú. Ecosacolas, Forte e Filmes Serão mais 15 sorteios para os ciclistas participantes: 05 ecosacolas do Espaço Yoga Harmonia; 05 filmes a “A Revolta” sobre Frans Krajcberg, da OnG Baobá e mais 05 entradas com o acompanhante para visitação na Fortaleza dos Reis Magos. Local e horário A largada será às 9:00hs, defronte ao Parque das Dunas (Bosque dos Namorados). Empresas que Apoiam ACT – soluções em tecnologias Evetech Pega Fogo Eventos Arte Film Lucgraf Marazul Turismo Aquacoco Órgãos Governamentais Parque das Dunas/Idema Emprotur Semob CPRN Movimentos Sociais Casa do Bem SOS Ponta Negra DCE/UFRN Bicicletada Natal Federação Ciclismo do RN Comitê 9840 Festa Vamos juntos celebrar o “Dia da Árvore, o Dia Internacional da Paz e o Dia Mundial sem Carro.”
Um forte abraço, Haroldo Mota (84)9927.6555
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Exercício inútil Joca Souza Leão jocasouzaleao@gmail.com Enviado pelo autor
Fala sério! Que danado se passa na cabeça de um candidato em vésperas de eleição? À luz (luz?) de alguns indícios e circunstâncias, fiz o exercício (inútil, reconheço, absolutamente inútil) de perscrutar, para tentar penetrar no âmago de sua mente e especular sobre suas convicções e motivações, nem sempre saudáveis nem minimamente razoáveis ou lógicas, para conquistar votos. Esta semana, eu tava na cama depois do almoço, curtindo uma gripe daquelas de nariz entupidaço, tosse seca, febre e astenia até na alma, depois de uma noite pessimamente dormida, quando passou a porra de um carro de som por baixo do meu travesseiro. Passou, não. Parou. E ficou lá, repetindo até encher o saco, a todo volume, um jingle insuportável, com o nome e o número de um candidato a deputado, ilustre desconhecido (não sei quem inventou essa asneira de desconhecido ser ilustre, mas o fato é que quando a gente diz ou escreve “desconhecido”, o “ilustre” se oferece para antecedê-lo). O que se passa na cabeça do sacripanta candidato (ou candidato sacripanta) para azucrinar o juízo do eleitor? Óbvio, pô! Sacanear com a gente. “Como esses sacanas não vão mesmo votar em mim, eles vão ver o que é bom pra tosse...” (e se o cidadão estiver resfriado quiném eu tava, terá, mesmo, sucessivos acessos – de tosse e de raiva). E as convenções partidárias, hein? São piores ainda. Teve uma aqui perto de casa no final de junho. Mas, quem sou eu pra reclamar? Nas redondezas existem pessoas mil vezes mais incomodáveis. São vários hospitais e escolas, além de milhares de residências (com velhinhos, crianças, bebês e gente talvez mais doente do que eu com meu modesto resfriado). “Então, vamos soltar fogos! Muitos fogos! De estouro, claro. Uma salva de quinze em quinze minutos, durante todo o dia. E quando o candidato chegar, no final da tarde, a apoteose: dez minutos de ininterrupto bombardeio”. Isso, para infernizar a vida dos moradores e de quem trabalha ou estuda por aqui. E em relação aos transeuntes, nada? “Tudo! Vamos estacionar mais de cem ônibus nas cercanias. Isso deve ser o bastante pra dar um nó no trânsito de toda a região. Nossa convenção será inesquecível.” E foi. Como você vê, é fácil sacar o que se passa na cabeça dessa gente. Outro dia, dei-me à pachorra de contar o número de painéis, um encostado no outro, todos do mesmo candidato, na calçada de uma avenida: 36. Isso, trinta e seis painéis, um colado no outro. É ilegal. Mas e daí? “É a repetição da mensagem que consolida o voto”, diz o capadócio candidato, com impudente convicção. Aliás, os candidatos (e seus marqueteiros) repetem lendas na esperança de que, com a repetição, se tornem verdades. Uma delas, atribuem a Joseph Goebbels, o ministro da propaganda do 3º Reich de Hitler (como se vê, os caras tentam se inspirar em gente da melhor qualidade): “De tanto repetir uma mentira, ela acaba se transformando em verdade”. Não foi bem isso que disse o nobre colega. Mas, “Uma grande mentira sempre tem certa credibilidade”. Desde que verossímil, pertinente e aderente, obviamente. Pode-se repetir um milhão de vezes que borboleta é ave que ninguém vai acreditar. Todo mundo sabe que “borboleta só é ave na cabeça da mulher”, como diz o frevo de Capiba. Agora, se repetirem por aí que Paulo Maluf passou pelo Mercado de São José e roubou uma porrada de frangos, é verossímil; ele já roubou frango antes (da merenda escolar, lembra?). E por isso mesmo tá inelegível; é, finalmente, reconhecido oficialmente como ficha suja, imunda, podre. Goebbels era um camarada perverso, mas não era bobo de afirmar uma bobagem como essa de que mentira repetida vira verdade. O rapaz conhecia teoria e prática da comunicação como gente grande. Daqui a 26 dias, felizmente, acaba o período da propaganda eleitoral e a vida no Recife volta à sonoplastia normal: carrocinhas e bicicletas vendendo CD pirata com o som nas alturas, locutores de lojas fazendo pregão nas calçadas, música ao vivo em bares localizados em bairros residenciais, carros com caixas de som na mala e picapes, na carroceria, alto-falantes em igrejas evangélicas e, claro, carro de som anunciando a mais nova porcaria ao lado da sua casa, com preços de lançamento: “Aproveite!”
Joca Souza Leão é publicitário e cronista.
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Soneto do verão inaugural Jarbas Martins
Antes, bem antes que o verão estenda seus panos nos varais e seus cajus maturem o vão instante e antes que os ventos se soltem e cantem a tua lenda,
bem antes que do céu o ouvido atenda ao grito da gaivota que transluz, salte o peixe do mar, no ar esplenda o seu rastro veloz de escama e luz,
possa eu te amar em tua brônzea cama, em nossas noites de paixão e jogo, num entregar-se de dunas. sal e fogo,
murmúrios, quietudes, paz e drama, condenado ao jardim de tuas delícias, ao inferno (ateu céu), nossas primícias.
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Eu não quero ter 1 milhão de amigos Ivan Lessa
Alguma alma boa andou se lembrando de mim semana passada. Ou algum temperamento satânico. Recebi, como se enviado por velho amigo, um convite para fazer parte de uma dessas comunidades virtuais que proliferam mundo afora supostamente aproximando as pessoas. Facebook, MySpace, Twitter, todo mundo sabe quais são. Como a humanidade nasceu e morrerá sozinha, elas fazem o maior sucesso e o chamado social networking, para dar seu nome original, aliviam um pouco a nossa inata solidão. Por alguns momentos no decorrer de um dia canalha (os solitários só enxergam a canalhice dos dias), ou, na maior parte dos casos, algumas horas, é um tal de trocar dados pessoais (“sou moreno, gosto de música popular, futebol e tacar fogo em animais de pequeno porte”, ou então, “minha série favorita de televisão é CSI Miami, Leonardo DiCaprio faz minha praia e já li pelo menos 3 livros”), fotos incrementadas, endereços de outros infelizes, o diabo. Isso me lembra um bocado, pela amostragem que me amostraram, aqueles cadernos que, no ginasial, as mocinhas mantinham e faziam rodar pelos colegas. Esses cadernos levavam sempre um desenho do Alceu Penna recortado na capa, e constava de página após página de perguntas, sempre numa letra redondinha e caprichada. Os cadernos ficavam uma meia-hora ou mais com colegas dos dois sexos, como os haviam então*, e eram devidamente respondidos. A sério e com uma ponta de humor. Pronto, uma vez preenchidas as páginas, estava sedimentado mais um relacionamento que, se não fosse para a vida inteira, duraria o que devem durar as coisas e as artes ginasianas. Lembro-me de certas perguntas invariáveis, sempre feitas na segunda pessoa do singular, em todos esses cadernos (a marca era “Colegial”; sua capa azul). “Tens namorado ou namorada?” “Quais os seus astros de cinema prediletos?”, “E no cinema nacional?”. Uma dose de malícia fazia parte do questionário, “Onde pretendes passar a lua-de-mel?”, que os malandros mais safados respondiam, “Na cama”. Mais tarde, as donas do caderno, junto com as amiguinhas, liam as respostas entre risinhos. Impossível esquecer a pergunta final: “E por fim o que achas da dona deste caderno?”. Assim, não contando o balcão do cine São Luiz, no Largo do Machado, domingo de manhã, quando levavam um filme em pré-estreia, fomos nos conhecendo. Conhecendo pouco, muito pouco, quase nada, como no poema do Drummond, mas o suficiente para viver, chutar a bola para sempre. Flashback. Ou flash forward. Como eu ia dizendo, antes da tergiversação habitual, o tal do convite eletrônico de um suposto velho amigo. Era simples e direto. Dizia que Fulano de Tal (e aí seu nome por demais meu conhecido) queria ser meu amigo e que, caso eu topasse, bastava clicar numa das duas palavras abaixo: um “sim” e um “não” dentro de retângulos vermelhos. Claro que eu não ia dizer não ao bom camarada. Teclei lá que sim, que queria ser amigo dele, embora, já assim me considerasse. Cibernética é cibernética, manjo pouco, embarquei nessa. O verbo “embarcar” é o correto. No dia seguinte, na minha caixa eletrônica de correios, havia pilhas de pessoas querendo ser minhas amigas. Era como se eu tivesse cantado eletronicamente o “Eu quero ter um milhão de amigos”, do bom Roberto Carlos, e tivessem topado. Só um probleminha. Eu não quero ter um milhão de amigos. Dois ou três (é o que sobrou) me bastam. Dá para esse bate-bola de fim de jogo. Essa nova multidão virtual virou uma trabalheira. Eletronicamente, ou sei-lá-o-quê, o raio do sítio esse entrou pelo meu provedor de correspondência abrindo a porta com um pontapé e manteve refém toda minha longa lista de contatos. Atenção: eu disse “contatos”. Não disse “amigos”. Entre os contatos, lá se foram, para um suposto beleléu cibernético, meu contador, meu banco, meu advogado, gente que já partiu desta para melhor (não tenho coragem de dar uma “deletada” no arquivo deles que, sentimentalmente, guardei), sem falar nos chatos do imposto predial, do fornecedor de TV em HD e por aí afora. E botemos “aí afora” nisso. Pior é o que o sítio em questão tinha nome de bolero vagabundo: “Que Pasa”. Que nunca, jamais Lucho Gatica gravaria mesmo no auge de sua decadência. Eu deveria ter desconfiado. E o grilo do vírus? Achei que vinha, além da besteira que veio, o inferno virtual de um potente vírus, malware dos mais mal encarados, troiano safado, esses bichos. Até agora, nada. E bato na madeira três vezes. Toque, toque, toque. História mais desinteressante não pode haver. Valeu apenas pela saudade daqueles cadernos que corriam a sala de aula e o recreio do velho colégio. Que, esse sim, passou. Passou mesmo.
* Oi, e hoje tem mais de dois? Ou será mais uma inalcançável, hermética e complexa metáfora do Ivan?
JL
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Estudo preliminar concluiu que maconha reduz a dor crônica
Fumar maconha em cachimbo pode reduzir significativamente a dor crônica em pacientes com nervos danificados, revelou um pequeno estudo feito no Canadá. O experimento, envolvendo 23 participantes, também melhorou o sono e reduziu a ansiedade entre os que fumaram a droga. Em artigo publicado na revista científica Canadian Medical Association Journal, os cientistas disseram que são necessários mais estudos, em larga escala e com a utilização de inaladores. Comentando o trabalho, especialistas britânicos disseram que a melhoria na dor foi relativamente pequena, mas acrescentaram que o trabalho pode ter implicações importantes. Entre 1 e 2% da população sofrem de dor neuropática crônica - dor resultante de problemas de sinalização entre os nervos -, porém há poucos tratamentos disponívels. Segundo relatos de alguns pacientes que sofrem dessa condição, fumar maconha melhora seus sintomas. Isso levou pesquisadores a investigar se a ingestão de canabinóides - as substâncias químicas presentes na erva cannabis - em forma de pílula poderia produzir o mesmo efeito. A equipe da McGill University, em Montreal, disse, no entanto, que faltam estudos clínicos com pacientes fumantes da erva. Potências Durante o estudo, foram usadas maconhas com três potências diferentes - contendo 2,5%, 6% e 9,4% do ingrediente ativo tetrahidrocanabinol, THC - e placebos. Sob supervisão de enfermeiros, usando cachimbos, os participantes inalaram uma dose única, de 25mg de maconha, três vezes ao dia durante cinco dias. Depois de um intervalo de nove dias, eles repetiram a operação até completar quatro ciclos. Comparados aos pacientes que ingeriram placebos, os participantes que receberam as maiores doses de THC sentiram menos dor, dormiram melhor e sentiram menos ansiedade, concluíram os autores do estudo. O líder da equipe, Mark Ware, disse: "Até onde sabemos, este é o primeiro estudo clínico com pacientes não internados usando maconha fumada de que se tem notícia". Ware disse que estudos de longo prazo, com cannabis mais potentes e usando inaladores especiais que permitem maior controle das dosagens, são necessários para que se obtenha resultados mais precisos e também para que se avalie a segurança do tratamento. Repercussão Segundo o médico Tony Dickenson, do University College of London, vários pacientes com dor crônica dizem se beneficiar da cannabis, mas ele alerta que a auto-medicação é perigosa. Dickenson notou que a redução da dor revelada pelo estudo foi pequena, mas acha que a droga pode fazer diferença para pacientes com dor crônica que sofrem de insônia e depressão por causa de sua condição. Também valeria a pena investigar se inalar a droga seria mais efetivo do que ingeri-la por via oral, ele acrescentou. "Talvez seja importante encontrar pacientes que respondam particularmente bem (à cannabis) pois é possível que ela não seja adequada para alguns grupos, como pacientes mais idosos". "(Os pesquisadores) não conseguiram tantos voluntários quando queriam para os testes e isso demonstra como esse tipo de pesquisa é difícil de realizar", acrescentou. Outro especialista, o neurocientista Peter Shortland, do St Bartholomew's Hospital e da London School of Medicine and Dentistry, ressaltou o fato de que "fumar a droga não produziu os efeitos mentais comumente associados à cannabis de potência total". Para ele, o estudo foi um passo importante e precisa ter continuidade.
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Tudo mal: Jabor Marcos Silva Enviado pelo autor
Arnaldo Jabor foi um bom diretor de cinema, "Tudo bem" e "Toda nudez será castigada" são frutos tardios do Cinema Novo (pós-Macunaíma) que merecem ser revistos sempre. Ele optou, nos últimos longos e insuportáveis anos, por Imprensa e Televisão. Seu estilo (?) é lamentável. A mescla de Glauber Rocha com Paulo Francis deu em nada ou em tudo de ruim - Tudo mal! Criticar Lula é normal e até necessário. Assim como criticar o PSDB é normal e até necessário. Mas Jabor assumiu o pífio papel de ideólogo anti-Lula. Para tanto, renunciou a elementos mínimos de argumentação lógica em nome da ideologia peessedebista. Daí, FHC é o bem, Lula é o mal. Se os papéis se inverterem, continuaremos na mesma: é preciso argumentar com um mínimo de análise e demonstração. FHC e Lula não nasceram do nada nem fizeram o país a sua imagem e semelhança - não são Deus! Chamar os oponentes de soviéticos e bolch eviques é ignorar até a queda do Muro de Berlim! Insulto não é explicação. Discussão política não pode se deter em moral do ressentimento - ódio contra os que estão por cima. Os que estão por cima resistem muito bem a esse ódio, que paralisa apenas quem odeia. É preciso analisar e apresentar argumentos alternativos efetivos, diferentemente do que faz uma torcida frustrada. Melhor rever "Tudo bem" e "Toda nudez será castigada".
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Enviado pela Ong Baobá
Natal (RN), 30 de agosto de 2010.
Caros amigos,
Semana passada, fiquei impressionado com a irracionalidade e a atitude com que tratamos nossos companheiros vivos deste planeta. Principalmente os grandes responsáveis por absolver em parte os 8 bilhões de toneladas de carbono promotor das mudanças climáticas, que despejamos anualmente na atmosfera. Quatro árvores foram cortadas, na praia da Pipa, rua situada em Ponta Negra, defronte uma loja. Uma tamarineira, uma tulipa tropical e uma algarobeira já foram totalmente sacrificadas, restando um oiti que teve seus galhos totalmente cortados. Segundo as pessoas contratadas, para realizar o serviço, usando motoserra e machado, alegaram que o proprietário do imóvel, recebeu autorização da Semsur, o que acho improvável, já que as árvores encontravam-se em perfeito estado de conservação. Em todo o caso, foi pessoalmente nesta segunda-feira, 30 de agosto, esclarecer o caso na referida Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, para entender melhor este incidente. Quais foram os motivos que levaram esse proprietário a tomar essa medida tão violenta? Segundo um morador da rua, as árvores estavam no passeio público há mais de 25 anos. Com uma cópia da autorização do “Parecer Técnico de nº 377/2010, da SEMSUR, fiquei espantado e indignado sobre um dos problemas constatados: “raízes com afloramento danificando a calçada, meio-fio, leito viário, redes subterrâneas e estrutura do imóvel” e da conclusão e sugestão de procedimento: “posicionamos favoravelmente a retirada das três plantas = Tamarindo, Algaroba e Tulipa com substituição por espécies nativas em local adequado...” e no item dois da Autorização para Remoção de Árvore nº 377/2010 segue o seguinte texto: que se proceda ao plantio de três espécime nativo adaptado ao local. O que podemos concluir sobre este caso?
Primeiro - podemos citar os benefícios que elas proporcionavam a sociedade: absorção de carbono, anteriormente comentado; conforto térmico; produção de frutos; floração para embelezar a paisagem; abrigos para animais e fornecimento de alimentação para abelhas, aves e animais.
Segundo – Em momento algum, foi mencionado o volume ou credito que estas árvores absorvem carbono.
Terceiro – Quanto tempo levará as novas árvores para realizar o trabalho que as anteriores prestavam.
Quarto – Contestamos o laudo técnico, sobre o afloramento das raízes, em momento algum elas estavam danificando a calçada, o meio-fio ou leito viário.
Quinto – Que valores e exemplos estamos deixando para os nossos filhos? O desmatamento é uma importante causa do aquecimento global. A proteção das árvores deveria se tornar uma prioridade absoluta quando levamos em conta o aquecimento global.
Sexto – Concluimos que as árvores simplesmente foram abatidas porque não são brasileiras ou melhor dizendo nativas. O oiti, foi poupado porque ele É brasileiro. O que importa? Se são africanas, brasileiras ou paraguaias.... Elas são...
O tamarindo é originaria das savanas da África tropical da família das leguminosas. Chegou ao Brasil, trazido pelos portugueses no início do século 17. O tamarindeiro é capaz de produzir durante 200 anos e pode chegar aos 30 metros de altura. A tulipa tropical, é uma árvore africana nativa do Quênia e da Uganda, é uma espécie com crescimento considerado, na floração, possui um lindo conjunto de flores. O oiti é uma árvore nativa do Brasil e mais comum no Nordeste. Por ser muito resistente é usada amplamente no paisagismo urbano. A algarobeira, foi introduzida no Brasil em 1942, especialmente no nordeste, na Estação Agrícola de Serra Talhada/PE, com semente originarias dos Andes do Peru. Sem mais...
Atenciosamente,
Haroldo Mota
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O cenário bioético no Brasil César Augusto Soares da Costa Fonte:http://www.eumed.net/cursecon/ecolat/br/09/casc.htm Enviado por Geraldo Barboza de Oliveira Jr
Que relação poderíamos estabelecer entre ética e vida? Quais seriam os limites de um discurso ético na sociedade contemporânea? Tendo em conta estes questionamentos, próprio de uma época de fragmentação do conhecimento e que submete o sujeito à sua lógica, emerge uma nova possibilidade de discussão em torno ao problema da vida. Pois a Bioética chegou ao Brasil em meados da década de 90. Ainda assim, neste período o Conselho Federal de Medicina (CFM) lança o primeiro periódico na área. Após esta iniciativa se organiza um pensamento comum em torno da questão com a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), tal como a Sociedade Brasileira de Bioética (SBB).
Hoje percebemos que a bioética compreende o estudo das dimensões morais das ciência da vida, utilizando uma variedade de metodologias éticas num contexto mais amplo, sendo uma temática que ganha aceitação em grande parte como uma tentativa de apresentar reflexões em torno de novos dilemas éticos que se apresentam ao mundo científico. O termo surgiu no início da década de 70 nos Estados Unidos, onde Van Potter foi o primeiro a utilizar o neologismo em seu famoso Bioethics: bridge to the future (1971). Atualmente a bioética ganha uma surpreende aceitação em escala global, em parte como uma tentativa de apresentar sinais de como lidar com os novos problemas éticos que o mundo técnico-científico levanta ao interferir no mundo da vida. Logo, com as Comissões Nacionais de Bioética, os centros de estudos que se multiplicam, as centenas de publicações na área que emergem e os congressos são uma evidência desta nova percepção. Aqui na América Latina e no Brasil, onde a bioética é mais recente, já possuímos inúmeras iniciativas sobre esta temática. Prova disso, são os enfoques inter e transdisciplinares, onde a bioética procura, na dinâmica de sua execução a interagir com as diversas instância do saber, indo de encontro aos problemas do mundo contemporâneo: da ciência e da vida, do antropológico ao ecológico, do pedagógico ao jurídico, do biológico ao social, do humanístico ao transcendente. Isto significa, novos tempos para a construção do saber! Depois de pouco mais de quarto de século do aparecimento desta nova “área” vista como ciência ou movimento intelectual como alguns a denominam, a bioética se apresenta sob vários paradigmas, característicos da fragmentação ética reinante na sociedade chamada de pós-moderna. Vislumbrando o surgimento de temas éticos, que tratam das questões primordiais ligadas ao início da vida, do desenvolvimento da pessoa, aborto, eutanásia, doação de órgãos, paternidade responsável à temas como políticas de população, engenharia genética, ecologia, saúde e efetivação da cidadania, nos questionamos: o que nos aguarda no próximo milênio e qual a contribuição que as diversas áreas do conhecimento podem dar em termos de uma reflexão aberta ao debate epistemológico contemporâneo? Eis o ponto de partida para uma discussão responsável.
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A pobreza social a partir da bioética Alexandre Andrade Martins * Fonte: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=34933 Enviado por Geraldo Barboza de Oliveira Jr
A pobreza existente no mundo assombra os olhos de quem é sensível ao sofrimento do semelhante. A situação de miséria, de opressão e de exclusão existente no planeta Terra é de causar arrepios, incomoda alguns, mas infelizmente não passa de um arrepio em outros, que motivados pela ganância consumista do capitalismo e impregnados pelo individualismo são indiferentes ao sofrimento alheio. Tragicamente a pobreza marca a realidade de algumas nações, sobretudo na África, na América Latina e na Ásia. Uma marca cravada no coração do planeta, que exige uma atitude capaz de mudar tal situação. A ONU traçou metas para o Desenvolvimento do Mundo na sua assembléia geral de 2002. Seu objetivo principal é reduzir a pobreza no mundo em 50% até 2015. Um grande desafio, um dos maiores da humanidade, para não dizer o maior. Sendo assim, a bioética não pode ficar alheia à dor dos pobres. A bioética, como um saber interdisciplinar que defende a vida e a sua dignidade, precisa contemplar o rosto sofrido da pobreza, pois aí está a grande ameaça à vida no mundo subdesenvolvido. Por muito tempo a bioética ficou restrita a uma reflexão ligada ao mundo médico-científico dos países desenvolvidos. Daí nasceu e se consolidou o principialismo, doutrina regida por princípios fundamentais para conduzir as pesquisas envolvendo seres vivos e a aplicação de novos saberes. São eles: principio de beneficência, princípio de não-maleficência, princípio de autonomia e princípio de justiça, que sempre ficou na tangente dos outros três nos países ricos, sendo acionado apenas quando ocorriam expressivas injustiças promovidas na alocação de recursos públicos. O princípio mais reconhecido seria o de autonomia, pois, dentro de uma lógica liberal vivida por esses países, todos têm prioridades sobre si mesmos em vista do bem comum. Esse modelo bioético pouco volta-se para o pobres porque parte de sujeitos sociais em grau de igualdade. O princípio de justiça chega mais próximo da pobreza, mas ficou na tangente. A bioética extrapolou as fronteiras do mundo desenvolvido e chegou às nações em desenvolvimento e às pobres. Assim ela chegou na América Latina e na África, mas trouxe consigo o padrão principialista, insuficiente para essas realidades marcadas pela desigualdade, pela injustiça e com grande pobreza. Durante anos, a bioética feita no terceiro mundo não olhou para os pobres com um olhar de sensibilidade e não viu aí um campo de reflexão e atuação, porém isso começa a mudar e atualmente damos destaque para a reflexão bioética feita na América Latina, que começa a dar seus primeiros passos sozinha. Passos em direção aos problemas sociais e aos pobres. O foco principal da reflexão muda, deixa de ser o que acontece "lá em cima" com as pesquisas científicas referentes à aplicação de novas técnicas acessíveis apenas aos ricos (camada muito pequena na América Latina, cuja principal marca é a desigualdade) e volta-se "cá para baixo", onde estão os sujeitos mais vulneráveis, excluídos dos avanços técnico-científicos, porque não podem pagar pela tecnologia e ainda morrem em filas de hospitais (sem atendimento), de fome e de doenças infecciosas facilmente controladas. Apenas depois dessa mudança de foco ocorrida na América Latina, podemos falar de pobreza social a partir da bioética, pois antes ela estava em segundo ou terceiro plano para esse saber caracterizado pelo principialismo dentro da elite científica e social. As barreiras de uma bioética elitista estão sendo rompidas, mas ainda de forma tímida. Os pobres ganham centralidade na reflexão bioética, mas, por outro lado, essa reflexão ainda não chegou até eles, não se popularizou, continua nas mãos de uma elite acadêmica e tem pouquíssima força de intervenção social capaz de transformar a realidade desigual e pobre. Os interesses das elites, tanto das políticas como dos ricos e das empresas que financiam pesquisas, não estão voltados para combater à pobreza e promover o bem comum. Ainda permanecem centrados no interesse econômico com base única e exclusivamente no lucro e no poder. Os pobres para a bioética são sujeitos concretamente vulneráveis com a vida ameaçada de todos os lados e excluídos dos benefícios proporcionados pelas descobertas técnico-científicas, sobretudo no campo das ciências da saúde, pois não podem pagar pelo saber e não existem políticas públicas eqüitativas capazes de oferecer um bom atendimento de saúde e satisfazer as necessidades básicas para uma vida digna. Os pobres clamam por justiça e libertação. Clamores que fazem a bioética dar mais importância para o princípio de justiça, sem ser principialista, mas que seja capaz de uma intervenção na sociedade orientada para os mais vulneráveis. Assim começa a falar de uma bioética de intervenção, em defesa dos interesses e direitos históricos das populações economicamente e socialmente excluídas do processo desenvolvimentista mundial (GARRAFA; PORTO, 2003 p.35). Os pobres foram excluídos do desenvolvimento histórico do mundo, o qual evoluiu, mas gerou mais pobreza, miséria e exclusão. Uma evolução para poucos, pois seus benefícios são para alguns enquanto a maioria vive aquém do desenvolvimento, vítimas do poder econômico e da injustiça social. Em vista da realidade dos pobres, conceitos como equidade, igualdade, justiça social e libertação tornam-se centrais. Reconhece-se e existência clara de uma vulnerabilidade na dimensão social e ela está relacionada à pobreza e à exclusão. No processo desse reconhecimento por parte da bioética latino-americana, temos a contribuição crucial da Teologia da Libertação, uma corrente do pensamento teológico, que para além das fronteiras da religião católica, foi gestada no ventre sofrido dos pobres do continente. Ela fez opção preferencial pelos pobres, mostrou a grande situação de iniqüidade existente no subcontinente americano e que algo precisa ser feito em vista da transformação da sociedade, da libertação dos pobres, oprimidos e excluídos. Uma transformação vinda de baixo, dos meios populares, à luz dos direitos à vida digna, na luta pela libertação e na força da fé. A Teologia da Libertação defende a dignidade dos pobres e vulneráveis e não a faz guiada por proposições abstratas, mas sim apontando os responsáveis pelas mazelas sociais e identificando caminhos para a libertação (SIQUEIRA; PORTO; FORTES, 2007, 175). A bioética nutre-se do diálogo. Assim ocorre no diálogo com a Teologia da Libertação, que temos como fruto o voltar-se para os pobres e fazer opção por eles, por uma vida digna. A pobreza é um rosto sofrido a ser contemplado pela bioética no mundo inteiro, sobretudo nos países subdesenvolvidos. Algo que leva a uma intervenção na sociedade para a libertação e a vida digna de todos e não apenas dos ricos. Para a bioética, os pobres são a população vulnerável, a qual precisa ser protegida e para a qual precisa devolver os direitos negados pela evolução da história para então chegarmos a uma maior igualdade e, no mínino, reduzir a pobreza mundial pela metade, como deseja a ONU. Porém igualdade não é ponto de partida, mas, sim, ponto de chegada para a justiça social e a garantia do direito a uma vida digna. A eqüidade vem antes para se chegar à igualdade, pois ela reconhece as necessidades básicas diversas nos sujeitos diferentes e desiguais para atingir objetivos iguais. Os pobres, a partir da bioética, são os sujeitos mais vulneráveis concretamente existentes no mundo. Eles são lançados nessa situação marginal, fincando entregues à própria sorte e sofrendo as dores de uma injustiça histórica. Sofrem todo tido de exclusão e opressão; são vítimas da desigualdade e ficam às margens do avanço técnico-científico mundial; estão enfermos e sem atendimento de saúde; vivem em situação precária de moradia, de higiene e de saneamento básico; sofrem com o desemprego e a carência educacional; são descriminalizados pela cor, pela etnia e pelo gênero e nada conseguem fazer, pois, mantidos na ignorância, são manipulados pela ideologia dominante que está nas mãos dos interesses das elites. A bioética precisa intervir nessa realidade, chegar às camadas populares e formar consciência capaz de levar à luta pela dignidade de todos, com sensibilidade, vigor, coragem, esperança e fé.
Bibliografia
ANJOS, M. F. Bioética em perspectiva de libertação. In: GARRAFA, V.; PESSINI, L. (orgs). Bioética: poder e injustiça. São Paulo: Loyola, 2003, p. 455-465. ______. Teologia da Libertação e bioética. In: PRIVETERA, S. Dicionário de bioética. Aparecida: Santuário, 2000, p. 1068-1070. BERLINGUER, G. Bioethics, power and injustice. . In: GARRAFA, V.; PESSINI, L. (orgs). Bioética: poder e injustiça. São Paulo: Loyola, 2003, p. 45-58. CELAM. Documento de Aparecida. Brasília: edições CNBB; São Paulo: Paulinas; Paulus. 2007, p. 301. GARRAFA, V; PORTO, D. Bioética, poder e injustiça: por uma ética de intervenção. In: GARRAFA, V.; PESSINI, L. (orgs). Bioética: poder e injustiça. São Paulo: Loyola, 2003, p.35-44. PESSINI. L.; BARCHIFONTAINE, C. P. Algumas questões para o futuro da bioética na região latino-americana. In: ______; ______ (orgs). Bioética na ibero-américa: história e perspectivas. São Paulo: Centro Universitário São Camilo; Loyola, 2007, p. 369-379. SIQUEIRA, J. E.; PORTO, D.; FORTES, P. A . C. Linhas temáticas da Bioética no Brasil. In: SIQUEIRA, J. E.; ANJOS, M. F. (orgs). Bioética no Brasil: tendências e perspectivas. Aparecida: Idéias e Letras; São Paulo: Sociedade Brasileira de Bioética, 2007, p. 161-184. GRACIA, Diego. Fundamentación y enseñanza de la bioética. 2. ed. Bogotá: editoral El Buho, 2000. GUTIÉRREZ, G. Teologia da libertação. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1983. 275 p.
Religioso Camiliano. Filósofo
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Tardio e profundo Christian Morgenstern
Maliciosa como uma palestra dourada, esta noite começa. Comemos as maçãs dos mudos. Fazemos uma obra, entregamo-la nas mãos da nossa estrela. Encontramo-nos no Outono das nossas tílias como vermelho de bandeira, em meditação, como hóspedes do Sul, queimados. Nós juramos ao Novo, por Cristo, unir o pó ao pó, os pássaros ao sapato migrante, o nosso coração a uma escada na água. Nós juramos ao mundo a sagrada promessa da areia, Nós juramo-la de boa vontade, Nós juramo-la bem alto de cima dos telhados do sono sem sonhos e agitamos o cabelo branco do tempo...
Eles gritam : Vós blasfemais!
Nós já sabemos isso há muito tempo. Já sabemos isso há muito tempo, mas que fazer? Vós moeis no moinho da morte a branca farinha da promessa Vós colocai-la à frente dos nossos irmãos e irmãs
Nós agitamos o cabelo branco do tempo.
Vós avisais-nos: vós blasfemais! Nós sabemo-lo bem: caia a culpa sobre nós. Caia a culpa de todos os avisos e sinais sobre nós e venha o mar gorgolejante, a couraçada rajada da conversão, o dia da meia-noite, que venha o que nunca foi!
Venha um homem da sepultura.
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O Vizinho Franz Kafka
Meu negócio descansa inteiramente sobre os meus ombros. Duas senhoritas com suas máquinas de escrever e seus livros comerciais no primeiro quarto, e uma escrivaninha, caixa, mesa de informações, cadeiras de braços e telefone no meu, constituem todo meu aparalhamento de trabalho. É muito fácil controlar isso com uma vista de olhos, e dirigi-lo. Sou muito jovem e os negócios se acumulam aos meus pés. Não me queixo, não me queixo. Desde o Ano Novo, um jovem alugou sem hesitar a sala contígua, pequena e desocupada, que por tanto tempo titubeei, estupidamente, em tomar para mim. Trata-se de um quarto com antecâmara e, além do mais, uma cozinha. Tivesse podido utilizar o quarto e a antecâmara – minhas duas empregadas sentiram-se mais uma vez sobrecarregadas em suas tarefas -, mas, para que me teria servido a cozinha? Esta pequena hesitação foi a causa de permitir que me tirassem a sala. Nela está instalado, pois, esse jovem. Chama-se Harras. Com exatidão não sei o que faz ali. Sobre a porta lê-se: “Harras, escritório”. Pedi informações, comunicaram-me que se trataria de um negócio idêntico ao meu. Na realidade, não vem ao caso dificultar-lhe a concessão de crédito, pois se trata de um homem jovem e de aspirações, cujas atividades tenham talvez futuro, mas não se poderia, contudo, aconselhar que se lhe outorgue crédito, pois atualmente, segundo todas as presunções, careceria de fundos. Quer dizer, a informação que se dá habitualmente quando não se sabe de nada. Às vezes encontro Harras na escada, deve ter sempre uma pressa extraordinária, pois se escapule diante de mim. Nem mesmo pude vê-lo bem ainda, e já tem pronta na mão a chave do escritório. Num instante abre a porta, e antes que o observe bem já deslizou para dentro como a cauda de uma rata e aí tenho outra vez à minha frente o cartaz “Harras, escritório”, que li muitas mais vezes do que o merece. A miserável finura das paredes, que denunciam o homem eternamente ativo, ocultam porém o desonesto. O telefone está apenso à parede que me separa do quarto de meu vizinho. Não obstante, destaco-o apenas como constatação particularmente irônica. Mesmo quando pendesse da parede oposta, ouvir-se-ia tudo da sala vizinha. Evitei o meu costume de pronunciar ao telefone o nome de meus clientes. Mas não é necessária muita astúcia para adivinhar os nomes através de característicos mas inevitáveis torneios da conversação. Às vezes, aguilhoado pela inquietação, sapateio nas pontas dos pés em volta do aparelho, com o receptor no ouvido, mas não posso impedir que se revelem segredos. Naturalmente, as resoluções de caráter comercial se tornam assim inseguras e minhas voz, trêmula. Que faz Harras enquanto telefono? Se quisesse exagerar muito – o que é preciso fazer com freqüência para ver claro -, poderia dizer: Harras não precisa telefone, usa o meu, colocou o sofá contra a parede e escuta; eu, em troca, quando o telefone toca, devo ir atender, tomar nota dos desejos do cliente, adotar resoluções graves, sustentar conversações de grandes proporções, porém, antes de tudo, proporcionar a Harras informações involuntárias, através da parede. Ou antes, nem mesmo espera o fim da conversação, porém que se ergue depois da passagem que lhe informa suficientemente sobre o caso, atira-se, segundo o seu costume, através da cidade e, antes de eu ter pendurado o receptor, está talvez trabalhando já contra mim.
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Kaguya Hime Anônimo
Há muito, muito tempo, existia um velhinho e uma velhinha, que viviam juntos numa casa no meio da floresta. Eles eram muito pobres e solitários, pois não tinham filhos para criar. O velhinho era conhecido pelo nome de Cortador de Bambus, pois, todos os dias, ele saía cedo para cortar bambus na floresta. Os dois faziam cestas e chapéus para vender e ganhar algum dinheiro. Um belo dia, enquanto estava na floresta, o velhinho avistou um broto de bambu, que brilhava, com uma luz muito intensa. Ele ficou espantado, pois, em anos e anos de trabalho, nunca havia visto algo como aquilo. Muito curioso, ele cortou o bambu e mal pôde acreditar no que viu. “Uma menina, uma menina! Tão pequena e tão linda, só pode ser um presente de Deus!”. Ele levou a pequena menina na palma de uma de suas mãos para casa. Ao ver a menina, a velhinha também ficou muito contente e eles resolveram que o nome dela seria Kaguya Hime (Princesa Radiante). A partir daquele dia, o velhinho passou a encontrar outros bambus brilhantes na floresta. Mas, ao invés de uma menina, eles continham moedas de ouro. Assim, a vida do casal melhorou e eles não precisavam mais produzir cestos para sobreviver. Eles creditaram o milagre à chegada de sua linda filha. Kaguya Hime crescia muito rápido e a cada dia parecia mais bonita. Em apenas três meses, ela já tinha o tamanho de uma criança de oito anos. Ninguém poderia acreditar que uma pessoa tão bonita pertencesse a este mundo. Logo os comentários sobre a beleza da Kaguya Hime se espalharam e vinham jovens de todos os cantos do país para conhecê-la. Todos queriam se casar com Kaguya, mas ela não queria se casar com ninguém. “Quero ficar ao lado de vocês dois”, dizia a jovem para seus pais. Mas cinco jovens nobres, de posições importantes, foram mais persistentes. Eles acamparam em frente à casa de Kaguya Hime e pediam uma chance a ela. Preocupado, o velhinho chamou Kaguya e disse: “Minha filha, eu gostaria muito de ter você sempre por perto, mas acho justo que se case. Escolha um dentre os cinco rapazes que estão acampados aqui”. Assim, a linda jovem decidiu. “Eu me casarei com aquele que me trouxer o objeto mágico que pedirei” Um colar feito com os olhos de um dragão, um vaso feito com pedras dos deuses que nunca se quebra, um manto de pele de animal forrado de ouro, um galho que faz crescer pedras preciosas, um leque que brilha como a luz do sol e uma concha que a andorinha põe junto com seus ovos. Estes foram os objetos que Kaguya Hime pediu. O velhinho levou os pedidos de Kaguya aos pretendentes acampados. Ele sabia que seria muito difícil conseguirem obter tais objetos. Qual não foi sua surpresa quando, ao final de alguns meses, todos os pretendentes trouxeram os presentes para Kaguya. Mas, quando eles foram obrigados a entregá-los a jovem, todos admitiram que os presentes eram falsos, pois conseguir os verdadeiros era uma missão muito difícil. E assim, nenhum deles obteve êxito. Quatro primaveras haviam se passado desde que Kaguya fora encontrada no broto de bambu. Mas ela ficava mais triste a cada dia. Noite após noite, Kaguya Hime olhava para a lua, suspirando. Preocupado, o velhinho um dia perguntou: “Por que está tão triste minha filha?”. “Eu gostaria de ficar aqui para sempre, mas logo devo retornar”, disse a jovem.” “Retornar, mas para onde? O seu lugar é aqui conosco, nunca deixaremos você partir”, disse o pai aflito.” “Este não é o meu reino, eu sou uma princesa de Reino da Lua e, na próxima lua cheia, eles virão me buscar”. Muito assustados com a reveladora confissão de Kaguya Hime, os velhinhos decidiram pedir ajuda ao príncipe do reino onde viviam. O príncipe ajudou e enviou muitos guardas para vigiarem a casa do casal. Um verdadeiro exército foi formado. No dia seguinte, a temida noite de lua cheia chegou. A casa estava tão vigiada que parecia impossível alguém conseguir levar Kaguya Hime. De repente, uma enorme luz surgiu no céu, como se milhares luas estivessem presentes ao mesmo tempo. A luz era tão intensa que ninguém conseguiu enxergar a carruagem que descia, guiada por um grande cavalo alado e muitas pessoas bem vestidas. Depois de algum tempo, quando a luz diminuiu, a carruagem já estava voando, em direção à lua. Kaguya Hime não estava mais presente, ela fora junto com a comitiva. Os velhinhos ficaram muito tristes, inconformados. Voltaram ao quarto de Kaguya e encontraram um potinho, presente da filha querida. Ela havia deixado um pó mágico, que garantiria a vida eterna para os dois. Mas, sem sua filha amada, os velhinhos não queriam viver para sempre. Eles recolheram todos os pertences de Kaguya e levaram para o monte mais alto do Japão. Lá, queimaram tudo, junto com o pó mágico deixado pela jovem. Uma fumacinha branca subiu ao céu naquele dia. A montanha era o Monte Fuji. Dizem que até hoje é possível ver a fumacinha subindo e subindo.
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O Artista Oscar Wilde
Um dia, despertou-lhe na alma o desejo de esculpir uma estátua do Prazer que dura um instante. E partiu pelo mundo à procura do bronze, porque ele só podia trabalhar o bronze. Mas todo o bronze existente no mundo havia desaparecido e em nenhuma parte o metal seria encontrado, a não ser na estátua da Dor que é permanente. E fora ele que, com as próprias mãos, fundira essa estátua, erigindo-a no túmulo de alguém a quem muito amara na vida. E na tumba da morta, que tanto amara, colocou a própria criação, como um símbolo do amor masculino, que é imortal, e a dor humana, que dura a vida inteira. E em todo o mundo não havia bronze, a não ser o dessa estátua. Ele, então, retirou a estátua que moldará, põ-la num grande forno, deixando-a derreter-se. E com o bronze da estátua da Dor que é permanente, fundiu a do Prazer que dura um instante.
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Sinaá – O Fim do Mundo Lenda indígena
Sinaá, o mais poderoso pajé da tribo Juruna, era filho de mãe índia e pai onça. Do felino herdara o poder de enxergar também pelas costas, o que lhe permitia observar tudo o que se passava ao seu redor. Caminhava com sua gente por toda a região, ensinando a seus companheiros serem bons e bravos. Seu povo alimentava-se de farinha de mandioca, raspa de madeira, jabutis e sucuris, cobras imensas que habitavam na água. Certa vez, uma enorme sucuri foi capturada e queimada por haver devorado diversos índios. Inesperadamente brotaram de suas cinzas diversas espécies de vegetais, como a mandioca, o milho, o cará, a abóbora, a pimenta, e algumas plantas frutíferas, até então desconhecidas para aquela tribo. Foi um pássaro surgido do céu que os ensinou a utilizar e preparar tais alimentos e também a fazê-los multiplicar-se. A partir daquele dia, fartas roças se formaram. Para garantir o sustento de seu povo, Sinaá, face às fortes chuvas e à ameaça de grande inundação, construiu uma imensa canoa, onde plantou mudas de cada espécie. Em poucos dias o rio transbordou e a enchente cobriu toda a região, mas o grande pajé livrou seu povo da fome. Já mais velho, Sinaá casou-se com uma aranha, que lhe teceu novas vestes pra melhor abrigá-lo. Chegando a atingir idade bastante avançada, já ostentava longas barbas brancas. Seus poderes, porém, permitiam-lhe remoçar a cada banho de cachoeira, para que pudesse viver até o fim de seu povo, como tanto queria. Quando isso ocorresse, Sinaá derrubaria a forquilha de uma enorme árvore que apontava para o céu, sustentando-o. O céu desabaria sobre todos os povos e o mundo teria o seu fim.
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Sobre o "Boletim Sentimental da Guerra no Recife” Marcos Silva Enviado pelo autor
Não vivi a época da Segunda Guerra Mundial, nasci depois. Mas tenho lembranças de infância que incluem homens e mulheres falando sobre a presença dos americanos em Natal, o deslumbramento de muitas mocinhas com os soldados ianques, namoros, transas, até gravidez - teve caso de americano que casou com namorada brasileira, minha mãe conhecia duas moças que foram pros EEUU com os maridos! Mauro Motta (foto) é um bom poeta, pai do excelente antropólogo Roberto Motta - ter um filho como Roberto já é um grande ato poético. Lembro do poema "Boletim sentimental da Guerra no Recife"* sendo declamado em Natal por uns amigos de esquerda, com ares de crítica anti-imperialista. Sempre achei o poema simplificador nesse aspecto. Quero crer que as moças (e duas delas eram minhas tias!) gostaram do que faziam. Pra que marcar o gozo pela culpa? Se muitas tiveram a vida destruída, a culpa não é do gozo e sim dos preconceitos sociais então vigentes. Claro, poesia é mais que registrar o que aconteceu, sabemos isso desde o velho Aristóteles. O problema é que meus colegas anti-imperialistas, declamando Motta, agiam como se o poema dele fosse tal registro fidedigno. Melhor pensar: gozar é tão bom! Pena que os preconceitos sociais estraguem tudo depois.
* Para ler o poema acesse ANTOLOGIA/Mauro Mota
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