PAPO FURADO by Jairo Lima
Banca do André Laurentino
Banca do Antonio Nahud Jr
Banca do Fernando Monteiro
Banca do François Silvestre
Banca do Geraldo Barboza de Oliveira Jr
Banca do Jairo Lima
Banca do Jarbas Martins
Banca do Joca Souza Leão
Banca do José Carlos Poroca
Banca do Laélio Ferreira
Banca do Marcos Silva
Banca do Pietro Wagner
Banca do Ronald Guimarães
Banca da Sonia Bierbard
Banca da Yerma Magalhães
 

Delicadeza versus Canudo
Fernando Monteiro

Você me desculpe, poeta Jairo, mas o que estão chamando de fetichismo em torno do “velho Livro” etc, representa uma DELICADEZA a mais perdida na voragem da vulgaridade “massmedia” que nos cerca, acachapante.
E, para ficar bem de acordo com as novidades virtualmente do “caralho” (para usar a sua palavra), aqui vai a indelicadeza de uma metáfora grossa:
ler um livro no Kindle (ou qualquer outro), em comparação com o contato direto das páginas impressas etc, é mais ou menos como fazer a mais profunda carícia oral, na amada, com um CANUDO de plástico.
Deu pra entender?
Jogue o canudo fora, poeta, e caia de boca nos velhos livros de sempre…, recém-descritos no post abaixo (do João da Mata – APOIADO!) com todos os requintes do fetichismo que eles seguirão inspirando, como as mulheres que a gente começa a beijar desde o alto da testa até a…

• Monteiro se refere a uma postagem que fiz lá no SP enaltecendo o livro digital e sugerindo que o livro de papel já era.

JL

******

Comentários sobre o poema “E para que ser poeta em tempos de penúria?", de Fernando Monteiro, postados no site Substantivo Plural

¶ Teu indignado poema, meu caríssimo Fernando, é uma prova da perenidade da poesia e da sua força; capaz de sobreviver, pela sua verdade, às catástrofes como a da Auschwitz, e a tragédias individuais como a do poeta Roberto Piva. Li o poema em sua formatação original, e o admirei muito pelas soluções encontradas, unindo à visualidade o teu verso melodioso e ácido. Com um abraço de admiração e estima.

Jarbas Martins

¶ Obrigado, Poeta.
Apesar do desalento — presente desde a pergunta do Piva, que ensejou o nosso poema –, eu também acredito na sobrevivência do verso (sob todas as formas etc), por sobre todos os desumanismos…

Fernando Monteiro

¶ Fernando:

Para comover. Vc, Piva e Orides comovem.

Marcos Silva

¶ Grato, Marcos. O poema tem sorte de encontrar leitores como você.

Fernando Monteiro

PS: Tenho recebido inúmeras mensagens de amigos e admiradores do editor Massao Ohno.
Destaco que foi ele — coincidentemente — quem revelou Roberto Piva, na famosa “Antologia dos Novíssimos” da São Paulo de início dos anos 1960…

Fernando Monteiro

¶ “Versos não precisam ser bonitos. Versos precisam ser verdadeiros.” (Fernando Monteiro).

Numa pontualidade britânica do SP foi postado o teu poema e eu sentei-me diante do computador e o li e reli e diante de tanta emoção mal conseguia respirar.

Concordo com a frase acima, onde dizes que poemas têm que ser verdadeiros e, como tão bem disseste poeta, neste: “…país de bienais e flips, flops e flups”. (Fernando Monteiro) tenho lido que o lirismo causa enjoo, poemas amorosos são melosos e isso é triste e eu lamento. É preciso que haja memória e não flips, flops e flups que enaltecem aqueles que são figurinhas carimbadas e abonados da mídia. Eu, no entanto, voto em todo sentimento verdadeiro, dando total liberdade de ser como se é realmente.

E eu, que não me incomodo com flips, flops e flups, te parabenizo e digo que:

Fazer poesia é como vomitar, abrir o coração e deixar tudo sair. (Ednar Andrade).

Ednar Andrade

¶ E para quer ser poeta em tempos de penúria?

Para escrever o que precisa ser escrito. O você faz divinamente.

Edjane Linhares

¶ De uma entrevista com Roberto Piva:

FW – Num dos últimos poemas do Paranóia, você diz: “eu quero a destruição de tudo o que é frágil”…

RP – Mas sabemos que não é nada frágil aquilo cuja destruição eu desejo. A poesia é que é frágil, é uma forma de abrir brechas na realidade; como o Baudelaire, o Artaud, o Gottfried Benn e o Georg Trakl abriram. Mas não impediram Auschwitz. O poeta não existe para impedir essas coisas. O poeta existe para impedir que as pessoas parem de sonhar.

Fernando

Sua poesia é necessária. É preciso colocar “ordem” nesse assim chamado posmodernismo onde tudo é pragmatismo- para que serve? quem é? quanto vale? com quem anda?
Muito bem colocado Piva ao lado de Orides e do Massao, e de Hilda e ao seu lado e ao nosso lado: o lado dos que continuam acreditando na poesia.
Comovente seu poema. Evoé!

Elizabeth Lorenzotti

¶ Seu poema é uma atitude literária que rompe o tipo de ligações pessoais comuns e vigentes entre artistas nos dias que seguem. Rompe e ao mesmo tempo as restaura num padrão maior de humanidade já infelizmente esquecido.

Alberto Lacet

¶ Fernando, por favor mande seu email, que o poeta Celso de Alencar, amigo do Piva, gostou muito e quer entrar em contato com você. Ele disse o seguinte:
” Esse poema precisa ser publicado isoladamente. Trata-se de uma feliz criação. Para se criar um grande poema, não precisamos ter convivido com aquilo ou com aquele que nos motivou. Precisamos da palavra e da compreensão da poesia. A emoção e a competência foram cúmplices do Fernando nessa invenção.”

Um abraço

Elizabeth Lorenzotti

¶ Agradeço a Ednar, Edjane e ao Lacet.
Agradeço também a você, ELIZABETH, pelo apoio do VIVABABEL ao “lançamento” virtual deste poema fraternalmente acolhido por Tácito Costa aqui no SP.
Fui grande amigo de Massao Ohno (o “samurai”, inclusive, editou o nosso ECOMÉTRICA, em 1983), e sempre admirei Piva, a sua poesia e a sua rebeldia “imortalmente jovem”, como diria Dylan Thomas.
A São Paulo na qual Roberto surgiu e viveu a primeira metade da sua vida (talvez um pouco mais do que isso) desapareceu, agora, com ele e com o Massao, editor zen de empreitadas quixotescas entretanto levadas a bom termo nas noites friorentas da bela (SIM, BELA!) “Sampa”…
Participei de algumas delas, e nunca vou esquecê-las.
O poema — que você alinha tão bem, Elizabeth, contra os inúmeros “para que serve? quem é? quanto vale? com quem anda?”… –, apesar da ira etc, funciona (eu creio) também como um gesto de ternura final para com todos que, como Piva, Orides e Massao, seguiram resistindo até o amargo fim…
[ Meu e-mail é: fernandomonteiro@superig.com.br ]

Fernando Monteiro 

¶ E nesses tempos de penúria, gasto mais R$ 1 na lan house, que insiste em me mandar embora, para chegar às últimas linhas de seu poema, Fernando, e que poema. Para que, Fernando, você pergunta. Eu não sei, mas me emociono.

Alex de Souza


¶ Fernando, São Paulo não é mais bela como foi, quando Massao Ohno editava os Novissimos.
Mas os poetas resisitirão, sempre, tentando “impedir que as pessoas parem de sonhar.” Abraço

Elizabeth Lorenzotti

¶ Um poema belo, como a pedra. Duro, como a flor. Doído e doido como Piva. Apenas um poema, quase do tamanho da dor.

François Silvestre

¶ Penúria e fúria: ofício de poesia

Por Marcos Silva

O poema “E para que ser poeta em tempos de penúria”, de Fernando Monteiro, dentre tantos aspectos, faz um duplo desafio: para que estou escrevendo isto, para que você está lendo isto? Nós, leitores, movemo-nos junto com o poema – comovemo-nos. Os tempos permanecem os mesmos?
Uma primeira constatação: poesia desafia porque existe e é lida.
Os tempos são de penúria: será assim para sempre?
A poesia, em seu corpo de palavras, diz que não: nos tempos de penúria, ela vai além. Certamente, sem qualquer garantia contrária de que a penúria acabará e pronto, final feliz. Mas surge uma possibilidade: a penúria pode não ser para sempre – embora possa também retornar, acabar de novo, retornar de novo.
Poesia, portanto, é ato de poder diante de outros poderes. Essa penúria é contra a poesia porque sabe com quem está lidando – e a poesia existe quando lhe responde no mesmo nível e com altivez. De nada adiantará a poesia entrar em estado de autocomiseração nem autoflagelação, síndrome do “ai de mim!”. Afirmar seu poder corresponde a sua razão de ser: digo, logo existo.
O desafio da poesia se faz aqui com palavras. Uma palavra significa algo, pode vir a significar muitas outras coisas e deixar de significar outras tantas. Penúria é mais que pobreza. Fúria é mais que agressividade. Poder é mais que governo e propriedade.
Há um poder que a poesia desafia por sua simples existência: o poder de dizer e fazer dizer (interrogar, indagar, confrontar). Por ser absurda num tempo utilitário, poesia subverte e, do ponto de vista de quem manda, precisa ser anulada – silenciada explicitamente ou transformada em tópico mundano de festa literária, com maior destaque para batida de maracujá que para as dificuldades e conquistas do verbo. Mas ela insiste: “pisar ao contrário” na terra do Curupira.
Para quê?
Para ser.

¶ E para que esse comentário!
Por João da Mata

Grande Fernando,

Ainda estou sem fôlego. Não consegui sorver todo o néctar-plus-veneno.
Poesia é signo, você sabe. Sabe também que ela é inútil.
Você escreve para poucos. Sabe, né.
Grande erudito, na linha de elliotiana – poundiana.
Dizer que gostei nada significa. Não é símbolo. Não reflete a beleza da poesia na bela companhia de Massao, que conheci em verso, prosa e livros maravilhosos.
Lembro que conheci Hilda em 1980 com um livro editado por ele.
Piva que eu adoro. Orides que viveu para poetar.
E eu punhetando com esse comentário besta

Abraços,

¶ “E para que ser poeta em tempos de penúria?

Do crítico e ensaísta Andre Seffrin, por e-mail, sobre o poema “E para que ser poeta em tempos de penúria?, de Fernando Monteiro, publicado ontem no SP. Ainda hoje o poema estará também na nossa ESTANTE virtual, onde já figura outro poema longo de Monteiro, “Vi uma foto de Anna Akhmátova”.
Abaixo o e-mail de Seffrin:
Meu caro Fernando,
Estive fora da cidade, sem acesso a e-mail, e só agora consegui ler o seu belíssimo e fortíssimo poema – que tem a mesma têmpera dos homenageados, Hilda e Piva principalmente, e de todos os altos momentos de nossa poesia moderna.
Vou divulgá-lo entre amigos da poesia, isto é, da alta poesia.

Abraço do seu leitor de sempre,

André

******


“E para que ser poeta em tempos de penúria?”
Fernando Monteiro

Insepulta jaz a pergunta acima

e bem acima do motivo

supostamente íntimo

visto no verso de um dos últimos poemas de Roberto Piva.

A inquirição, franca, fende a fina porcelana de cera dos ouvidos.

Sabemos da penúria,

porém não queremos saber dela.

Plantamos a flor carnívora,

mas desviamos a vista

quando o jardim do pecado

castiga com isso:

indiferença, acídia, tédio mortal

no peito de avestruzes

(os do estômago forte

para literatura feita

com lixo).

Lixo, lixo, lixo:

afirmou três vezes, o Roberto

Pedro da não-negação pívia,

no vôo de Gavião livre

acima da poesia brasileira

do avestruzismo afundando

no tapete vermelho

dos prêmios paulistas

que nunca foram para as mãos

paulistanas desse ímpio gentil,

suave no convívio

porém feroz na recusa

de comércio literário

& negócios do filth.

Tardia lição de um pária,

a pergunta posta no lixo

basta como indagação direta,

resta como interrogação pura

de dentro para fora da sua vida:

para que ser poeta em época

de bosta blindando tímpanos?

Ainda incomoda muita gente,

porque perguntar é claro que ofende

(e elefantes chateiam muito menos,

naquele refrão de cantilena),

a penúria a pesar mais, muito mais, do que setenta e dois mil paquidermes do circo embutido no círculo de dúvidas levantadas pela palavra indicando (múltipla escolha, agora):

A) “Um idoso precisando de grana,

com choro e sem vê-la?”

B) “O solitário sem recursos,

num prédio degradado da Sampa

que faz a delícia dos cineastas

de olho de vidro?”

C) “Aluguéis em atraso, dívidas,

a necessidade de tratar os dentes

de ilustre entre os inadimplentes?”…

D) “Etc etc.”

[OBSERVAÇÃO: Dessa forma, é doce morrer no mar

da pergunta debitada ao desalento, remetida ao gosto pelo autoflagelo,

o fingidor a fingir que a penúria seria só a do poeta,

o mais marginal dentre os vates menos ilustres da nossa lira,

pois Piva não teve sorte na vida, nenhum amigo na Folha

e foi curto minuto no noticiário noturno apenas quando morreu

en passant para a TV voltada para a montanha do Lixo.]

“E para que ser poeta em tempos de penúria?”

é um dedo que nos acusa, trêmulo,

e não devido ao Parkinson do poeta.

O fato é que ultrapassa do tecido biográfico,

dos dados de cartório, geografia e outros

[PIVA, ROBERTO – São Paulo, 1937/2010]

e progride em acusação, do patamar da pobreza

para um geral “mal estar na cultura”,

uma doença suspensa sobre as cabeças

acima das quais paira a cinza

da pergunta do bardo por anos e anos

tentando, na ignorância da penúria,

“ressuscitar a arte morta da poesia;

errado desde o início,

não rigorosamente,

mas vendo que havia nascido

num país meio selvagem,

fora de época”.

Isso é fragmento de Pound,

ou um centavo da sua franqueza

dedicada ao mesmo objeto

do falso desdém

de Marianne Moore:

Eu, também, não gosto dela.

Lendo-a, no entanto, com um

perfeito desdém por ela,

descobre-se na poesia

um lugar, afinal, para as coisas

autênticas.

“Delicada situação financeira” etc.,

referiram alguns necrológios em lamento

impresso de delicadeza uníssona,

eu reconheço, para com a memória de Piva.

Com certeza, delicada era a espessura

de nuvem

do seu sistema (?) de vida

refletida no espelho d’água

de uma foto fazendo tremer,

na imagem do poeta sessentão,

a marca dos anos finais

de sol negro no seu endereço

de solidão no centro populoso

da maior cidade da América Latina:

Aqui morou um menino de fazenda

transformado em poeta urbano

de capa do terceiro caderno

que o mendigo depois usa

com finalidades higiênicas.

Nas páginas de jornais,

quando acontecia de se lembrarem dele,

Roberto sabia encenar para a estagiária

enviada da redação (a propósito de qualquer besteira),

o lirismo transverso de uma espécie de anjo

decadente a fazer aquelas perguntas tortas

pelo mau uso do cachimbo fora das bocas

da moda em Liberdade, Vila Olímpia

e Moema.

Não era, entretanto, um amador em espetáculo

performático (y otras frescuras),

e o caso da pergunta que ele deixou perfilada

num verso até simples,

adverte o tempo de aposentar poetas,

abre o verbo,

diz claramente:

em épocas de penúria deprimindo o espírito,

a poesia se torna absurda,

sem sentido, dispensável, inútil,

deslocada e carente de público

inclusive para ouvir o tilintar

do dinheiro, realmente,

num poema de Ritsos:

Tarde sombria como um bolso vazio.
No fundo do bolso um buraco doce, penugento.

Por lá passas um dedo em segredo,
tocas a própria coxa como se tocasses
outro corpo, maior, estranho, profundo
– o corpo da noite ou da tua morte.

Por esse buraco caem as moedas todas,
mesmo as de ouro, cunhadas com a efígie
esplêndida e jovem do Príncipe dos Lírios
.

A pergunta de Piva – essa fissura –

revela meramente o que ela revela,

pois o cão do derradeiro livro

não produziria um ganido,

ao latir para tímpanos blindados

pela incultura.

É claro que faltavam conforto, vinhos

e rosas,

sendo parcas as rendas do herdeiro

de antigas terras sumidas

com roseirais na bruma.

E poucos os meios (mais do que os fins)

para os longos fins de semana,

o garoto da banca de revistas,

a importada edição dos inéditos

de Pier Paolo Pasolini.

Tudo tão verdadeiro quanto distante

da essência de outras penúrias

entre esquinas de garoas

e galerias de arte em vernissages

cujo rumor de cálices noturnos

chega aos guardadores de carros

como a música do paraíso

de inalcançáveis perdizes.

Para que ser poeta em tempos assim?

Quando Piva faleceu (e faz pouco tempo),

todos evitaram cuidadosamente

a simplicidade desconcertante

da interrogação relativa

aos Tempos de Penúria

Intelectual,

Moral,

Social,

Sexual,

Musical,

Teatral,

Poetal,

Caricatural…

virando uma exposição no MASP,

um patrocínio da Lei Rouanet,

uma loucura domesticada,

uma homenagem ao terraço Itália,

uma retrospectiva de metrô dedicada ao Bardi

e esquecida dos Flávios da família patrícia

da Casa do Caralho pichado

no monumento àquela revolução

Constitucionalista (com “C” grande)

que é um caso de São Paulo,

como Jânio Quadros,

os Mutantes,

os irmãos Campos

e Hebe Camargo.

Tudo isso está saindo assim

para dizer que Piva começou

quando as edições de Massao

(por favor, não deixem morrer o Editor, sem que ele ouça o “Ohno!” sendo chamado entre os nomes fundamentais da fé clara na poesia, numa época de treva),

os livros despontando da Oscar Freire

entre aguardente e rara consolação

de um Piva no meio dos pífios

entre poetas lançados assim mesmo

(o samurai não usava a katana,

mas longos cabelos de Mifune

e o olho de receber uma Hilda Hilst

com todas as honras).

Hilda! Era instigante encontrar pessoas estranhas

nos bares, moças de botinas, atores que não dormiam,

atrizes que fumavam demais,

gente saudável do modo mais incorretamente político

possível entre invernos e repressões,

notícias vagas de espiões

e manifestos da classe unida

para terminar em separação,

“Diretas Já!”

e outros gritos que vulgarizam poemas

ditos longos (e pré-ditos), elegantes,

essas porras de novo,

e Piva e a prova de que nada muda

– quando no fundo se deseja

a mudança de Lampedusa,

de Salina para Salina.

Fui mal, nessa tentativa de síntese.

Sou ruim, quando se trata de ver de longe

e de perto ao mesmo tempo.

Finjam que não leram,

E recomecemos dos escândalos paulistanos

que sempre terminam bem absorvidos

pela capital grande demais para se assustar

com uma arenga de artista.

Roberto Piva, apesar disso,

bem que tentou,

enquanto seus amigos agora respiram,

afinal saudosos, aliviadamente,

na neblina.

Ele aceitou pisar ao contrário

na sarjeta cuspida pelos mendigos,

entre seringas e camisinhas usadas

por trás de fumaças das pamonhas

cozidas para os nordestinos

da São João dos antigos cinemas

pornôs reforçados por sexo ao vivo.

Era o puro desespero que Piva via

no palco e na platéia de mãos sujas

de esperma e gosmenta casca de milho

no chão das salas vinte e quatro horas

sem limpeza,

até vir uma mulher com o uniforme de serviço

a fim de suportar a imundície removida com pá,

porém sem a luva de uso “uma por vez”

de recomendação da Saúde Púbica.

Roberto Piva estava pobre e triste,

porém a pergunta que ele deixou

feita para a Indiferença,

dirigida ao Tédio,

destinada à Morte (e fim),

não dizia respeito somente à conta bancária

de movimento certamente ridículo

para o critério dos cheques especiais regulados

pela central de algum banco centralíssimo

na Paulista ou no antigo Viaduto do Chá

sem meias xícaras de medidas

contra o comércio de artigos de plástico

dos miseráveis que comoviam o poeta,

uma vez que as lágrimas de Roberto

raramente eram para si mesmo,

a cara amassada no espelho

implacável da queda dos cabelos

também nos travesseiros

ligeiramente azedos

da longa noite sozinho,

sem beleza

Tenho uma história para contar, ainda.

De certo modo, é uma história sobre Piva e eu,

que nunca nos conhecemos em São Paulo

ou no Recife ou em outro lugar qualquer

deste país de bienais e flips, flops e flups.

Acontece que alguém de um “Círculo de Leitores OF”

(assim mesmo) resolveu me convidar para ler

fragmentos de Vi uma foto de Anna Akhmátova

e eu perguntei se pagavam,

e a moça do outro lado da linha

[num mau poema, isso quer dizer telefone]

respondeu que “ofereciam passagem e hospedagem”,

mas cachê não.

Pagamentos eram para a sala,

para “o rapaz do som”, “a companhia de eletricidade”,

a “gráfica dos cartazes” e tudo o mais,

menos para o poeta convidado para recitar poemas

ou que raio fosse (digo eu).

Irritado, eu emendei: “Dizer poesia”.

Ela disse: “Pois é. Não há dinheiro para isso.”

Eu disse: “Eu já entendi. Mas você devia ter dito DIZER POESIA,

em vez de recitar poemas.”

Ela disse: “Hein?”

Eu desisti.

Mas voltei a perguntar: “E o que é OF? É inglês?”

Ela disse: “Não! É Orides Fontela. Circulo de Leituras Orides Fontela”…

Então, eu aceitei ir “recitar poemas”,

isto é, aceitei viajar sem ganhar um centavo,

com um propósito “nobre”, “cultural” (essas merdas)

embora a própria Orides houvesse escrito belamente:

Viajar
mas não
para

viajar
mas sem
onde

sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.

Como eu poderia cobrar alguns trocados

de um Círculo de Leitores tocando

a memória tristíssima da poeta mais pobre do mundo?

Orides Fontela foi despejada,

ficou sem lugar para morar

e teve que se alojar de qualquer jeito

na Casa do Estudante,

na mesma Avenida São João que você conhecia tão bem,

meu poeta (alguma vez chegou a ver Orides

recolhendo algum bichano transido de frio

entre uma delicatessen e um hotel para lúmpens?)…

Esse convite foi na semana em que você morreu, Piva,

eu estava comovido e a lembrança da pobre Orides

veio destroçar ainda mais a minha resolução de cobrar

pra viajar com rota e para um Círculo liso,

com a finalidade de ler partes do Anna Akhmátova

ou qualquer outra excrescência de tempos de penúria

(para que ler poesia?), de maneira que eu propus:

“Eu aceito, mas vou para falar sobre o Roberto Piva”.

Ela: “Quem?”

Eu: “Piva, o poeta que acaba de morrer.”

Ela: “Era seu amigo?”

Eu: “Não”.

Ela: “E por que o senhor quer falar sobre ele?”

Eu: “Porque um dos seus últimos versos não me sai da cabeça”.

Ela: “É tão bonito assim?”

Eu: “Versos não precisam ser bonitos. Versos precisam ser verdadeiros.”

Ela: “Diga ele”.

Eu: “Diga-o”.

Ela: “Eu não sei qual verso é esse que não sai da cabeça do senhor.”

Eu: “Eu sei.”

Ela: “Então, diga”.

Eu: “E para que ser poeta em tempos de penúria?”

É claro que eu terminei indo lá,

no Centro de Leituras Orides Fontela,

e falei sobre Orides e sobre Roberto,

ambos pobres e doentes e grandes poetas

que São Paulo ignorou de diferentes maneiras,

autorizando o Brasil a ignorá-los também.

Porque, realmente, não há nenhuma razão

para se ser poeta em tempos de penúria

feita da não-percepção do muito que depende

de um “carrinho de bebê vermelho ao sol”

ou qualquer outra banalidade aparente

voltando num sonho leve como avencas

na sombra do perdido paraíso da infância

de vagalumes presos.

Eles estavam já apagados, Piva,

Na palma envelhecida de Parkinson e saliva,

Cansaço e mais “os anos sem emoção” (…)

São Paulo desaparecera por detrás da juventude

da geração de Robertos confiados

(de modos diversos) na aventura da vida

a trair pelo menos os Pivas (e as Orides).

Não há mais poemas nos muros de eleições sem inspiração.

Não há mais inspiração para seja o que for que ainda não tenha sido traído

ao menos por distração (concedido seja o beneplácito da dúvida sobre a determinação de algumas traições).

“E para que ser poeta em tempos de penúria?”

Você perguntou tão francamente

que ninguém poderia prestar muita atenção,

meu poeta pronto para morrer desse lamento,

além da doença e da orfandade de si,

Orfeu perguntando “para quê”?…

E todos fazendo como se a pergunta

não fosse com ninguém,

além do próprio poeta Piva.

[NOTA: O poema já estava terminado – exatamente no dia 3 de agosto, um mês após a morte de Roberto Piva -- quando me deparei com a seguinte notícia, conservada na internet: 13 de junho de 2010... O editor Massao Ohno, de 74 anos, morreu anteontem à noite na Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba, onde estava internado havia uma semana etc. Apesar disso, decidi manter o verso referente ao Massao – verso que ainda o toma por vivo – íntegro no seu engano, uma vez que a notícia sobre a morte do Editor, despercebida, é mais um exemplo dos “tempos de penúria” de que fala o verso do Piva. FERNANDO MONTEIRO]

******

Novo poema de Monteiro será lançado quinta 12/08/2010

O Substantivo Plural (www.substantivoplural.com.br) lança com exclusividade, no dia 12, quinta-feira, às 10 horas, o novo poema longo do escritor Fernando Monteiro, intitulado “E PARA QUE SER POETA EM TEMPOS DE PENÚRIA?”
O título é um verso retirado de poema do poeta Roberto Piva, que faleceu recentemente. Homenageia Piva e ao mesmo tempo reage com vigor à atual cena cultural/literária brasileira.
No sábado, 14, às 15h, o poema será lido durante a Flash Mob, na Bienal do Livro de São Paulo. A Flash Mob está sendo organizada por um grupo de jovens escritores do Sudeste. Já publicamos dois posts aqui sobre esse evento, ao qual nos integramos.

******

Jairo amigo:

Bom dia.

Estou divulgando isto aqui, a pedido de jovens escritores (sérios) de Curitiba. Gente da melhor qualidade etc.
Gostaria que vosmicê se possível divulgasse, aí no blog - até pelo foco original (e oportuno) da proposta deles:
"A ideia é chamar a atenção para a importância da leitura (e não apenas da compra de livros)."

Faltava alguém chamar a atenção para isso, nas Bienais!
Abraço,

Fernando

Estará na Bienal de SP no dia 14/08/2010?

Então, convidamos você para participar de uma mobilização pacífica que está começando a tomar corpo via Twitter e Facebook. É o Flash Mob da Bienal que terá um formato simples. Não se preocupe que ninguém aqui d'O BULE pretende inventar coreografia. Após sinal (um toque único de apito) os mobilizadores pegarão livros e ficarão em posição de leitura, imóveis, seja sentados no chão, de pé, ajoelhados ou até deitados.
A ideia é chamar a atenção para a importância da leitura (e não apenas da compra de livros). Ainda há muito para ser feito para que esse flash mob freeze aconteça, como por exemplo mais adesões. Um flash mob essencialmente é uma criação coletiva, descentralizada, que se espalha viralmente em prol de um único objetivo, em nosso caso: a leitura.
Querendo saber mais, clique #flashmobule no “search” do Twitter ou procure por informações junto aos contatos a seguir. Se, por acaso, você não puder estar na Bienal nesse dia, tudo bem, apenas pedimos que nos ajude a divulgar essa ação a quem você conhece.

Serviço
Local – pavilhão do Anhembi, com núcleo no corredor H.
Horário de início – 15 horas.
Sinal para ação – um toque de apito dado pelos 3 colunistas d'O BULE presentes: Cláudio Parreira, Homero Gomes e Mauro Siqueira
Duração – pelo menos 2 minutos, até o toque duplo dos apitos, que indicará o fim da ação.
Ação – após sinal, ficar imóvel em posição de leitura (a escolher).
Contatos – Twitter: @sisifodesatento, @ClaudioParreira, @maurovss, @rogerssilva, @rnalmeida e @obule_blogue. Facebook de: Homero Gomes, Claudio Parreira, Mauro Siqueira, além do Facebule.

Homero Gomes

Co-editor e Colunista de O Bule - www.o-bule.blogspot.com
Colunista do Página Cultural - www.paginacultural.com.br
Jamé Vu no Twitter - http://twitter.com/hgomesjamevu
Sísifo Desatento no Twitter - http://twitter.com/sisifodesatento

******


11000000101000001000100010001000100010001111111110001000100000001010101010101010110000001111000010100000111111111000100011110000
FOLHA DE ROSTO
JAIRO LIMA
LINKS
CONTATO
ANTOLOGIA